MIUT 2017 – relato

Relato MIUT

Este relato é muito técnico. Não contém apontamentos literários e de comédia para efeitos de entretenimento, tais como partes esfoladas e outros pormenores do estilo grosseiro ou de revista. É verdade que há efectivamente um atleta português que logo na subida para os Estanquinhos exclama alto e bom som: “epá foda-se já me caguei todo”, mas isso é uma excepção e uma prova deste nível não é feita de momentos assim. O meu frontal e o dos cerca de 50 atletas em fila indiana compacta iluminaram o infeliz, a 2 metros do trilho, enfiado entre arbustos com o à vontade de um veado encadeado. Percebi que ia tentando remediar os estragos. Os amigos algo embaraçados revezaram-se na distribuição de lenços de papel ao infeliz que se justificava “…e fui à casa de banho umas três vezes antes e nada, agora chego aqui e cago-me todo”.

Foi um momento de entretenimento. Este relato é destinado a quem? Não sei. Li agora mesmo o relato do amigo Pedro Baptista com quem fiz os últimos kms da Ehunmilak e que terminou isto em 21h29m. A impressão que ele tem da prova (que já terminou 3x) é bem diferente da minha.

Este relato é destinado especialmente a trail runners no segmento entusiasta / sério com a mania, mas não assim tão bom como o Pedro ou o meu amigo João, pessoas que acabam o MIUT na casa das sub 24h na boa.

O MIUT tem 115km e +7100m de desnível positivo. Atravessa a ilha da Madeira de Porto Moniz a Machico. A partida é dada à meia noite. O tempo limite é de 36 horas. O piso é muito técnico. As temperaturas e altitudes oscilam entre o nível do mar e os quase 1700 metros. Para dificultar mais as coisas, este ano a prova contou com cerca de 500 atletas franceses que falaram francês e que foram franceses durante o percurso. Também houve pelo menos um espanhol que logo nos Estanquinhos se virou para mim a procurar confirmação de que era “real” o que lhe estava a acontecer. “Puta madre!” diz-me ele a beber isotónico com a mão a tremer e eu a pensar  “pois é espanholito, querias caramielos, era?” e foi assim este diálogo europeu entre povos do sul, contra a austeridade.

Como é sabido de todos no planeta, desisti desta prova em 2016, na Portela, sensivelmente ao km 98. Voltei de novo para encerrar o MIUT e encerrei, faço já aqui um spoiler. Teria desistido de novo não fosse ter desistido em 2016. É que eu tenho duas coisas que recomendo a todos os ultra runners, duas forças genuínas. E são elas o orgulho e a vergonha na cara. O ultra runner que tenha uma fonte inesgotável de orgulho e vergonha na cara não desiste de nada a que se propõe de forma pública.

Este ano fui sem o meu companheiro João Paiva que, tendo já completado com distinção o MIUT em 2016 me fez um educado mas assertivo manguito quando lhe propus repetir a dose. Compreendo-o.

Encontrei-me assim de novo em Porto Moniz, às 22h e pouco, deitado num montinho de relva, a dormitar, alheio à confusão e excitação da partida.

Estava alheado da excitação do MIUT e de tudo à minha volta. Já era a segunda vez que tentava o MIUT Parece que como já sabemos que vai ser mau, não temos expectativas que não seja. Somos aquele veterano de guerra que é enviado de volta para a linha da frente por um erro burocrático e que já sabe ao que vai e que enquanto os jovens inconscientes cantam e fazem brindes no porão do navio, ele fica apenas numa cama de rede com um cigarro a contemplar as estrelas pela última vez… Isso ou então foi dos 2 valdispers que tomei no dia antes.

