Ecomaratona de Lisboa 2014, race report

Tempo de chip de 4:57 (esqueci-me de carregar no stop do gps quando passei a meta). 115º lugar em 206 atletas que terminaram. O epic suffer score de 967 deve estar mal, tenho de regular as zonas cardíacas no strava como deve ser.

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No gráfico de altimetria pode-se ver que existem 4 grandes subidas.

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Aqui antes da partida, a concentrar-me.

concentração

Foi a minha segunda maratona, mas esta de características diferentes da de Madrid, com cerca de 3x mais subidas, por se desenrolar em Monsanto e por boa parte se desenrolar de noite, no escuro completo, obrigando ao uso de frontal. Por isso não fui com qualquer objectivo de tempo e de bater as 3 horas e 58 minutos dessa maratona. Esperava até terminar nas 6 horas e afinal fiz pouco menos de 5 horas. Fim de tarde fresco e ventoso que me levou a um erro de equipamento: a primeira camada debaixo da t-shirt técnica que me aqueceu demais ao longo da prova. Fui um dos únicos atletas a optar por isso e devia ter sido mais humilde: quando és um dos únicos a escolher algo e és inexperiente, talvez estejas tu errado. O meu raciocínio foi que se estava frio às 19:30 (e estava mesmo), então às 22:00, 23:00 estaria mais. Ainda por cima havia a hipótese de chuva que nesse dia já tinha caído. Não obstante, deveria ter levado essa primeira camada na mochila e se tivesse frio, vestia-a. Não tive paciência para a despir a meio da prova pois implicava parar (nunca parei, excepto para encher reservatórios), tirar a mochila etc. e achei que se o fizesse poderia sofrer com a diferença de temperatura.

O outro erro de equipamento, este sim mais grave, foi ter levado as sapatilhas salomon mantra. Esta era uma prova 100% adequada a sapatilhas de estrada normais e eu levei umas de trail híbridas que dão para estrada e trail. Dão para estrada, mas não são exactamente a mesma coisa. É uma sapatilha um pouco minimalista, com muito menos amortecimento que os meus Nimbus 15 ou Saucony Triumph 10 com que faço estrada. Ali, mesmo os trilhos não asfaltados são um pouco duros. E paguei a factura após 4 horas de prova, dores muito fortes na zona dos tornozelos e canelas.

A prova em si foi extraordinária. Novidade, esta de correr até o sol se por e para lá disso (terminei perto da 1 da manhã). É uma sensação um pouco surreal, visto que estou habituado a fazer exactamente o oposto. Logo na primeira subida, a primeira surpresa: a quantidade de atletas a correr mesmo na rampa a pique que vai dos pupilos do exército até à Prisão de Monsanto. Na altura cheguei a pensar “vou ficar em último!?” Não percebia o que se estava a passar. A partida era exclusiva da maratona pelo que todos ali iam para os 42km. Vejo mulheres e homens a subir aquilo a abrir, toda gente parecia entusiasmada demais. E ainda íamos nos primeiros 2km. Eu fui no meu ritmo sempre a ser ultrapassado. Chegaram lá acima já vermelhos e transpirados. Logo na primeira descida comecei a passar pessoas e foi quase uma constante durante todos os 42km (também fui ultrapassado, mas menos!). É a grande vantagem de começar lento, nem que seja o primeiro km apenas. Estamos o resto da prova toda praticamente a ultrapassar gente, independentemente do nosso nível. Depois de 10km de estrada começaram os primeiros trilhos ou, devo dizer, estradões. À medida que o sol ia descendo, já para lá do horizonte, íamos caindo na penumbra, especialmente quando se entrava em bosque cerrado. A prova muito bem assinalada e sempre com voluntários a dar instruções e a “barrar” potenciais erros. Eu ia-me trocando todo numa rotunda de Monsanto mas um senhor com um apito chamou-me para o caminho correcto. Estreei o meu frontal, o Tikka RXP e foi muito divertido correr com a sua luz forte. Aliás, o Tikka conseguia-me iluminar as fitas reflectoras da prova a mais de 100 metros. Impossível perder-me. Fiquei confiante para o Douro Ultra Trail, uma vez que terei corrida nocturna nessa prova. O pó fica a pairar no foco, vemos também condensação de respiração e tudo adquire um tom um pouco surreal, especialmente mais para o fim, em que devido ao relativamente baixo número de participantes (200 e pouco) e aos 42km, ficamos sozinhos bons bocados do percurso, em plena mata, às escuras, só com o nosso foco de luz, até ver o próximo voluntário, coitado, ali no escuro, à espera do próximo corredor para lhe dizer por onde seguir e dar ânimo. A prova não teve abastecimentos sólidos, rigorosamente nada. Eu fui a contar com isso e por isso tinha a mochila com muito alimento. Teria agradecido alguma bebida isotónica fresca, mas tendo em conta que isto é uma corrida de beneficiência, não reclamo! É tudo voluntários e pro bono, patrocínios etc. Menos sorte tiveram muitos que não levaram rigorosamente nada também. Numa maratona é fatal.

