UTMB 2017 – a picada do escorpião

O último relato que tentei escrever ficou a meio, como a prova – a Freita. Tem lá coisas muito boas, acreditem. Estive a reler. Fica para mim. Eu por norma esqueço-me do que escrevo e por isso posso avaliar um texto meu como se tivesse escrito por outro génio, de forma totalmente imparcial.

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O UTMB. Vou escrever isto no hotel, no aeroporto, no avião, depois polir um pouco em casa, mas pouco, que perdi a minha paciência toda para o resto da vida na subida para Champex, só com uma perna funcional.

O UTMB sempre me transmitiu sentimentos contraditórios como a Irina Shaik ou bacalhau com natas. Parece muito apetecível, mas há sempre qualquer coisa que nos faz desconfiar. Trail runner que se passeie com o colete de finisher do UTMB na recolha de um dorsal cheira-me a novo rico. E só acho isso dessa prova em particular e de nenhuma outra, até porque todas as outras provas tem de prestar vassalagem ao UTMB por causa dos pontos, como bem se viu com o sarilho do Kilian na Hardrock (Why we won’t pay: UTMB, ITRA and the “pay for points” racket)
O UTMB é assim uma espécie de Microsoft do trail running, mas a Microsoft dos anos 90, antes da Google e do Facebook e da Apple.

– Então se achas isso do UTMB porque é que te inscreveste!? – (nota: ler com voz irritante. Ao longo do post há uma voz irritante que eu imagino que seja a do leitor disto e que faz perguntas chatas tipo aquele marrão que se senta na primeira fila e quando chega à parte das perguntas numa apresentação desata a apontar erros e incongruências para parecer bem)
O João é que achou boa ideia aproveitar os pontos que tínhamos e tentar o sorteio, a culpa é dele, perguntem-lhe a ele que acabou em 39 horas e tem a mania que é esperto.

O João tem a mania que é esperto e acaba todas as provas 3 ou 4 horas antes de mim.

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Não se perdia nada porque se não fossemos sorteados, íamos ter mais probabilidades de entrar para o ano ou depois. Rendi-me a esta lógica. O problema é que o João (que é engenheiro de formação) já despachou esta estucha que é o UTMB enquanto que eu fiquei com isto atravessado que me lixei. Enfim, eu talvez volte. Só para ter um colete desses. Com um colete de finisher do UTMB vou levantar dorsais no trail dos Cucos em Torres Vedras ou no Grandes Trilhos do Leitão na Bairrada. Se calhar peço o do João e ando eu com ele todo enchouriçado lá dentro. Corrida da água em Monsanto. Ericeira Trail. Trilhos do Javali. Lá vou eu durante a prova toda com o colete de finisher do UTMB super descontraído para os outros corredores: “Está fresquinho não está? Que sorte! Trouxe o meu colete! É melhor vestir o meu pequeno colete do UTMB!”

Olhem para nós, temos coletes de finisher! E sandálias com meias!

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O João não vai precisar dele, nunca o vai usar. Aliás, ninguém usa colete.
Nunca. Excepto para levantar dorsais ou passear em Chamonix e no aeroporto no dia seguinte à prova.
Nisso dou os parabéns à organização. Se tivessem escolhido um prático hoodie como o da Ehunmilak que eu uso quase todos os dias para ir à mercearia ou vazar as garrafas no vidrão com a Júlia às cavalitas, uma pessoa desvalorizava o UTMB. Assim não. Assim a organização garante que ninguém o usa no dia a dia, mas apenas em ocasiões de gala como casamentos, baptizados e levantamentos de dorsais.
– Estás a dizer isso porque não tens nenhum e passaste ontem e hoje a ver idiotas com coletes desses por todo o lado.
Não me conseguem atingir, escusam de tentar!
O João quis vir ao UTMB para despachar isto e ainda está a tentar recuperar do choque de lidar com franceses e suíços. Os suíços… Os suíços são tão maus que basta uma temporada na suíça para começar a achar o franceses simpáticos. Os suíços são tão sinistros que nem o Hitler quis nada com eles. Ninguém quer. Deixamos lá o nosso dinheiro em parte por isso, sabemos que fica seguro. Quando cá nos vêm visitar – por alguma razão adoram festas de aldeia em agosto – os carros dos suíços têm sempre os vidros fumados, estão kitados com ailerons e escapes de rendimento. Os filhos andam com t-shirts do Cristiano Ronaldo e brincos de argolas. Nem percebo como é que conseguiram inventar os hedge funds e as off shores, os suíços. Mistério.
Mas nem tudo é negativo nos franceses. Os franceses são obcecados por queijo. Eu gosto de queijo, mas caramba.

Em tempos escrevi uma lista de qualidades que a mãe dos meus filhos teria de ter e “gostar de desporto” era uma dos 18374 items da lista. Os franceses daqui estão para queijo como uma personal trainer de crossfit e atleta de elite de triatlo está para “gostar de desporto”. A sensação que tive com a cozinha de Chamonix é que 90% da população é composta por ratinhos abastados que gostam do bom e do melhor queijo que o dinheiro judeu pode comprar. A imaginação para criar 1001 coisas com queijo rivaliza apenas com a nossa para o bacalhau. Contudo nós somos honestos enquanto que os franceses são trapaceiros. Lá na França, pedimos um bife e o bife vem envolto num litro de queijo derretido. Queremos umas aparentemente deliciosas fatias de couve flor e temos de as pescar dentro de um pequeno pote de queijo líquido onde se afogaram. Uma sopa de cebola gratinada é na verdade um pouco de caldo e cebola debaixo de uma camada de de 20cm de queijo. Que eu saiba não metemos bacalhau na comida das pessoas sem as avisar. Até na receita do Bacalhau Escondido somos ingénuos ao ponto de dar uma pista óbvia no nome do prato. “O que é que isto tem aqui no meio do puré deste Bacalhau Escondido? Será entrecosto de porco?” – said no one ever.
As montras das lojas estão cheias de utensílios requintados para manejar queijo pelo meio de skis e equipamento de montanhismo.
E pronto, está descrito Chamonix e a frança. Aqui uma grelha de fotos que não tive paciência para seleccionar.


– Estás mas é ressentido de não ter um colete de finisher. Ainda agora estás a escrever isso no hotel e há 2 japoneses com coletes e tu nada….
Por acaso não estou. Até suavizei a opinião que tinha do UTMB e dos franceses em muitos detalhes. Houve pelo menos uns três que foram até simpáticos, se bem que um deles pelos vistos pensou que eu podia ser de elite e não um DNF e então arranjou-me boleia para o hotel às 4 da manhã com medo da bad press.
Mas o UTMB… é uma coisa de marketing global que mete muitos asiáticos que são mais transparentes que os ocidentais nos defeitos e virtudes. Em certa medida olhar para eles fez-me ver o pior de nós, de mim. Não quero generalizar, claro, não gosto de generalizar sobre mim porque sou muito complexo e qualquer avaliação peca por imprecisa. Mas como não têm tantos filtros, são mais puros, e revelam aquele lado de vaidade inerente ao UTMB que a meu ver foge um pouco ao espírito do verdad…
– Pára com as filosofias! Chato! Conta mas é o relato crl!
Ok. Esqueci-me que estou a escrever para leitores sem paciência nenhuma ou sensibilidade. Tudo bem. Mas o relato é chato como tudo. Se não fosse a tempestade apocalíptica isto teria sido uma seca. Voltarei a este tema.

A minha actividade no strava.


O primeiro anti-climax do utmb é a partida. Mega música épica, multidão, ecrãs gigantes, flashes, pessoas empoleiradas em varandas, drones, helicópteros, rostos tensos e apreensivos, a contagem decrescente, o tempo que nunca mais passa, finalmente faltam 10 minutos, finalmente 5 minutos, últimas verificações, correia muito larga, fecho fechado, ajustar atacador, relógio gps ok, 1 minuto, depois o countdown, A ex 3…2…1… YEAAAAHHH….