Dica prática MIUT #53: a prova começa à meia noite. O tempo de conclusão da maior parte dos atletas é para cima de 24 horas. Como tal vão experimentar sonolência no fim da prova. É importante ter o sono em dia. O uso de drogas do tipo barbitúricos é recomendado para dormir bem na véspera e se possível meter umas sestas. Em 2016 estava mais excitado que uma menina na véspera de um concerto do Justin Bieber. Fiz quase directa na noite antes. Aconteceu-me o mesmo na Ehunmilak, o que resultou em praticamente 3 directas consecutivas, com alucinações jeitosas. Não há necessidade. Pensem que há pessoas com vidas normais que precisam de ansiolíticos e barbitúrios diariamente porque não conseguem lidar com a vida normal. Vocês vão fazer uma ultra de 24 horas ou mais: merecem o calmante.

Finalmente tirei a roupa, bebi um shot de cafeína e entreguei os sacos ao som do Bailinho da Madeira, uma melodia que a espaços me entrou na cabeça e não saiu, torturando-me. Entrei com calma no “curral” dos corredores. Este ano nem verificaram o material, limitaram-se ao controlo zero. Vi o primeiro desclassificado do dia, um espertalhuço que saltou a vedação para conseguir vir cá para a frente. Ao fazê-lo falhou o controlo zero à entrada. Eu ia avisá-lo mas ele era francês.

Dica #45: não liguem ao engarrafamento inicial. Aqui divirjo dos cromos. Se querem fazer mega tempo força nisso. Se são pessoas normais, tenham calma. O meu erro em 2016, como sou rápido em downhill, foi pensar que tinha de me chegar à frente até ao Fanal para fazer a descida à vontade. Este ano sentia-me relaxado. Senti que não tinha de me despachar, só queria chegar ao fim bem, como se isso fosse possível no MIUT.

Depois de subir ao Fanal e descer a Chão da Ribeira, atrapalhado por tansos com medo das descidas, começa a subida aos Estanquinhos. Acabar ou não o MIUT decide-se na subida aos Estanquinhos antes do km 30. As pessoas tendem a focar-se na pancada monumental do Curral das Freiras para o Pico Ruivo, mas na verdade o massacre que dá o tom para o resto é a subida para Estanquinhos. 1385 metros de desnível positivo em menos de 10km com temperaturas gélidas no topo. A subida é monótona como o raio. Serpenteia. Olha-se para cima e vemos luzes de frontais uns 100 ou 200 metros acima o que é demolidor. Foi aqui que o atleta se borrou. Mas também vemos uma serpente de luzes serra abaixo e serra acima. É uma visão fabulosa. Calma, calma e calma. Logo nos Estanquinhos há desistências.

Tempo para mais um apontamento de humor.

À minha frente seguia uma atleta com calções que tinham escrito VEGAN bem grande atrás. O comentário chocarreiro e de baixo nível atrás de mim não fez esperar, com sotaque do norte:

-Olha, já reparaste ali naquele pormenor?
-Qual?
-Aquele é vegan. Ali não entra chouriço. Só cenoura e courgete.

Fim de apontamento de humor.

No estanquinhos estava bastante público como é hábito, a aplaudir os corredores. É um dos postos mais espectaculares que conheço do trail running, por estar assim a mais de 1600 metros, ao frio, de madrugada, e estar cheio de gente para além dos voluntários, a aplaudir e incentivar. O povo da Madeira é fantástico. Lembrou-me o espírito do país Basco, um espírito que aprecia a montanha.

Segui o mais depressa que pude devido às baixas temperaturas. Céu estrelado, com uma lua em quarto minguante no enfiamento do caminho. Como em 2016, a vegetação com geada e orvalho. Muito frio, o ar gélido e cristalino.

Segue-se a descida para o Rosário, uma das descidas mais técnicas do MIUT. Em 2016 foi um pesadelo devido à lama, este ano não choveu tanto e foi mais fácil. Com o piso bem menos escorregadio caí apenas 1 vez com grande aparato. A esse propósito, caí bem no meio de um monte de pedregulhos pontiagudos e disse “ai” e vieram-me ajudar. Pronto.