A noite avançava. A parte mais difícil foi mesmo um loop enorme na zona do Restelo, depois da Avenida das Descobertas. O percurso ali aos 26km fazia-nos cruzar com os que iam mais à frente e já tinham feito o loop. Vinham no sentido oposto. E de novo, lição de humildade! O loop era enorme, tinha 6km, portanto, os primeiros tipos a cruzar-se comigo já tinham mais 6km nas pernas e devem ter terminado com mais de uma hora de avanço! No início não sabia que se tratavam de 6km, mas fui fazendo o loop e sempre a pensar “mas aqueles tipos já correram isto tudo!?” Foi aí aos 30km e na parte mais difícil do percurso que se começou a separar o trigo do joio. Costuma dizer-se que a maratona só começa aos 30km e confirmo. No meu caso foi aos 32km. Aos 32km começou a instalar-se-me uma dor fenomenal nas duas pernas, na zona dos tornozelos e canelas. Já a senti antes, é normal, mas ali foi ampliada pelas descidas em asfalto que dão impactos muito fortes e pela escolha de sapatilhas sem muito amortecimento. Do ponto de vista de coração e energia eu sentia-me bem, sem as fraquezas que marcaram a maratona de Madrid. Mas estava a ser difícil correr a menos de 6:00 por km mesmo em plano. Pode ter sido ainda ecos do trail dos Cucos, não sei. Aqui foi  também quando comecei a passar mais pessoas que iam a andar. As subidas e descidas são assassinas! É muito difícil estabelecer um ritmo.

No meu caso, o fiel da balança é o monitor cardíaco e as batidas por minuto. Eu sei que aguento 4 ou 5 horas com o coração entre 145 e 165 bpm. Posso esticar-me mais, para os 170, mas isso significa muito sofrimento e potencial estoiro. Na maratona de Madrid praticamente não olhei para este indicador porque queria fazer sub 4 horas e o importante era o tempo por km. Além disso tinha experiência de treinar em estrada. Mas numa prova de trail ou de montanha / serra como esta, o pace não quer dizer muito. Nas subidas isto regulava o meu ritmo. Se o meu coração disparasse para as 170, 180 eu não corria. A andar rápido o coração ia a 155-165 mesmo numa subida. Com o tempo, vou ganhando confiança para seguir mais o meu “feeling”, mas correu bem neste ponto, porque mesmo na penosa ciclovia da radial de benfica, já nos 36km, uns 4km a descer ligeiramente, com rectas gigantescas, pude ir sempre a correr e passei alguns que iam a andar. Era uma tentação andar, a dor nas pernas estava formidável e eu só pensava no grego Yanis Kouros e na sua frase de “continuei mesmo sem autorização do meu corpo”. Naquela monotonia da recta sem fim, no martírio do relógio que parece que não passa dos 37 para os 38km nem por nada, só o meu foco de luz na ciclovia, os meus passos, paf paf paf, completamente em transe, porque percebi que podia bater as 5 horas. Uma coisa é certa, toda gente que eu ultrapassei após os 30km foi pessoal que estoirou, especialmente os que andavam. Para eu só os apanhar ali é porque tinham desacelerado muito depois de uma primeira parte mais rápida, precisamente o que me aconteceu nos Cucos. Reconheci alguns da primeira subida. Uma ou outra desistência. Caimbras. Alguns com uma lanterna com as pilhas a esmorecer, no escuro. Isto parece muito mal de se dizer, mas que atire a primeira pedra o corredor que não se sente mais motivado por passar outros e ver pessoal a cair para o lado!Depois veio a subida final onde fui ao despique com mais 2 corredores, um corria, o outro andava, o outro corria, o outro andava. Parecia uma corrida de coxos! E lá acabámos, praticamente todos ao mesmo tempo, depois da cruel partida de descer o parque eduardo VII e a meio cortar e subir, quando pensávamos que a meta seria no marquês. Na meta, festa e cerveja à borla. Só bebi uma, à 2ª gelei de tal maneira que comecei todo a tremer. Era uma da manhã e ainda chegavam corredores. Estava feliz, não fui no redline como na de Madrid, mas por outro lado tenho de pensar no que fazer para suportar a Ultra do Dut. Vai ser mais dura e duas vezes mais longa. Se tiver dores destas, não acabo. Não admira que o benuron e anti-inflamatórios sejam um suplemento habitual dos ultra maratonistas… Para o ano, sou capaz de correr esta de novo. Ainda por cima a medalha tem um esquilo! Quem é que não quer medalhas com esquilos?

medalha e cerveja

relativo e próximas fases

Saíram as classificações oficiais do Extreme Trail dos Cucos. Com o meu tempo de 4:18 fiquei em 76º em 149 atletas que participaram na distância de 24km, praticamente “a meio”. Supreendeu-me. O meu pace de 11min /km é mais lento do que andar a pé na cidade e estoirei fisicamente. Mas o tempo do primeiro, Délio Ferreira, com 2:23, coloca tudo em perspectiva.