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só que não.
Demoramos 20 minutos até poder começar correr. Até lá vamos a andar no meio de uma multidão de corredores em ritmo mais lento que franceses a caminho do banho semanal. Imagino que para os que partem na frente as coisas façam sentido, mas um pouco cá para trás, vamos a passo. Milhares de pessoas a aplaudirem pessoas a andar encavalitadas umas nas outras. O segundo anti-climax: tinha vontade de fazer chichi. Mas a multidão era tanta que a 30 minutos da partida não me atrevi a sair do lugar. Nisto partimos tipo procissão, e quando o pelotão alongou já fora de Chamonix meti-me numa berma e fiz chichi ao pé de um Audi A6 e um jipe Mercedes (o que foi? Aqui é tudo comprado com offshores e ouro judeu). Resultado: fiquei em último. É verdade, posso dizer com orgulho que estive em último durante a prova e que ultrapassei cerca de 1200 pessoas durante a mesma. O UTMB é SEMPRE assim do princípio ao fim. Paramos para atar um sapato, passam 20 gajos por nós. Tiramos o casaco porque está frio, passam mais 20 pessoas. Só não passam se estivermos em último.
A primeira parte do UTMB engana muito. É plana. Os primeiros 10kms passam depressa. O caminho segue segue segue.
Espera Lourenço, antes de continuares, fala-nos sobre o equipamento que levavas? Que opções tomaste?
Isto é tão pouco credível. Como se quisessem saber… mas cá vai. Até poucas horas antes da partida a organização não sabia qual o percurso final. O tempo estava mau. E mau aqui em montanha com passagens a 2500m, é mau. Levei os avisos a sério. Da lista de equipamento obrigatório de todos os anos constam luvas impermeáveis, casaco impermeável com mínimo de 1000 schmerbers. Na véspera acrescentei ao meu kit um casaco pelo qual me apaixonei, o Adonis da Marmot.

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Isto sou eu a testá-lo na véspera do UTMB.

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A versão feminina do casaco chama-se Marmot Valor.

O meu da North Face e que nunca me deixou mal em provas em Portugal, teria sido insuficiente neste clima Era muito importante para o conforto um casaco um pouco mais rígido e protector, com uma estrutura para o capuz e que permitisse fechar em torno do pescoço. Na prática com a cara enfiada aqui dentro sentimo-nos como uma raposa numa toca portátil e Deus sabe como eu gosto de estar assim tipo Kenny. Parece que as coisas acontecem “lá fora” e que o casaco simplesmente nos deixa como espectadores de um filme. Se estivesse fresco no metro ia sempre com isto para a Linha Verde.

As luvas foram umas sealzskins, impermeáveis, de ciclismo. Não são o ideal para trail porque se dão mal com velcro, mas são excelentes na protecção do frio. Havia momentos em que para ajustar um fecho ou mexer no relógio tirava uma luva e as minhas mãos gelavam em menos de 10 segundos, demorando uma eternidade para voltar a aquecer. Manter calor é possível, mas recuperar é muito complicado. E fiz o que todo o ultra runner experiente faz: comprei umas sapatilhas no dia anterior e estreei-as na prova. Já sei o que vão dizer
– Isso é tão estúpido!
Eu sabia. Eu sabia que vocês iam dizer isso. São tão previsíveis. Talvez por serem um produto da minha imaginação? Mas escolhi uma La Sportiva Ultra Raptor, é o meu 3º par, tamanho 44.

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Tenho uns 1500kms feitos em La Sportiva Ultra Raptor. O twist é que estas eram em goretex, portanto, impermeáveis e mais quentes. Li que ia chover e não ia para brincadeiras. Pés molhados e frios = problemas. Soma-se a isto umas overpants impermeáveis da decathlon que pensava não serem necessárias e fiz a 2ª parte toda com elas.
Fui com uma baselayer térmica decathlon, corsários North Face, meias decathlon quentes de trail, pés com tape kinesio para proteger de bolhas, bastões black diamond, luz Petzl Tikka RXP, t-shirt técnica dos Abutres, buff da buff…
Obrigado, isso é fascinante, mas afinal queremos o relato, mudamos de ideias.

Crianças. Recordemos, corrida em plano nos primeiros 10kms, trilho agradável, junto a um rio, começo a descontrair e finalmente a entrar em modo de corrida, a perceber onde estou, que é real, que finalmente estou no UTMB, que está acontecer. Não que ligasse muito a isso, mas fiquei emocionado e até me veio uma lágrima. Que sorte que tenho de poder sofrer assim 40 e tal horas, pensei, sou um felizardo!

Ao passar por Les Houches e pelo primeiro abastecimento estou tão eufórico que nem paro, continuo. Para me divertir, identifico os corredores que não vão acabar de certeza. Aquele japonês tem uma mochila XXL mal adaptada ao corpo a saltitar, vai ficar todo assado. Aquele já está a ofegar e todo vermelho. Aquele vai demasiado lento. Aquele demasiado fresco e não tem protecção. Este é muito gordo. Aquele muito alto e musculado demais. Sim, eu encarno o espírito do trail.

Passo algumas dezenas de corredores. Primeira subida para Le Delevret que sobe sobe sobe e está descrita a subida. Pouco técnica, tudo com bastões. Está uma temperatura agradável. Tudo vai correr bem. Vejo o grande Senhor Ribeiro! Cumprimentos efusivos. Vai tudo correr bem. Primeira descida para St. Gervais… talvez a pior da prova. Não sei se foi do peso todo do equipamento. Achei-a mais violenta que o habitual, como se eu estivesse pesado e desengonçado. Não ajuda começar logo com algo muito a pique até St Gervais, são 1000m de desnível negativo para aquecer. Sinto uma impressão no joelho direito num degrau mais alto: a picada do escorpião. O meu destino talvez estivesse selado logo aqui.

Chegado cá abaixo sinto que foi duro demais e tenho os quads algo moídos. Vai seguir-se a subida para Les Contamines a 2500 metros. É estranha a sensação de iniciar uma subida a 800m e saber que nos levará tão alto e para o tal mau tempo. Como se pisássemos os degraus de uma escadaria que nos vai levar a um sítio mágico. Lembro-me do conto do João e o Pé de Feijão. Os Alpes são isto, caminhos que nos levam para paisagens extraterrestres que se vão transformando à medida que a temperatura baixa e o ar fica mais rarefeito.

Os corredores seguem de forma muito compacta. A noite começa a cair. Há um silêncio sepulcral a contrastar com outras provas.

Interrogo-me sobre o motivo de tal silêncio e concluo que deriva de duas coisas, uma a intimidação que nos provoca a ideia de irmos para os Alpes numa prova como o UTMB em que nos sentimos todos observados e avaliados, e outra o facto de serem nacionalidades tão diferentes e pouco entrosadas, especialmente orientais a dar com um pau, japoneses sobretudo, mas também chineses.

A partida foi dada às 18:30. São perto das 21h e ninguém acende frontais embora esteja escuro. Finalmente os frontais começam a acender. Vistas espectaculares de uma fileira de 2000 luzes pelos alpes, a serpentear.