Comparativamente com 2016 estava a sentir-me muito bem. Verifiquei há pouco que estava mais lento uns 30 ou 40 minutos. Quando passei a encumeada e cheguei ao posto de abastecimento no Hotel da Encumeada estava mesmo eufórico, pois lembro-me de estar KO por esta altura. Ainda não tinha chegado ao tira teimas. A subida do “pipe-line” antes do Curral das Freiras, ao km 45 sensivelmente. Em 2016 foi aqui que morri. Subi a passo de caracol, ofegando, cheio de calor, sem perceber o que se passava. Desta vez não digo que tenha saltitado como um coelho, mas fiz sem grandes problemas. No fim até assobiei músicas quando o terreno alisou. É uma coisa que eu faço para irritar o trail runner que vai à minha frente. Ponho-me a assobiar o malhão malhão ou o bailinho da madeira, demonstrando que a minha respiração está controlada e normal, enquanto o desgraçado está a ofegar. Resulta quase sempre, a vítima desvia-se irritada só para não ter de me ouvir, eu passo e depois sou eu que ofego para recuperar desta manobra, mas longe da vista. O trail é muito psicológico. É tudo psicológico.

A descida para o curral das freiras é um massacre de calhaus e pó, e de vertigens, mas é o single track mais bonito e espectacular de trail do mundo para quem consiga lidar com as vertigens e olhar. Eu como não consigo só vejo a paisagem no início e depois só vejo mesmo onde ponho os pés. O chão é muito bonito por ali, muito calhau diversificado e o pó é muito bonito, deixa as pegadas bem definidas. Cheguei finalmente ao curral pelas 11:40, mesmo tempo praticamente que em 2016 mas a sentir-me muito melhor. Devagar se vai ao longe.

Vamos fazer fast forward. Sou péssimo em relatos porque na minha cabeça tudo se mistura e fico com uma amnésia. Digamos que a pouco e pouco fui recuperando face a 2016 no posto onde desisti em 2016 ia já com 1 hora de vantagem, o que demonstra como ir mais calmo no início compensa.

Saí do curral com roupinha lavada, banho tomado e barba feita e finalmente preparado para o sol, com boné e creme 50. Em 2016 sofri um escaldão brutal nesta subida. Fui carregando o suunto com o power bank. Esta subida é objectivamente a pior e não deve ser surpresa. Pelos vistos foi para um francês a que expliquei “beacoup de chaleur mon ami, beaucup chaud” e ele “quoi? pas possible!” e eu “mais oui!” Levei um litro de água e safei-me porque este ano foi mais fresco. O ideal é mesmo 1.5 litros de água no percurso Curral – Pico Ruivo. O ano passado levei 500ml apenas. Este ano era obrigatório levar 1 litro e mostrar o telemóvel operacional. Gostei. É preferível incidir o esforço de check up na etapa crítica do que perder tempo na partida.

Esta subida é gigantesca. É interminável. Pronto. Relato da subida feito. Depois ali segue segue segue para o Pico do Areeiro. Há uns túneis, mais escadas, etc. Estava frio este ano, que bem que me soube. Parece que ainda estava a cozer de 2016. Segue segue segue e chega-se ao Pico do Areeiro.

Chegado ao Pico do Areeiro vejo os abastecimentos e um calor infernal no posto cheio de gente. Senti-me claustrofóbico. E com fome, mas de nada daquilo. Começou aqui a sensação de enjoos. Apeteceu-me uma água tónica. Naturalmente fui pedir água tónica. Causei confusão no abastecimento, quiseram dar-me água mineral com gás. Insisti que queria uma água tónica. Pensaram que por água tónica eu me referia a qualquer coisa do “continente”, tipo quando vamos ao norte e pedimos uma “bica” ou uma “imperial” e eles corrigem para cimbalino e fino. Não havia. Fui falar com o director do abastecimento que tinha uma t-shirt a dizer “director do abastecimento”. Havia um café no piso de cima, perguntei-lhe de seria desclassificado se fosse lá comprar comida e ele disse que não, à vontade. Então fui. Entro no bar, discretamente, misturado entre turistas e pessoas que ali estavam para ver o MIUT sem a consciência de que um Deus Grego tinha ali entrado e meti-me na fila. Nisto percebo que é preciso tabuleiro e vou buscar tabuleiro e meto-me na fila de novo. Vejo uma taça de morangos. Não sei o que me deu, mas peguei nos morangos e meti no tabuleiro. Depois foi um ovo cozido. E duas garrafas de água tónica da madeira – Brisa. Na esplanada devorei os morangos e bebi 1 água tónica A outra água tónica foi para uma das garrafas de hidratação e fui bebendo água tónica até vomitar tudo das últimas 12h no Poiso. Não perguntem. Eu sei o que estou a fazer.