Depois de reflectir, vou mesmo manter o objectivo dos 80k do DUT, mas algo vai ter de mudar nos meses de Julho e Agosto ou espera-me um autêntico inferno. Não quero imaginar a sensação psicológica de estoirar aos 12km tendo ainda 68km pela frente. Custa-me a acreditar que o DUT tem mesmo 4500m de desnível positivo. Se esta tinha 1100m oficiais (mas 1500 de acordo com meu relógio), significa que o rácio subida /km é o mesmo que o do DUT. Ora isto custa-me um pouco a acreditar, mas pode ser verdade… Se nesta prova experimentei um baixo muito grande de onde consegui rastejar, foi em parte porque era “curta” e quando passei os 12km, senti que já tinha feito metade. Aos 18km contava os metros que fazia penosamente rampas acima. Este estado de espírito é impossível numa ultra. Tenho de encontrar formas de vencer a tendência para ficar impaciente no fim das provas e perder o ânimo.

Posto isto:
1) não me stressar em cumprir um xis de km’s semanais (60-80km) dispersos por 5 corridas semanais, preocupar-me apenas com um long run muito longo ao sábado
2) obrigatório treino de velocidade – tempo runs, time trials de 5k e eventualmente séries (que detesto!)
3) incluir trabalho extremo de rampas para a força. Tenho de descobrir um loop que possa fazer para trabalhar a musculação necessária e que me dê algo como 1 hora 100% a subir a pique (a andar) e descer a pique. Idealmente fico com o carro perto ou é perto de casa e a cada loop tenho de vencer o impulso de desistir e voltar para o carro / casa.
4) Ir monitorizando os progressos de tempo, criando um segmento no strava para este loop.

E é isto. Amanhã começamos.

Extreme Trail dos Cucos (22.6k)

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Sova monumental. Demorei quase 4h e 20 para fazer 22.6km e +1488m. O Strava diz 1058 metros, mas o meu Suunto Ambit 2 tem altímetro barométrico mais preciso. De trail em trail, vou ganhando humildade. Hoje passou-me pelo meios uma dúzia de vezes pela cabeça alterar a inscrição no DUT80k ou na Ecomaratona de Lisboa (em Monsanto)… Prova sem momentos de descompressão e rampas que mesmo no ritmo mais lento não permitiam recuperar. Se em mais de 4 horas corri em plano 15 minutos no total é uma sorte. Com a experiência do trail de sesimbra em que fiquei num mega engarrafamento logo no primeiro trilho técnico, neste achei que era boa ideia ir com o pessoal valente e abri a corrida a correr subidas e tudo. Lixei-me. Ao km 12, estoirei ao ponto de achar que era melhor desistir. O piso era também quase sempre muito traiçoeiro, descidas a pique onde uma falta de concentração podia significar uma queda desastrosa. Depois fui recuperando a partir do abastecimento dos 17km e para o fim já estava melhor. Foi bom ter conseguido continuar a correr nas descidas, algo que em Sesimbra, talvez do cansaço da maratona, não consegui mais nos km’s finais. Apesar de estar “pessimista” agora e desta etapa me ter prejudicado alguma da confiança, também tenho noção que estes trilhos, até pelo tipo de terreno (torci duas vezes o pé, ia caindo 2 vezes, vi pelo menos 4 quedas, uma delas feia, algo que nunca tinha visto!) que nem permitia “assentar” bem o pé, não posso comparar alhos e bugalhos.

Isto é o perfil altimétrico de uma corrida de 5 horas em Sintra (a linha laranja é a altitude, branca o ritmo cardiáco)

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Isto é o serrote deste trail.

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O serrote foi conseguido à custa de espremer ou máximo a zona dos cucos.

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E pronto, nos próximos dias vamos reflectir sobre estes dados e pensar nos próximos treinos. Sem dúvida que tenho de trabalhar ainda mais desníveis… Não é só ir para Sintra, é escolher rotas que obriguem a esse trabalho. Ainda estou muito orientado pela filosofia de “estrada” em que o conta são os km’s e não o acumulado positivo.