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São algumas das imagens, entre muitas, que não se conseguem explicar. A noção de escala das coisas fica reforçada por esta corrente humana e os trilhos transformam-se numa longa decoração de natal Agora vão ter de me desculpar, mas tenho algumas brancas na memória e não me lembro bem do Col do Bonhomme. Mas sei que foi aqui pelos 1800 metros que finalmente achei boa ideia vestir o casaco e tive a primeira amostra de frio. E foi aqui que eu e o meu casaco novo Marmot Adonis iniciámos uma relação que durará para sempre. As sapatilhas em goretex foi mais tarde depois dos 80kms, com a muita chuva. Uma das minhas mais fortes memórias de infância são os longos passeios a pé com os meus pais e os cães no inverno, no campo. A sensação de uma chuvada valente e o som dos pingos num carapuço. As botas de borracha a chapinhar em poças de lama. Senti que agora estava a viver uma super-versão da minha infância. Em vez das botinhas de borracha tinha umas modernas Ultra Raptor. Em vez de um “kispo” qualquer com o patinho bordado, era um casaco pro de montanha. Em vez de uma cana arrancada da berma, dois bastões de carbono. E os Alpes comparados com os montes da zona Oeste? Só ali, ia subir o equivalente 3 serras de Montejunto numa só subida. Como me acontece sempre nas provas comecei a ficar emocional e com saudades imensas, a pensar nas pessoas de quem gosto e como sou privilegiado por ter saúde e por poder viver estes momentos etc. etc. Esta lamechice pegada é algo que me acontece em provas e que, como os enjôos, ainda não consegui resolver a cem por cento, mas estou melhor.

(foto da organização)

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As árvores começaram a rarear. Sim, lembro-me. Um vento gelado, nevoeiro muito intenso, tão intenso que praticamente não via nada com o frontal aceso.

(foto da organização)

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O campo de visão emoldurado pelo capuz, gotas de chuva iluminadas pelo frontal,  nuvens da minha respiração no ar cada vez mais frio como se eu fosse uma locomotiva a vapor a trepar pelos alpes. Os corredores seguiam muito perto uns dos outros numa longa e interminável fila. O percurso aqui subia a doer. Já havia ko’s técnicos nas bermas, vómitos. Nunca estamos sozinhos no UTMB, há sempre corredores e mais corredores. Um dos problemas disto são os sonoros puns a perturbar a reflexão filosófica.

No início com alguma timidez (um francês disse a outro “Santé” mas ninguém das outras nacionalidades se riu). Mas depois os corredores percebem que nunca vão ter privacidade. Nunca. Vão ser 40 e tal horas sempre com alguém por perto. E começam a dar puns também. E é isto o UTMB. Também teve lama, pedras, passagens por pequenos riachos. E sempre a curiosidade de ver onde aquilo nos ia levar. Olhava para o relógio e via a altitude a aumentar lentamente, passo a passo, em direcção ao topo mais exposto.

A respiração ia mudando, os ouvidos a estalar com a pressão a baixar. Subir em fila tinha a vantagem de impor um ritmo e tirar qualquer vontade de acelerar ou travar da equação. Era simplesmente parte de uma engrenagem humana.

Tenho um problema com relatos lineares, varre-se tudo da memória, ficam impressões. Só me lembro da descida seguinte que fiz a voar. Sei que cheguei aos 42km fresco e bem disposto. Lembro-me porque é a marca da maratona e acho sempre engraçado nas ultras quando passamos pela marca da maratona e faltam mais de 100kms neste caso. Normalmente nas ultras tenho sempre um mau bocado pelos 20-30km e depois assento, mas aqui ia com 42 e bem. Muito cuidadoso com a comida para tentar evitar ao máximo enjoos.
Gostava de fazer relatos lineares mas não consigo. Primeira noite foi monótona e está a dissolver-se ainda mais na minha memória, daqui a 24h só com hipnose regressiva.

O nevoeiro não ajudava a fixar detalhes. Trata-se de correr em plano e descidas e andar com bastões em subidas. Vocês que não fazem ultras não conseguem imaginar certamente o que é estar uma noite inteira em movimento. Sei que chegámos ao fim da primeira noite e fui invadido por uma grande euforia. Aqui lembro-me. Primeiro o céu começou a aclarar e os picos a desenharem-se debaixo das nuvens cor de chumbo. Foi nesta fase que vi a paisagem mais brutal que já vi desde que ando nos trails, a subir ao Col de La Seigne antes dos  2500 metros. Olhei para baixo para o trilho a serpentear com centenas de corredores, em fila… e para cima, mais outros tantos… Começou a nevar e fomos fustigados por um temporal impiedoso. Ao fundo o Monte Branco enorme, uma desproporção de escala impossível de entender. Cada passo era uma conquista. Todos seguiam em silêncio e meditação perante aquela imagem que se revelava num acorde de um órgão daqueles que há nas catedrais e basílicas que quando nos sentamos lá a tocar o Enola Gay ou o Final Countdown vem logo um padre a correr e a barafustar. Que nascer do sol! Filtrado pelas nuvens de trovoada, uma luz amarelada, baça, ameaçadora, o branco da neve, o negro e castanho das rochas e dos glaciares sulcados e rugosos, prateados dos raios de luz… Senti-me transportado para as histórias de aventuras e exploração de ambientes inóspitos. Como é raro sentir algo assim e como é bom.

Também senti um cansaço forte mas segui no ritmo dos outros todos. Ninguém ultrapassava ninguém aqui. No topo, a tempestade estava extrema para os meus padrões, mas não para o dos dois senhores da organização que ali estavam para ver se alguém estava em apuros. Riam e conversavam aos gritos, ao pé de uma tenda refúgio de emergência ali montada. Posso dizer que adorei esta sensação. De facto a tempestade mais extrema viria na ascenção ao Gran Col Ferret, mesmo antes de chegar ao Refuge Bonatti, 30 kms depois e essa já me impôs mais respeito.

Devido às condições do tempo a organização cortou a subida às pirâmides calcárias e descemos imediatamente para Lac Combal. É estranho falar em descer nesta fase. Lac Combal fica a 2000 metros e a seguir vem outra subida a pique para a Arrete do Mont Favre. Confesso que só me recordo de muito vento, muito frio, e embora eu estivesse confortável, o avanço nas subidas fazia-se a conta gotas. O genérico do Game of Thrones não me saía dos ouvidos e fazia piadas parvas mentais a imaginar-me a aparecer na Wall vestido com o meu casaco Marmot e os meus bastões “Olá, tudo bem John Snow?” Muita gente a passar mal aqui, muitos white walkers.  Na descida para Col Checrouit fui rápido, eu os outros, a fugir do frio, no limiar de começar a arrefecer. À medida que me afundava no vale, mais abrigado do frio ficava. Parecia estar a descer de volta ao planeta Terra.

A água nos meus bidons estava gelada demais para se poder beber há algum tempo, de modo que já estava a entrar em território de desidratação. Quando bebia, sentia enjoos. A vista antes de Col Checrouit, dramática, com vale glaciar estilo Lord of The Rings assim como quem vai para Mordor por Rohan, mesmo antes de chegar a Rhovanion vira-se à esquerda e é logo ali. Sentimo-nos tão pequenos… tão hobbits.

E então cheguei ao paraíso. O refúgio Maison Vieille em Col Checrouit. Aproveito só para anunciar que até aqui e à minha desistência não houve qualquer parte assada. Isto para aqueles que se divertem com detalhes escatológicos e infantis em relatos desportivos. Voltando ao relato. Que refúgio este. Que turistas vêm aqui parar? Uma vista esplendorosa, chaise longues, mesinhas de madeira, uma mama italiana (estávamos na parte italiana do percurso) com um grande calderão de penne, molho bolonhesa, queijo ralado, fiambre… senti-me tão feliz.

fotos tiradas da net, não por mim


Foi de longe o melhor posto de abastecimento da minha vida. E incluo nisto a minha vida toda, não apenas o trail running. Incluo todas as situações em que tive frio, fome, desgostos de amor, ressacas, depressões e cheguei a um qualquer local em que todos os problemas se dissolveram. Conseguiu ser melhor que a kebab house em Londres ao nascer do sol depois de uma noite decadente no Factory. Melhor que as almondegas do ikea numa quarta feira de saldos em mobília de quarto no inverno véspera de Natal. Agora que penso nisso, acho que toda a minha vida foi apenas o resultado mecânico da engrenagem de um relógio para desembocar naquele caldeirão de penne fumegante nos alpes italianos, naqueles raios de sol por entre nuvens, a dar-me tréguas. Comi tanto.
Claro que depois, na descida para Courmayeur, me ia vomitando todo, mas não falemos nisso.
No global é uma descida non-stop de 1200 metros. Aqui a geografia é extrema. Tudo é exagerado, é tudo sobe, sobe, sobe, desce, desce, desce. Nos Pirinéus ou na Madeira é um pouco mais Sobe sobe, desce, desce. Em Portugal é sobe, desce.