Vou saltar esta parte porque é MIUT puro. Não há palavras para descrever. Não há mesmo. Ok, há mas eu tenho preguiça. É uma descida muito grande e que se faz bem. Façamos antes mais fast forward até Ribeiro Frio – Poiso. Saliento um francês que tinha caído e estava a desistir. Tive pena dele, pareceu triste, mas para o fazer sentir-se melhor disse-lhe que a corrida dele tinha acabado e que já me tinha acontecido aussi, mon ami.

eu

Aqui as coisas mexeram comigo. Não tinha qualquer memória de ter feito este troço. Em 2016 estava tão “fora” que nada me ficou na mente, apenas uma branca monumental. Não reconhecia praticamente parte nenhuma do percurso. Sabia que tinha desistido na Portela mas já duvidava, porque para chegar à Portela tinha de passar por ali. Quando cheguei à subida estúpida implacável e insensível de Ribeiro Poiso estava indignado. Que merda é esta? Perguntei a várias pessoas se aquilo era normal, visto que o dorsal não mostrava aquelas subidas. Só tive respostas em francês. Franceses. Imaginem-se ao anoitecer, exaustos, rodeados de zombies franceses…

Já percebi entretanto que a organização do MIUT não está muito preocupada com a escala das subidas e descidas no dorsal, mas enfim. Finalmente reconheci tudo e comecei a ter um flashbach enorme ao chegar ao Poiso. Isto porque os bastões se prenderam nas pedras do caminho, o que me aconteceu em 2016. Só faltava 1 posto de abastecimento para chegar ao sítio onde desisti em 2016: a Portela.

No Poiso já não conseguia meter nada no estômago. Foi aqui que fruto da experiência que me faltou em 2016 e pré Ehunmilak, peguei numa garrafa de água das pedras e bebi dois copos de seguida. Depois fui para as traseiras, dedo na garganta e vomitei a minha alma, lembrei-me das noites no alcântara mar em 1998. Daí para a frente foi chá preto com uma colher de açucar. Mas, basicamente, estava ko.

Nunca mais recuperei 100%. Desci a correr bem até à Portela (onde desisti em 2016), estava fixado em terminar. Toparam o meu estado, deitei-me numa maca, mediram-me a tensão. Deram-me *primperan. E o que me salvou foi a canja mágica. No MIUT não há canja com massa. Excepto aqui na Portela. A canja tinha massinhas. Nos outros postos era só o caldo com umas farripas de cenoura e às vezes arroz cru. O posto da Portela tinha massinhas. Tinha também voluntárias bonitas, incluindo uma rapariga atraente que me tentou dar chá e que quando eu me lembrei de lhe dizer “obrigado” já tinham passado 2 minutos e ela tinha ido embora. Entretanto estava lá um atleta brasileiro que tem um amigo em comum comigo (o ultramaratonista Ricardo Almeida), uma coincidência do caraças. Fizemos a promessa de terminar a prova, sei que ele terminou um pouco antes de mim.

E pronto. Saí da Portela e nesta fase estava em piloto automático. Lembrei-me de no ano passado me ter sentido melhor depois de descansar um bocado e aqui também aconteceu o mesmo. Ainda consegui correr um pouco da Portela para o Larano mas o meu corpo ia fazendo shutdown aos poucos, incluindo sono. A minha cabeça parecia o Windows XP quando se abriam muitas janelas e aplicações ao mesmo tempo. Já só conseguia andar e faltavam mais de 15km. Se fosse o meu primeiro MIUT teria desistido de novo, mas desta vez só queria colocar uma pedra no assunto. A etapa Larano – Ribeira Seca de quase 10km foi talvez a pior de trail running que me lembro de fazer na vida. À minha direita um precipício insondável no escuro, só lhe ouvia o mar cá em baixo. Uma vereda interminável. Ao longe via frontais de atletas e isso dava para adivinhar a escala. Interminável. A ser ultrapassado por atletas em catadupa, sem me conseguir mexer, com vertigens.

Por fim Ribeira Seca e os kms finais para Machico que fiz quase a correr, de tão impaciente que estava. Se a prova tivesse 170kms eu teria recuperado e feito uma classificação melhor. Lembrei-me da Ehunmilak, de como passei mal pelos 100km e aos 160 estava a voar. Acho que mais uma ou duas tentativas e afino um MIUT perfeito. Acreditei que fazia 23 horas e acabei com 26h e 42 minutos, classificação 382 em 787 atletas o que se insere na minha regra mental de ficar pelo menos a meio da classificação. O último fez 31h e 37 minutos. Mais de 200 desistiram.

Não sei se volto a repetir esta. Talvez pela Madeira, porque adoro a ilha e as paisagens e o MIUT pode ser um pretexto. Andei nos dias antes a carregar 50kg de equipamento fotográfico pelos trilhos e gostei. É uma coisa que me dá prazer, explorar. Sei que o trail running e as ultras me permitem fazer esse hike de forma mais eficiente e fácil por isso ambas as coisas estão ligadas. O ultra runner é um excelente caminhante e explorador. Já discuti isto com o amigo João que me diz o mesmo, que quando apenas andamos a pé pelo campo ou serra, sem a pressão de uma corrida ou de um treino, sentimos uma paz e liberdade, um relaxe, como se fosse muito fácil por comparação. Também sinto isso com a comida e a bebida. Nos dias seguintes a uma ultra, beber água fresca ou uma cerveja ou um sumo, uma boa refeição, sentado, confortável, parece que tem mais valor e uma intensidade maior.

Senti um enorme alívio. Este ano vou ter a Freita e o Mont Blanc. Para o ano estou a pensar na PT 281, Patagónia (ultra fjord) ou Monte Fuji ou Leadville 100… veremos o que vem aí 🙂

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Aqui a actividade no Strava: https://www.strava.com/activities/953833439

EDIT: obrigado sério, Primperan em vez de priberan

EDIT2: Esqueci-me de contar um episódio que me aconteceu e que o amigo João Miguel (que terminou pouco antes de mim) me relembrou no facebook. A certa altura num posto de abastecimento vejo uma mulher toda jeitosa com uma embalagem de fatias de presunto aberta. Não me fiz rogado, aproximei-me e fui para tirar o presunto e ela “ahh não é para si” e depois percebi que ela era acompanhante do marido ou namorado que estava sentado mesmo à frente e nao alguém da organização. Ele olhou para mim cheio de pena e lá me disse “vá, pode tirar, sirva-se”. E pronto, servi-me de uma fatiazinha e fui-me embora todo contente que a presunto dado não se olha o dente.

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Ano 2017 – objectivos MIUT e UTMB

Pois é, bati no fundo, mas fui salvo por um pequeno milagre que foi ter sido sorteado para o UTMB, com o meu amigo João (inscrevemo-nos em conjunto). Não o esperava, era a nossa primeira tentativa. Hesitei antes de me inscrever porque sentia que 2017 não ia ser um ano em que eu estaria no topo da forma e o UMTB é para mim uma prova que se resume a competir. Naquela zona há provas bem mais “sossegadas” e que permitem absorver a natureza e as vistas com outra tranquilidade que não a de milhares de corredores do mundo inteiro. Sempre me vi como explorador de provas mais exóticas e interessantes. O UTMB era uma que queria fazer quando estivesse no topo da forma, à custa de correr provas um pouco por todo o mundo. Contudo, apareceu já, por isso em Setembro quero ser o melhor corredor que alguma vez fui.