Chego a Courmayeur, uma pequena vila. Era aqui o ponto do drop bag. Sentia-me muito bem, fartei-me de ultrapassar corredores, corria forte e saudável e acontece-me sempre isto antes de quebrar de forma catastrófica. Mas 80kms and going e… Ainda estão aí?
– Sim *bocejo*
Deram-me o dropbag e não tinha a certeza sobre o que fazer. Tinha mais de 90 minutos de folga para o tempo de cut-off. Entrei lá e era o caos! Uma espécie de pavilhão barulhento e completamente desorganizado. Uma fila enorme para refeições, agradeci ter comido a massa lá em cima, aqui era impossível. Zero chuveiros. Enfim, qualquer provazeca em Portugal mete chuveiros e estes tipos nada. Arranjei um canto minúsculo para me vestir, mas era o caos à minha volta. Comecei a pensar em mudar as meias e as fitas adesivas, descalcei-me para deixar os pés respirar um pouco. As sapatilhas em goretex tinham este defeito, só funcionam mesmo bem quando está frio e chuva. Bastava o tempo ficar seco e/ou mais ameno e sentia calor nos pés. Pensei em trocar pelo outro par de Ultra Raptors, as normais, mas nesse momento alguém da organização avisou todos os corredores que o tempo estava muito extremo no gran col du Ferret. Isso fez-me ficar com as goretex. Ia pelo menos trocar a base layer e a t-shirt técnica. Infelizmente não vi sítio nenhum para trocar os calções e os boxers de corrida ensebados de vaselina. Examinei os pés e parecia tudo bem, por isso voltei a colocar as meias. Coloquei o relógio garmin a recarregar com o powebank, troquei a bateria do frontal para me preparar para a 2ª noite.

Nisto, um detalhe fatídico: Com a confusão de não ter espaço e destas trocas todas, perdi a minha caixinha dos medicamentos e neles os voltarenes. Estou convencido que 2 ou 3 voltaranes e era finisher. Se a primeira dor na meio da primeira descida foi como a picada de um escorpião cujo veneno ia começar a invadir o meu sistema ao longo de 20 horas, aqui perdi o antídoto sem o saber.
Arranquei e dei início a uma das piores subidas, para o refúgio Bertone, quase 1000 metros a pique non-stop. O início fez-se por asfalto. Não tenho grande memória desta parte. Sei que falei com pessoas, discutimos a prova. Achei muito parecida com a saída de Curral das Freiras na Madeira. Mais uma vez é a experiência de ir subindo por asfalto, depois caminho, depois single track e passado uma ou duas horas estamos na montanha. Esta subida ia levar à cota 2000m no refúgio Bertone, depois um longo e interessante single numa encosta até ao refúgio Bonatti. Sentia-me fraco, talvez tivesse exagerado nas descida para Courmayeur ou então era a digestão. Aqui levei com a chamada marreta. Acançava a muito custo. Não me lembro do refúgio Bertone.
À medida que nos aproximámos do refúgio Bonatti o tempo foi piorando. O vento tornou-se gelado e vi nuvens a avançar pelo vale. Antes de curvar para um vale aberto, abriguei-me e pela primeira vez vesti as calças impermeáveis por cima das meias e dos calções. Ajustei as luvas e o carapuço do meu fantástico casaco Marmot, o Adónis, não sei se já vos falei nele? Bem, enfrentei o touro pelos cornos e fiz-me ao caminho. Aqui começou a hecatombe de hipotermias. Francamente não percebia o que se passava na cabeça de vários outros corredores que continuavam vestidos como se estivessem 25 graus, a caminho do inferno gelado. Não tinham o equipamento obrigatório? Estavam visivelmente enregelados, a tremer. De repente chuva forte misturada com neve e depois só neve, mas uma neve granizo, bolinhas pequenas que estalavam contra o corpo e no carapuço. Alguns mais desesperados meteram-se a correr num último esforço para subir uns 200 metros até ao refúgio Bonatti, mas era inútil.

O refúgio mas num dia de bom tempo!

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Quando eu ia a subir vi dois enfermeiros com oxigénio a descer a correr para salvar alguém em sérias dificuldades. Aqui passou-se o episódio com a Verónica Bravo e o runner dinamarquês. Vou postar o que escrevi no facebook:

Nunca julguem uma pessoa pelas aparências. A chegada ao refúgio W. Bonatti foi épica, ventos ciclónicos, neve / granizo a picar como agulhas geladas, genérico do Game of Thrones… Nisto está uma atleta a tentar explicar-se em espanhol a pessoas que só percebiam francês ou italiano. Tinha princípio de hipotermia e das duas uma, ou a deixavam abrigar-se ali algures e a levavam depois, ou arranjavam alguém para a levar ao próximo posto, mas não podia ficar ali a gelar. Estava um bocado lixada. Servi de interprete, disseram-nos que o próximo posto era próximo e que de lá haveria transportes (30 minutos depois vimos um heli do INEM lá do sítio a aterrar para levar alguém em mau estado). Eu hesitei um bocado, pensei que ela estava meio ko, que me ia atrasar imenso ao colapsar a meio… Ofereci-me para a levar, informei a organização, todos contentes. Começamos a ascenção ao Ferret e eu todo pai galinha como se ela fosse uma criança, a arranhar o meu espanhol. Quieres my cobertor de emergência? Embrulha-te en el. Tienes frio? Estamos indo muy rapidito? E ela sempre muito séria tipo “anda lá com isso”. Eu corria, olhava para trás e lá vinha ela. Para pessoa a “hipotermar” ela estava bem rápida. Na conversa às tantas explica-me que era corredora de elite e que estava 3 horas atrás do planeado. Ainda tive tempo para salvar um dinamarquês que adormeceu na berma debaixo da chuva e neve (queria boleia de heli, também). A justificação do dinamarquês para escolher o pior sítio possível para se deitar foi “não conseguia ter os olhos abertos, mas ia só aqui dormir 2 minutos, depois acordava”. Às tantas era eu e os meus enjoos e joelho, ela enregelada e o dinamarquês sonolento com death wish. Era chilena. Falei-lhe naquela ultra que quero fazer, a da patagónia e ela “arranjo-te uma inscrição para isso!”. E eu ok! No outro posto ela recuperou a 100% e contra todos os meus avisos e recomendações, quis continuar em prova. Desejámos boa sorte um ao outro. Entretanto vejo que despachou a prova em 42 horas. E que é de facto uma corredora de elite chilena da North Face, a Veronica Bravo, que ganha coisas.

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Consigo compreender alguma irritação dela com o eu paternalismo do “estou a ir rápido demais?” e a exclamação dela às tantas “soy elite runner”, tipo “pah, estás no UTMB não vês notícias de trail!?” Isto para eles deve ser um bocado como alguém que não segue futebol dizer ao Cristiano Ronaldo “ai joga à bola? que giro, o meu filho também” Repetiu-se o mesmo quando entrei na carrinha da organização para voltar para o hotel. 

Em Arnouvaz, no posto, estavam a controlar toda gente e não deixavam ninguém passar sem o equipamento. A subida para o Gan Col Ferret e toda a secção até La Fouly estava muito extrema. Fiquei apreensivo porque eu pensei que já tinha passado por algo extremo e não os vi preocupados… Muitos ficaram barrados. Achei impressionante. Fazia parte do equipamento obrigatório caramba. Não sei o que passa pela cabeça de alguém ir correr para os alpes, ter equipamento obrigatório que não é nada de especial (luvas, casaco impermeável, calças imperméaveis), ver todos os buletins a avisar de temperaturas -10 e neve e chuva e mesmo assim conseguirem armar-se em chicos espertos. Enfim.

Infelizmente deixaram-me passar. Estou a brincar. Ou não. Mas aqui estava enjoado. Custou-me comer, tanto que não comi nada. Experimentei um pouco de cola e ia vomitando. O posto era abafado, com um aquecedor a gás no meio e só queria sair dali antes de começar a transpirar. À apreensão com o clima também começou a apreensão com a energia que me podia faltar a meio. Arnouvaz era o ponto ideal para desistir, era uma vila, tinha transportes, apesar da forte chuva estava “civilizado”. Dali ia subir para sítios inacessíveis e não podia simplesmente desistir e acabar com tudo. Pensei na minha filha. Quando comecei a ascenção ao Ferret ainda mais apreensivo fiquei. Parecia não ter forças nenhumas. Tinha de pensar seriamente se queria continuar. Pensei uns minutos no sentido da vida e em como aquilo encaixava nela. Para quê? Para quê fazer-me passar por isto quando podia voltar para trás, para as luzes de Arnouvaz e um autocarro quente para Chamonix e uma cerveja e queijo numa brasserie.

Duas fotos do col ferret, mas não tinha nada a ver com isto ok? Muito pior.


Por fim sentei-me aninhado contra uma rocha grande e tentei comer uma geleia de fruta para ver se renascia. E pensei nas coisas. Pensei imenso. Eu a pensar:

budha

Ouvi uma voz ca dentro: Muitas vezes vez  as coisas como binárias, Lourenço, acabar, não acabar, perder, vencer, viver, morrer.. É mais fácil teres uma vida normal e abrires uma excepção de 46 horas para algo extraordinário e binário como o UTMB que se acaba ou não do que uma vida de pequenas decisões binárias que envolvem treinos e dedicação numa rotina invisível, sem a consagração espectacular no fim para afagar o ego. Foste consumido pelo orgulho pela crença que já tinhas o suficiente para concluir esta prova porque já concluíste uma igual. E agora a verdade vem ao de cima. Pergunta-te: por que razão pensas desistir? Tens algum problema grave? Não seguem os teus companheiros encosta acima, alguns em pior estado do que tu? Sabes bem que a fraqueza nunca é um motivo de desistência numa ultra porque é possível renascer dela com comida e repouso e é peciso ter paciência. Não te projectes no topo da montanha. Dá apenas o próximo passo e o outro a seguir. Concentra-te na respiração e postura. Esquece-te do tempo e viaja. Ajuda os outros. Vai.

Fui invadido pela convicção de que ia chegar ao fim.
A goma fez-me milagres, senti-me a renascer, apesar de lutar contra náuseas e vómitos. Sabia que um DNF a chegar tinha de chegar como algo inevitável que nem surgia como um debate interno sim não. Levantei-me e continuei, mas a subida parecia interminável, perdia-se no nevoeiro e na neve e o meu ímpeto esmoreceu. A cada curva, mais subida, mais subida… quando o nevoeiro dava tréguas via corredores pequeninos como formigas muito lá em cima e desanimava. Às tantas só olhava para os meus próprios pés ou para os pés do corredor da frente. Aqui desistências, corredores a voltar para trás. À medida que subíamos o tempo piorava e tínhamos a clara noção que estávamos por nossa conta. Era proibido parar e impossível ter um abrigo, era um caminho exposto. Às tantas vejo o dinamarquês de novo aninhado na berma em posição de quem quer ter uma hipotermia e morrer, mas desta vez já estava um corredor a dar-lhe nas orelhas. Tentámos convencê-lo a voltar para Arnouvaz mas ele disse “fuck that, no way I’m giving up”. Não sei o que lhe aconteceu, mas tinham passado apenas umas 24h e ele já estava assim ko de sono, não augurava nada de bom para a 2ª noite em branco.
Cheguei aos 2500 metros ainda de dia, o col Ferret, mas debaixo de uma névoa e tempestade. Na crista da montanha ficámos expostos ao vento de norte. Achei esta parte divertida na verdade, mas queria sair dali o mais depressa possível. Foi nesta descida para La Fouly que o joelho começou a acordar e a doer cada vez mais. A dor era familiar. A mesma que tive há 3 anos numa prova de trail e que passou com um voltarene – foi assim que os descobri, um companheiro deu-me um e desde então levo de reserva para ajudar quem precise.

O segredo:

volta

Aqui ainda me faltava muita descida até ao final da prova. Experimentei tudo. Descer sempre com a perna esquerda primeiro, correr com a perna direita de lado estilo pedinte romeno a fingir que é aleijiado, bastões como canadianas, bastão como bengala aristocrática à Maestro Vitorino de Almeida, pé coxinho à Sassi Pereré, às arrecuas estilo Michael Jackson moonwalk, perna ao peito à Kilian Jornet na Hardrock… Quando cheguei a La Fouly vinha bastante frustrado mas com esperança que me dessem um anti-iflamatório. Expus o problema, mandaram-me para o posto médico. Entrei e havia meia dúzia de embrulhinhos dourados com pessoas lá dentro a tremer de frio e cansaço. Mais uns quantos côxos e eu e um italiano a queixarmo-nos dos joelhos. Veio a médica suiça e eu expliquei-lhe o que tinha e o que precisava.

A senhora recusou-se a dar-me a porcaria de um voltarene. Toda contente e convencida que tinha salvo uma vida, falou-me da falência renal. Expiquei-lhe que não estava a pedir um anti-inflamatório corticóide, e com aquele frio todo não me sentia a sofrer de desidratação e que esses problemas são críticos em altas temperaturas, não naquele tipo de condições. Além disso sentia-me “bem”. Não ia desistir.

O italiano maricas disse que queria ser visto pelo fisioterapeuta que lá tinham, talvez à procura de uma justificação para um DNF. A médica também me queria dirigir ao fisioterapeuta mas eu recusei. Sabia o que tinha. Uma infamação na ilitobilial. Já a tive. Sei que não é uma lesão “grave”, é uma inflamação de nada, mas que causa uma dor como uma agulha a enfiar-se pela perna. Um voltaren e puff até ao fim da prova.

Acedeu a dar-me 2 benurons de 1gr para tomar de uma vez. Achei estranho porque no meu livro 2gr disto são tão maus ou piores para os rins que um voltarene, mas estava por tudo. Tomei-os e segui viagem, a coxear, pelo asfalto. Aqui senti frio a sério pela primeira vez. A paragem fez-me mal. Fiquei no posto quente e ao sair para a chuva e o frio todo eu tremia. Seguiu-se uma longa parte de asfalto antes da subida para Champex e foi neste troço que comecei a concluir que a dor não ia passar. Dig-se que ia perguntando a corredores se tinham anti-inflamatórios. Ia em 130kms e 7500km. Não stressei demais. Estava apático. Ia experimentando posições com a perna. Por vezes parecia passar e pensei que os benurons fariam efeito, mas as descidas eram incomportáveis. E ainda me faltariam 3 descidas de perto de 1000m cada uma, bem técnicas. Não sei se era impossível. Sei é que passou a linha do razoável. Não queria a merda do colete do UTMB ao ponto de me arrastar mais 35kms com dores daquelas. Ficou claro para mim. Depois deixava de ficar, as coisas pareciam melhorar, mas estava em asfalto plano e consegui andar bem. Assim que tinha uma rampa a descer ou degraus, concluía de novo que era impossível, até que me forcei a mentalizar que tinha acabado, que só tinha de chegar ao próximo posto.