Estou assim inscrito nos Abutres (dia 28 de Janeiro), no MIUT (22 de Abril) e no UTMB (1 de Setembro).

O ponto de partida é duro. Meses sem correr muito, apenas um ou outro treino, Estou com 5 quilos a mais face ao meu racing weight. Massa gorda nos 15.5%-16% quando já esteve nos 12%. Sinto-me dolorosamente pesado, cheio de banha na barriga, algo que sinto mexer quando corro ou pedalo. Não foi só não correr. No treino de estrada para a maratona o foco foi sobretudo em velocidade. Deixei pois de fazer treinos gigantes de 4 horas em ritmo baixo que ajudam a torrar calorias. Ainda hoje de manhã com este frio e vento fui treinar e foi um pouco triste ver um pace de 5:45 com o coração a 160bpm, ou seja, muito lento. Um pouco cansado porque mesmo assim fiz 28km com 1700m de desnível em Sintra no domingo e porque andei com a minha filha de bicicleta para a escola dois dias consecutivos, o que significa 8kms de cada vez a puxar um peso considerável no reboque cougar chariot, apanhando umas subidas interessantes na belavista. Mas tudo isso foi graças ao UTMB, à pressão.

Com os Abutres já aí à porta, vou sofrer bastante, mas vou encarar como um treino longo. Mesmo no treino deste domingo não acabei “bem”. As pernas já recuperaram a resistência ao desnível mas com mais quilos em cima e muito em baixo de forma, não dá para em pouco tempo inverter isto. Uma coisa importante que percebi – já vou tendo alguma experiência e registo de dados – é que o meu declínio aconteceu em duas coisas específicas. A primeira foi o ganho de peso e perda de alguma massa muscular, o que tem um impacto tremendo. Outra foi a desregulação metabólica. O meu corpo perdeu a capacidade que tinha de metabolizar gordura rapidamente quer devido à ausência de treinos muito longos e lentos – algo próprio das ultras e que não treino desde a Ehunmilak, quer pelo sedentarismo e maus hábitos da pausa após a maratona do Porto. Assim, tenho quebras de energia constantes e fome durante um treino. Já estou a recuperar, ontem quase não jantei e hoje em jejum fiz 8km clássicos sem sentir uma quebra. Tenho de ver coisas positivas nesta pausa, o meu corpo por outro lado recuperou. Já não tenho dores no entorse que tinha há um ano no pé esquerdo por exemplo.

O ajuste de contas com o MIUT devia ter bastado para me motivar, mas não chegou. Faltava um sinal divino e o sorteio do UTMB foi esse sinal. Em poucos dias fiz mais transformações que em muito tempo antes. Cortei com álcool e bebidas açucaradas já faz quase 3 dias e planeio consumir apenas em ocasiões especiais (jogos do Benfica) e sociais . Treino algo todos os dias: corrida, bicicleta ou ioga / exercícios de core. Voltei a fazer o meu próprio pão enriquecido – hoje foi farinha integral com muesli de avelãs, passas e manteiga de amendoim. Só janto proteína e vegetais. Introduzi bloqueadores de acesso a websites e à internet com uma aplicação chamada SelfControl para me fazer aproveitar mais o tempo em que estou sentado numa secretária para trabalhar e reduzir ao mínimo as distrações e ter mais tempo físico (de 1h em 1h levanto-me e faço algo físico). Criei um calendário numa aplicação chamada Asana onde misturo a vida profissional com a pessoal e os treinos, pois a logística de pai separado obriga a muito improviso misturado com planeamento. Estou a reduzir cafeína em força (estava nos 4 cafés por dia) para dormir o melhor possível. Zero sal. Estou a ler o Correr ou Morrer do Kilian Jornet. Tenho o objetivo, não sei como, de consistentemente fazer perto de 100km por semana quando chegar a Março. Penso meter-me no yoga. Reduzi ao mínimo a vida social desencaminhadora. Meti de lado passatempos como a fotografia. Até setembro vou viver o tempo livre como um atleta porque me calhou o UTMB e não quero apenas acabar, quero fazer uma prova boa e orgulhar-me dela. Quero também terminar o MIUT e fazer uma boa prova.

Vou procurar voltar a escrever aqui. Aliás, ter escrito isto depois da paragem já é um sinal da minha motivação. Vamos a isto, descobrir o corredor que há em mim, o melhor corredor que há em mim. Posso matar-me com maus hábitos depois, celebrar, afundar-me. Mas se tive a sorte do sorteio tenho de a honrar e agradecer com humildade. UTMB aqui vou eu.

 

 

crónica de uma morte anunciada (Maratona do Porto 2016)

Desisti pouco antes do km 30.

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Aquilo de que os kamikazes são feitos. A minha desistência começou há 4 meses quando achei plausível fazer sub 3h. Essa impressão, talvez fruto da euforia de ter feito a minha primeira de 100 milhas ou ter feito duas maratonas de estrada em 4h e 3h30 levou-me a inscrever-me na maratona do Porto de 2016, pensando que poderia fazer sub 3h.

Eu conto fazer talvez mais 3 maratonas de estrada até ao fim da minha vida. São muito duras e não me dão prazer especial, embora sejam marcantes (já lá vou) a nível de evolução. Depressa percebi que não faria sub 3h, e pensei em sub 3h15, embora algo contrariado. Não me teria inscrito sabendo-me tanto no limite de conseguir tirar “apenas” quinze minutos. Treinei 4 meses fazendo o plano de maratona nível 3 (avançado) da garmin, envolvendo treinos bi-diários e muita insistência em velocidade e lactate treshold, na capacidade do corpo ter endurance para aguentar regimes fortes.

A verdade é que todos os testes que fiz me disseram que não conseguia fazer sub 3h15. E até no dia da maratona, naquela manhã fria, linda e solarenga no Porto, ponderei, discuti comigo mesmo e com o amigo Pedro Paulino que também foi, se devia ir para algo como 3h20.

Nota: para fazer uma maratona sub 3h15 o pace por km é 4:35. Para fazer próximo de 3h20 o pace é uns muitos mais lentos 4:45… uns míseros 10 segundos por km.

O meu raciocínio construiu-se em:

  1. eu não me teria inscrito se me tivessem dito que ia fazer 3h20.
  2. eu eventualmente vou fazer uma maratona abaixo de 3h num ponto qualquer da minha vida
  3. eu não vou aprender nada de novo se correr dentro dos meus limites
  4. Acredito em milagres, sou uma pessoa espiritual.

Estas  4 premissas fizeram-me decidir por tentar 4:35/km. Sub 3h15. Parti do portão A, reservado ao pessoal mais sério que faz menos de 3h15 e as boas notícias é que nem uma vez me senti atrapalhado (numa maratona com 5000 participantes é uma boa notícia). As más notícias é que durante todo o tempo em que corri não ultrapassei quase ninguém, pelo contrário.

Fui com o monitor cardíaco. Penso que 588 é o meu suffer score mais alto de sempre. Estive 30 minutos no total em anaeróbico, com a frequência acima de 173, a fronteira objectivamente medida nos testes de lactato que fiz antes da ehunmilak.

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Não sou propriamente inexperiente nas maratonas e na corrida de estrada. As sensações que tinha no corpo e o relógio diziam-me claramente que era um ritmo insustentável. Mas consegui apanhar o pacer das 4:35. Os kms 2,3 e 4 fiz a 4:29, 4:20 e 4:15 para o apanhar. O meu coração já ia disparado. Era absurdo para mim. A minha maratona anterior tinha sido feita a 5:00/km. Estava com a sensação de ir a sprintar. O meu coração a 175bpm quando para ser realista acabar a prova não devia ir a mais de 165 nesta fase da prova, idealmente nos 150s…