Tomei a decisão de desistir na subida para Champex e aqui passei o pior bocado de sempre nas minhas provas. De sempre. Pensei que estava quase no abastecimento porque me disseram “é já ali!” a apontar para umas luzes numa encosta. Mas o já ali era uma subida interminável por um trilho técnico lamacento aos zigue zagues que nunca mais acabava.

Só conseguia usar a perrna esquerda. Um pé de cada vez. Degrau a degrau, apoiado nos bastões. Nisto, iam-me passando corredores. Dezenas. Centenas. Tomei mais consciência de onde estava na classificação, como me aconteceu com o MIUT. Caras que nunca tinha visto. Passavam por mim. Reforcei a minha impressão do UTMB, é quase sempre cada um por si. Em tantos corredores só 2 perguntaram se estava bem. Às tantas desisti de mendigar um antiinflamatório, alguns nem respondiam. Com as alucinações do sono tinha sempre a impressão de estar a chegar ao fim. Olhava e pareciam-me luzes de um automóvel e eu concluía: é uma estrada, estou a chegar. Na verdade eram apenas fitas de marcação. O percurso lembrou-me o Castelo de Kafka, como o personagem principal sobe uma montanha para chegar a um castelo no topo, mas nunca lá chega, acontecem sempre coisas, contrariedades, como um pesadelo, ilusões que se desfazem sucessivamente, e em vez de ir para o topo parece que ficamos sempre no mesmo sítio às voltas e voltas. Assim era o meu desespero agravado pelas alucinações, ainda assim muito mais ligeiras que as da Ehunmilak. A pior foi mesmo voltar-me para trás e ver um camião a avançar direito a mim trilho acima. Eram só dois corredores lado a lado, de frontais acesos. Já não tinha pressa, mas duvidava que aquela subida tivesse fim. Por vezes o trilho voltava a descer e eu dissolvia-me em desespero e frustração. Outras o trilho guinava para longe da direcção das tais luzes mágicas da casa que tinha visto. Estava furioso. Nisto comecei a ultrapassar zombies ainda piores do que eu se isso é possível. Passei por um japonês que mal se aguentava em pé. Perguntei-lhe se estava bem. Achei arriscado, ele cambaleava e o trilho era estreito, com ravinas a pique. Respondeu que não. Disse-lhe que ia desistir, podia acompanhá-lo e ele “no give up” e eu ok, tchau (chegou bem depois do tempo de fecho a champex mas tudo bem, hara kiri como deve ser). Essencialmente ia sendo passado e passado e passado. Dezenas, pareciam formigas a atacar-me.

Fiquei fascinado. Tinha perdido uma eternidade naquele trilho, no posto médico e ali estavam aqueles corredores, no limite do tempo limite, a arrastar-se. Para quê tudo aquilo? Que nexo tinha? Queriam mesmo ser finishers assim tanto?
Tu começaste mas foi a duvidar se não estavas a ser cobarde por desistir enquanto que eles não paravam.
Pronto, já cá faltava o caro leitor e a sua voz irritante. Pensei que tinha adormecido no conforto do lar. Ora bem, não, não. O que me fez foi reforçar a minha convicção porque eu também sou assim. Alguns podem ter tido azar e a prova correr-lhes mal. Vómitos, entorse, hipotermia, bolhas lesão. Mas não TODOS. Aquilo, aquele último bocado da prova eram pelo menos 95% de corredores cuja expectativa normal e esperada e certa e assegurada era aquele nível de sofrimento no limite das barreiras de tempo.  Nisso não gostei do UTMB! Valorizei mais a Freita e os seus tempos de corte brutais. Acho bem. Acho bem que uma prova pegue no último terço e feche a barreira e diga “isto é para pessoas que treinam. O senhor vá escolher uma prova mais fácil, treine, e depois venha cá para ver se tem um colete”. Sim. Acho cada vez melhor essa perspectiva, como a da Spartathlon. Porque é preciso treinar, isto não devia ser uma coisa em que um atleta de fim de semana chega lá e pumbaaaaaa, mete 170kms, fode-se todo e é um herói e depois no resto do tempo não treina, não se dedica, não quer, não luta.
Comecei a ter um ataque de paranóia: quanto mais subia mas desconfiava que Champex era a porcaria de um abrigo isolado como o Bonatti onde recusaram transporte à Verónica Bravo. Imaginei o que seria se chegando lá acima me dissessem que tinha de descer a pé ou subir a pé, mas que dali não me tiravam. O que faria? Deitava-me no chão e colapsava?

Não é concebível o meu esgotar de paciência para fazer esta subida enlameada e técnica só com uma perna apenas para desistir. Estava lúcido e só queria perder a consciência e entrar em piloto automático, mas não conseguia. Cada luz, cada mudança de plano, de piso, era um prenúncio de que ia finalmente acabar o martírio e não. Mais zigue-zagues encosta a cima. Por fim civilização. Primeiro foram os ouvidos a receber os ecos. Ouvi um animador francês e som de música techno a acolher corredores. Depois vi luzes de estrada. Um automóvel. Chão liso de asfalto. Nem queria acreditar. Desconfiei de uma alucinação mais forte e só não me ajoelhei a apalpar a estrada porque o joelho não deixava. À medida que me aproximava do posto, mais me parecia um sonho. Era enorme e cheio de luzes… Havia espaço lá dentro, comida fumegante, um bar com cervejas, autocarros ao pé, vim um a descer cheio de gente embrulhadinha em papel de prata dos cobertores de emergência…. Disse ao senhor da organização que me acolheu: “quero desistir. O meu joelho…”. Ele fez-me algumas perguntas para ver se tinha mesmo a certeza. Sim. Cortaram-me o dorsal e deram-me como DNF. Explicaram-me que saíam autocarros para Chamonix de xis em xis tempo. Deram-me os parabéns, um rapaz jovem, um senhor e uma senhora de idade, todos voluntários. Mas parabéns porquê, desisti? Mas chegou até aqui. Boa tentativa, mas não resultou.
– Também não sejas assim, Lourenço, é de louvar, sempre marcam 135kms e 7500m no teu relógio. É mais do que um MIUT. Tens noção?
Calem-se, a sério, não vão lá com falinhas mansas.
– Mas wow. És um herói! O joelho foi azar.
Não foi azar. Azar seria uma queda ou um entorse. Não esta lesão. Esta é de eu ter 4kg a mais, ter abusado na primeira descida. É de ter ido para uma corrida com um bolso estragado na mochila e ter uma complicação logística para colocar a caixinha dos medicamentos, é de não ter verificado duas vezes em Courmayeur se tinha tudo em vez de zarpar à pressa, é de não ter insistido mais com mais pessoas por um anti-inflamatório. Mas admito que é experiência. Fiquei pelo menos feliz de não ter um DNF por problemas de estômago ou bolhas. Espero nunca mais ter um por dores num joelho. Um de cada, chega. Não preciso da vossa comiseração
-Qual comiseração, não podes ver as provas como binárias, fiz, não fiz, fizeste o que fizest…
… paternalista que dispenso.

Fui buscar massa com queijo e comi. Comprei uma cerveja e bebi. Observei os corredores que chegavam enquanto eu comia o meu esparguete fumegante. Vi coisas surreais, especialmente nos asiáticos. Estavam super focados, a prova deles era aquela, mesmo a 5 minutos do tempo limite davam ordens à família para prepararem o equipamento. Finalmente fecharam a barreira horária. Iam chegando corredores que ficavam indignados. “Por tão pouco.” Oh raios, então não percebem que vos estão a fazer um favor? Uns ainda se estavam a preparar quando lhes foram dizer “acabou-se”. E enão é que ficaram tristes? Mas o que queriam eles? 50h? 100h de tempo limite?
Voltei de autocarro. Quero abreviar. Cheguei a Chamonix, pedi transporte e meteram-me numa carrinha com outro atleta e a namorada. Ele comentou que não lhe correu bem. Como eram 3 da manhã assumi que tinha desistido e perguntei porquê. Não tinha desistido, tinha acabado há algumas horas entre os tops e estava chateado por não ter feito top 30. Falámos de provas, recomendei-lhe vivamente o MIUT. Só no dia seguinte a googlar é que percebi que estive à conversa com o  Sage Canaday…

sage

Pronto.
O meu amigo João fez umas impressionantes 39 horas com a sua mania que é esperto. Eu acho que assim é que eu devia fazer as provas. Já me dava por satisfeito. O epílogo disto?