Então por que razão não abrandei logo? Se calhar porque mesmo assim continuei a acreditar num milagre e estava a gostar de ir naquele pelotão das sub 3h15. Acabando em menos de 3h15 fica-se nos primeiros 500 corredores de uma maratona de 5 mil corredores. Estava a tentar distrair-me do sofrimento vendo o magnífico Douro, as pessoas a aplaudir, o céu azul, Porto, Gaia, detalhes pequenos…  E acreditei até ao km 16. Altura em que me comecei a afastar-me do pelotão e a ficar exposto ao vento contra. Aí tomei a decisão de esquecer as sub 3h15 ou nem acabava, mas foi tarde demais.

O choque psicológico de ver o grupo a afastar-se, e isto quando só reduzi 10 segundos por km, foi duro.

Depois veio a parte mais dura do percurso, o cais de Gaia. Um empedrado muito grosseiro e anguloso, pedras enormes sobressaídas, um piso completamente assassino para as minhas new balance minimais, mas que teria sido assassino com qualquer calçado de estrada. Grande parte dos corredores seguia pelos passeios no meio das pessoas quando se podia. Empedrado normal já custa bastante, mas quando as pedras estão todas desconjuntadas é tortura. Comecei a sentir bolhas nos dois pés. Por fim quando saí do empedrado tinha feito os últimos 2km a cima dos 5:00 e estava cheio de dores. A faltar 12km ainda, com dificuldades já para me manter nos 5:00/km, adivinhei um calvário brutal para fazer 3h25 na melhor das hipóteses.

Reflecti pouco tempo, não foi preciso pensar muito e encostei à box. Não teve qualquer efeito psicológico danoso.  Estou de facto mais rápido e não tive uma desilusão porque não tive propriamente uma ilusão antes.

De caminho tirei seis minutos à minha anterior meia maratona e mais uns quantos recordes.

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Dei tudo o que tinha até bater num muro e isso também foi importante. Ao contrário da minha desistência no MIUT, aqui não houve factores como enjoos e afins. Só esteve em jogo uma variável: o ritmo imprimido por mim. Confirmei certos limites e isto serve de referência. O shutdown nesta prova deu-se ao nível das pernas, ficaram cansadas e rígidas, sem força.

Só me volto a inscrever numa maratona quando tiver mais a certeza do tempo que posso fazer. O ideal é fazer mesmo uns testes, ver o que acontece, e se achar relevante inscrever-me, inscrevo-me. Isso não vai acontecer até eu pulverizar 3h15. Pode ser daqui a 2 anos, 3, 4… não sei.

Não me arrependo de me ter inscrito. A estrada permite uma evolução muito forte. Aprendi algo importante que esteve também na base da minha menor evolução em estrada de 2014 para 2016. Corri estrada sempre a pensar em ultras e trail. Não treinei velocidade nos pontos críticos que o plano de maratona de nível 3 trabalha e quero ver se mudo isso. O

Mas até Abril já tenho dois objectivos bem mais divertidos. E o meu plano para eles, inventado por  mim, terá por base 2 treinos semanais chave, o longão do costume com muitas horas e muito desnível em sintra baseado em variações do STE (25-30km com 1500m de desnível) e, novidade, um de séries / velocidade / rampas. Os outros treinos da semana havendo tempo serão só para meter kms em muito baixa intensidade. Mas mesmo muito baixa, para permitir a recuperação e regeneração destes 2 treinos chave.

Venha 2017!

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Hoje fins uns km’s a empurrar carrinho para creche a andar e correr ligeiramente e um trabalho casa quase directo ao fim do dia. Amanhã vou correr com os Esquilos de Monsanto e senti algum cansaço, pelo que resolvi ir com calma e directo para casa, para ver recupero. Mesmo assim acelerei na rampa mais íngrime e bati os meus PRs, fiquei mesmo em 3º overall num total de 15 atletas, o que me deixou contente. Gosto da funcionalidade do Strava que mostra a evolução dos tempos num segmento ou percurso.
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