Prefiro nos próximos tempos dedicar-me a melhorar. A evoluir e ser mais rápido. Em detrimento de voltar a fazer outra de 100 milhas a apontar para as 40 e tal horas.
Eu gosto disto. Na verdade gostei muito de participar e desta experiência única. Até porque aprendi.

Mas sinto que estas provas pelo investimento que implicam, de tempo e dinheiro, de energia mental, exigem algo mais à prova de bala. Algo mais sólido, mais garantido, mais leve, menos sofrido, mais curto e leve.

Escrevo estas últimas linhas no avião que me está a levar de volta para Lisboa. Amanhã vejo a minha filha e estou morto de saudades. Pensei muito nela. Trouxe-lhe um cão com um cachecol de chamonix, um cão salva-vidas. Para além do senhor tigre que acabei por não levar comigo porque ela disse-me que tinha medo que eu o perdesse na montanha e eu obedeci.

Nota final sobre o UTMB: é uma experiência que recomendo pelo menos para uma vez. Talvez regresse para ser finisher e tudo, mas só se for para acompanhar alguém. Não consigo compreender quem volta a esta prova depois de a terminar… isso, não consigo compreender.
– Também não tens de compreender os outros sempre.
É verdade.

video oficial UTMB

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Ecomaratona de Lisboa 2014, race report

Tempo de chip de 4:57 (esqueci-me de carregar no stop do gps quando passei a meta). 115º lugar em 206 atletas que terminaram. O epic suffer score de 967 deve estar mal, tenho de regular as zonas cardíacas no strava como deve ser.

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No gráfico de altimetria pode-se ver que existem 4 grandes subidas.

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Aqui antes da partida, a concentrar-me.

concentração

Foi a minha segunda maratona, mas esta de características diferentes da de Madrid, com cerca de 3x mais subidas, por se desenrolar em Monsanto e por boa parte se desenrolar de noite, no escuro completo, obrigando ao uso de frontal. Por isso não fui com qualquer objectivo de tempo e de bater as 3 horas e 58 minutos dessa maratona. Esperava até terminar nas 6 horas e afinal fiz pouco menos de 5 horas. Fim de tarde fresco e ventoso que me levou a um erro de equipamento: a primeira camada debaixo da t-shirt técnica que me aqueceu demais ao longo da prova. Fui um dos únicos atletas a optar por isso e devia ter sido mais humilde: quando és um dos únicos a escolher algo e és inexperiente, talvez estejas tu errado. O meu raciocínio foi que se estava frio às 19:30 (e estava mesmo), então às 22:00, 23:00 estaria mais. Ainda por cima havia a hipótese de chuva que nesse dia já tinha caído. Não obstante, deveria ter levado essa primeira camada na mochila e se tivesse frio, vestia-a. Não tive paciência para a despir a meio da prova pois implicava parar (nunca parei, excepto para encher reservatórios), tirar a mochila etc. e achei que se o fizesse poderia sofrer com a diferença de temperatura.

O outro erro de equipamento, este sim mais grave, foi ter levado as sapatilhas salomon mantra. Esta era uma prova 100% adequada a sapatilhas de estrada normais e eu levei umas de trail híbridas que dão para estrada e trail. Dão para estrada, mas não são exactamente a mesma coisa. É uma sapatilha um pouco minimalista, com muito menos amortecimento que os meus Nimbus 15 ou Saucony Triumph 10 com que faço estrada. Ali, mesmo os trilhos não asfaltados são um pouco duros. E paguei a factura após 4 horas de prova, dores muito fortes na zona dos tornozelos e canelas.

A prova em si foi extraordinária. Novidade, esta de correr até o sol se por e para lá disso (terminei perto da 1 da manhã). É uma sensação um pouco surreal, visto que estou habituado a fazer exactamente o oposto. Logo na primeira subida, a primeira surpresa: a quantidade de atletas a correr mesmo na rampa a pique que vai dos pupilos do exército até à Prisão de Monsanto. Na altura cheguei a pensar “vou ficar em último!?” Não percebia o que se estava a passar. A partida era exclusiva da maratona pelo que todos ali iam para os 42km. Vejo mulheres e homens a subir aquilo a abrir, toda gente parecia entusiasmada demais. E ainda íamos nos primeiros 2km. Eu fui no meu ritmo sempre a ser ultrapassado. Chegaram lá acima já vermelhos e transpirados. Logo na primeira descida comecei a passar pessoas e foi quase uma constante durante todos os 42km (também fui ultrapassado, mas menos!). É a grande vantagem de começar lento, nem que seja o primeiro km apenas. Estamos o resto da prova toda praticamente a ultrapassar gente, independentemente do nosso nível. Depois de 10km de estrada começaram os primeiros trilhos ou, devo dizer, estradões. À medida que o sol ia descendo, já para lá do horizonte, íamos caindo na penumbra, especialmente quando se entrava em bosque cerrado. A prova muito bem assinalada e sempre com voluntários a dar instruções e a “barrar” potenciais erros. Eu ia-me trocando todo numa rotunda de Monsanto mas um senhor com um apito chamou-me para o caminho correcto. Estreei o meu frontal, o Tikka RXP e foi muito divertido correr com a sua luz forte. Aliás, o Tikka conseguia-me iluminar as fitas reflectoras da prova a mais de 100 metros. Impossível perder-me. Fiquei confiante para o Douro Ultra Trail, uma vez que terei corrida nocturna nessa prova. O pó fica a pairar no foco, vemos também condensação de respiração e tudo adquire um tom um pouco surreal, especialmente mais para o fim, em que devido ao relativamente baixo número de participantes (200 e pouco) e aos 42km, ficamos sozinhos bons bocados do percurso, em plena mata, às escuras, só com o nosso foco de luz, até ver o próximo voluntário, coitado, ali no escuro, à espera do próximo corredor para lhe dizer por onde seguir e dar ânimo. A prova não teve abastecimentos sólidos, rigorosamente nada. Eu fui a contar com isso e por isso tinha a mochila com muito alimento. Teria agradecido alguma bebida isotónica fresca, mas tendo em conta que isto é uma corrida de beneficiência, não reclamo! É tudo voluntários e pro bono, patrocínios etc. Menos sorte tiveram muitos que não levaram rigorosamente nada também. Numa maratona é fatal.

A noite avançava. A parte mais difícil foi mesmo um loop enorme na zona do Restelo, depois da Avenida das Descobertas. O percurso ali aos 26km fazia-nos cruzar com os que iam mais à frente e já tinham feito o loop. Vinham no sentido oposto. E de novo, lição de humildade! O loop era enorme, tinha 6km, portanto, os primeiros tipos a cruzar-se comigo já tinham mais 6km nas pernas e devem ter terminado com mais de uma hora de avanço! No início não sabia que se tratavam de 6km, mas fui fazendo o loop e sempre a pensar “mas aqueles tipos já correram isto tudo!?” Foi aí aos 30km e na parte mais difícil do percurso que se começou a separar o trigo do joio. Costuma dizer-se que a maratona só começa aos 30km e confirmo. No meu caso foi aos 32km. Aos 32km começou a instalar-se-me uma dor fenomenal nas duas pernas, na zona dos tornozelos e canelas. Já a senti antes, é normal, mas ali foi ampliada pelas descidas em asfalto que dão impactos muito fortes e pela escolha de sapatilhas sem muito amortecimento. Do ponto de vista de coração e energia eu sentia-me bem, sem as fraquezas que marcaram a maratona de Madrid. Mas estava a ser difícil correr a menos de 6:00 por km mesmo em plano. Pode ter sido ainda ecos do trail dos Cucos, não sei. Aqui foi  também quando comecei a passar mais pessoas que iam a andar. As subidas e descidas são assassinas! É muito difícil estabelecer um ritmo.

No meu caso, o fiel da balança é o monitor cardíaco e as batidas por minuto. Eu sei que aguento 4 ou 5 horas com o coração entre 145 e 165 bpm. Posso esticar-me mais, para os 170, mas isso significa muito sofrimento e potencial estoiro. Na maratona de Madrid praticamente não olhei para este indicador porque queria fazer sub 4 horas e o importante era o tempo por km. Além disso tinha experiência de treinar em estrada. Mas numa prova de trail ou de montanha / serra como esta, o pace não quer dizer muito. Nas subidas isto regulava o meu ritmo. Se o meu coração disparasse para as 170, 180 eu não corria. A andar rápido o coração ia a 155-165 mesmo numa subida. Com o tempo, vou ganhando confiança para seguir mais o meu “feeling”, mas correu bem neste ponto, porque mesmo na penosa ciclovia da radial de benfica, já nos 36km, uns 4km a descer ligeiramente, com rectas gigantescas, pude ir sempre a correr e passei alguns que iam a andar. Era uma tentação andar, a dor nas pernas estava formidável e eu só pensava no grego Yanis Kouros e na sua frase de “continuei mesmo sem autorização do meu corpo”. Naquela monotonia da recta sem fim, no martírio do relógio que parece que não passa dos 37 para os 38km nem por nada, só o meu foco de luz na ciclovia, os meus passos, paf paf paf, completamente em transe, porque percebi que podia bater as 5 horas. Uma coisa é certa, toda gente que eu ultrapassei após os 30km foi pessoal que estoirou, especialmente os que andavam. Para eu só os apanhar ali é porque tinham desacelerado muito depois de uma primeira parte mais rápida, precisamente o que me aconteceu nos Cucos. Reconheci alguns da primeira subida. Uma ou outra desistência. Caimbras. Alguns com uma lanterna com as pilhas a esmorecer, no escuro. Isto parece muito mal de se dizer, mas que atire a primeira pedra o corredor que não se sente mais motivado por passar outros e ver pessoal a cair para o lado!Depois veio a subida final onde fui ao despique com mais 2 corredores, um corria, o outro andava, o outro corria, o outro andava. Parecia uma corrida de coxos! E lá acabámos, praticamente todos ao mesmo tempo, depois da cruel partida de descer o parque eduardo VII e a meio cortar e subir, quando pensávamos que a meta seria no marquês. Na meta, festa e cerveja à borla. Só bebi uma, à 2ª gelei de tal maneira que comecei todo a tremer. Era uma da manhã e ainda chegavam corredores. Estava feliz, não fui no redline como na de Madrid, mas por outro lado tenho de pensar no que fazer para suportar a Ultra do Dut. Vai ser mais dura e duas vezes mais longa. Se tiver dores destas, não acabo. Não admira que o benuron e anti-inflamatórios sejam um suplemento habitual dos ultra maratonistas… Para o ano, sou capaz de correr esta de novo. Ainda por cima a medalha tem um esquilo! Quem é que não quer medalhas com esquilos?

medalha e cerveja

relativo e próximas fases

Saíram as classificações oficiais do Extreme Trail dos Cucos. Com o meu tempo de 4:18 fiquei em 76º em 149 atletas que participaram na distância de 24km, praticamente “a meio”. Supreendeu-me. O meu pace de 11min /km é mais lento do que andar a pé na cidade e estoirei fisicamente. Mas o tempo do primeiro, Délio Ferreira, com 2:23, coloca tudo em perspectiva.

Depois de reflectir, vou mesmo manter o objectivo dos 80k do DUT, mas algo vai ter de mudar nos meses de Julho e Agosto ou espera-me um autêntico inferno. Não quero imaginar a sensação psicológica de estoirar aos 12km tendo ainda 68km pela frente. Custa-me a acreditar que o DUT tem mesmo 4500m de desnível positivo. Se esta tinha 1100m oficiais (mas 1500 de acordo com meu relógio), significa que o rácio subida /km é o mesmo que o do DUT. Ora isto custa-me um pouco a acreditar, mas pode ser verdade… Se nesta prova experimentei um baixo muito grande de onde consegui rastejar, foi em parte porque era “curta” e quando passei os 12km, senti que já tinha feito metade. Aos 18km contava os metros que fazia penosamente rampas acima. Este estado de espírito é impossível numa ultra. Tenho de encontrar formas de vencer a tendência para ficar impaciente no fim das provas e perder o ânimo.

Posto isto:
1) não me stressar em cumprir um xis de km’s semanais (60-80km) dispersos por 5 corridas semanais, preocupar-me apenas com um long run muito longo ao sábado
2) obrigatório treino de velocidade – tempo runs, time trials de 5k e eventualmente séries (que detesto!)
3) incluir trabalho extremo de rampas para a força. Tenho de descobrir um loop que possa fazer para trabalhar a musculação necessária e que me dê algo como 1 hora 100% a subir a pique (a andar) e descer a pique. Idealmente fico com o carro perto ou é perto de casa e a cada loop tenho de vencer o impulso de desistir e voltar para o carro / casa.
4) Ir monitorizando os progressos de tempo, criando um segmento no strava para este loop.

E é isto. Amanhã começamos.

Extreme Trail dos Cucos (22.6k)

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Sova monumental. Demorei quase 4h e 20 para fazer 22.6km e +1488m. O Strava diz 1058 metros, mas o meu Suunto Ambit 2 tem altímetro barométrico mais preciso. De trail em trail, vou ganhando humildade. Hoje passou-me pelo meios uma dúzia de vezes pela cabeça alterar a inscrição no DUT80k ou na Ecomaratona de Lisboa (em Monsanto)… Prova sem momentos de descompressão e rampas que mesmo no ritmo mais lento não permitiam recuperar. Se em mais de 4 horas corri em plano 15 minutos no total é uma sorte. Com a experiência do trail de sesimbra em que fiquei num mega engarrafamento logo no primeiro trilho técnico, neste achei que era boa ideia ir com o pessoal valente e abri a corrida a correr subidas e tudo. Lixei-me. Ao km 12, estoirei ao ponto de achar que era melhor desistir. O piso era também quase sempre muito traiçoeiro, descidas a pique onde uma falta de concentração podia significar uma queda desastrosa. Depois fui recuperando a partir do abastecimento dos 17km e para o fim já estava melhor. Foi bom ter conseguido continuar a correr nas descidas, algo que em Sesimbra, talvez do cansaço da maratona, não consegui mais nos km’s finais. Apesar de estar “pessimista” agora e desta etapa me ter prejudicado alguma da confiança, também tenho noção que estes trilhos, até pelo tipo de terreno (torci duas vezes o pé, ia caindo 2 vezes, vi pelo menos 4 quedas, uma delas feia, algo que nunca tinha visto!) que nem permitia “assentar” bem o pé, não posso comparar alhos e bugalhos.

Isto é o perfil altimétrico de uma corrida de 5 horas em Sintra (a linha laranja é a altitude, branca o ritmo cardiáco)

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Isto é o serrote deste trail.

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O serrote foi conseguido à custa de espremer ou máximo a zona dos cucos.

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E pronto, nos próximos dias vamos reflectir sobre estes dados e pensar nos próximos treinos. Sem dúvida que tenho de trabalhar ainda mais desníveis… Não é só ir para Sintra, é escolher rotas que obriguem a esse trabalho. Ainda estou muito orientado pela filosofia de “estrada” em que o conta são os km’s e não o acumulado positivo.