preparação para PT281 – treino na Arrábida e testes

A algumas semana da PT281 (próximo 28 de Julho de 2018) posso dizer que fiz bem em inscrever-me e já lá vou.

Ontem foi um treino simpático de 30kms pela Arrábida, o último “grande” que planeio fazer até à prova, pois por regra, quanto maior é uma prova, mais importante é um bom tapering (descanso) prévio à mesma. Não serve de nada para uma prova de 281kms com temperaturas tórridas forçar treinos.

 

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O objectivo passou por testar algum equipamento:

  1. o chapéu (excelente)  da Outdoor Research  (Sun Runner Cap XL) ,  Já tinha um da Salamon que usei na transvulcania, mas este chapéu é outra liga, comprei-o depois de andar a pesquisar uma eternidade. A “flap” é removível e prende-se facilmente com dois botões de pressão. Tem um pequeno cordão que permite o ajuste ao rosto. Este é um problema destes chapéus para corredores: quando nos movemos ou há vento, as abas levantam. Além disso nunca são verdadeiramente compridos que chegue (para mim) para tapar as partes mais delicadas: aquela zona da gola da t-shirt técnica onde começa o pescoço e que frequentemente vê o protector solar ser retirado pela fricção. As maiores queimaduras solares que tive foi sempre nas zonas onde acaba uma t-shirt e começa pele. Com este chapéu não é necessário protector na cara e pescoço. Pontos contra, o facto de ter as abas tão juntas à cara gera calor, mas também estou a pensar encharcar o chapéu e as abas sempre que possível.
  2. Os óculos escuros combinados com o chapéu dão uma espécie de sensação de “tenda”. É confortável. O meu medo é os óculos embaciarem demais ou estarem sempre sujos e ser complicado lavá-los bem.
  3. Um powerbank de 6.5 mil amperes com 2 outputs. Um desafio importante para a PT é a gestão da bateria do GPS, das luzes, do telemóvel… afinal de contas podem ser 65 horas. Estou a pensar usar dois powerbanks destes espaçados e 2 pequenos tipo stick que servirão para emergências. A vantagem destes maiores é que carregam muito mais rápido. As baterias não aqueceram e acomodadas no bolso da frente não me pareceu que o sobreaquecimento fosse um risco.
  4. Navegação e o Garmin Fenix 5x. Tomei a decisão de o usar em vez de um dispositivo de mão. Vou colocar o sucesso da prova a depender dele. Se tiver um bug, estou lixado, porque a prova só conta com um registo GPX correcto. Confesso que tenho algum receio porque os Garmin já me deixaram ficar mal várias vezes, desde bugs como baterias que descarregam num loop a simplesmente não apanharem o GPS nem por nada em pleno dia de prova. O garmin descarrega rápido, mas carrega muito rápido, cada 10% de bateria tem-me demorado cerca de 5 minutos com o powerbank o que é assombroso comparado com o  suunto ambit 2.
  5. Máquina fotográfica (Ricoh GR II)… Aqui vai mesmo ter de ser. ricoh-gr-ii-01
    Hesitei imenso. Tenho um Huwei P20 novo com lentes supostamente Leica, mas não há qualquer comparação possível entre a qualidade da imagem da Ricoh e do telemóvel, o que não é de surpreender tendo em conta o sensor da Ricoh é enorme comparado com os dos telemóveis. A ideia era levar apenas o telemóvel, mas nos testes, para além da qualidade ser inferior, observei que o telemóvel gasta demasiada bateria e a operação do mesmo é demasiado complexa. A Ricoh tem um interface 100% físico com botões para as funções. 3 baterias suplentes espalhadas pelo percurso e está feito. Por que razão levar máquina? Porque adoro fotografia e porque desde um nascer do sol no fim da primeira noite do Ultra Trail do Montblanc que foi das coisas mais assombrosas que vi na vida, que sei que estas são oportunidades únicas. Além disso, estar atento a oportunidades, é algo que psicologicamente me entretém e motiva.
  6. As sapatilhas são umas Ultra Raptor com poucos kms. Confesso que serem pretas me instiga algum pessimismo por absorverem o calor. Mas são fiáveis. Já não vou a tempo de testar novas.

Testei também a hidratação, procurando beber apenas com sede, num mini teste. Não é a primeira vez e já tenho uma boa ideia do que preciso. Não estava um calor tórrido como provavelmente vai estar. A água vai ser um desafio extremo. Eram só 30kms (há bases de vida distanciadas de 40kms na PT281) e ao fim de 15kms já estava preocupado com só ter 1.5L de água. Felizmente encontrei um café para me sossegar e acrescentei mais 1L. Ainda acabei com um L, portanto, aguentava no limite 4h com 1.5L-2L de água sem calor excessivo. Com calor excessivo, tornou-se claro que tenho de levar os flasks também para as etapas mais críticas e expandir a capacidade para os 2.5L, embora tenha de confirmar com os abastecimentos.

Hoje uma volta de bicicleta de 2h

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Porque fiz bem em inscrever-me? Por vários motivos, mas os mais pragmáticos são o facto desta prova me obrigar de novo a uma espécie de humildade de principiante em que tenho medo de não acabar. Os números são claros. O ano passado dos 40 malucos, metade desistiu. Da metade que acabou, metade fê-lo após as 60 horas com um tempo limite de 66h e estão lá corredores que eu acho melhores do que eu. Isto fez-me querer  testar e planear. Tenho andado mesmo a usar um excel do qual dou um excerto…

Screen Shot 2018-07-08 at 20.36.19Estimo os tempos, o que deve estar em cada posto, se é de noite ou dia, se passa por cafés ou supermercados, quanta água levar, o que carregar, o que comer…. tudo deve estar cuidadosamente anotado e planeado, incluindo os ritmos. Claro que depois na prática será sempre preciso improvisar e adaptar-se e espero o pior. Também me assustou ao ponto de treinar melhor e tentar comer melhor e ter melhores hábitos.

Vai ser a primeira vez em que participo numa prova para a qual parto pessimista pelas razões que apontei. Talvez não pessimista, apenas realista.

 

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objectivos de vida: Spartathlon

Já falei nela aqui e hoje voltei a pensar na Spartathlon depois de ler o impressionante relato de Scott Jurek no Eat And Run, quando a venceu 3 vezes consecutivas. E também pelo belíssimo documentário sobre Yannis Kouros, o maior corredor de fundo de todos os tempos, um filme obrigatório para qualquer ultramaratonista ou aspirante a tal. E pela vitória extraordinária do português João Oliveira em 2013.

A Spartathlon é uma ultra-maratona de 246 quilómetros, entre Atenas e Sparta, recriando o percurso de Pheidipides.
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É corrida toda de seguida, sem etapas, ficando ao critério do corredor fazer pausas quando quiser. O tempo limite é de 36h, mas o que torna esta corrida ainda mais dura são os checkpoints apertados. É uma prova com um muito elevado número de desistências. Apenas metade dos corredores chega ao fim e é preciso ter em conta que quem se mete nesta prova à partida já tem um certo nível de preparação mental e física especial e um curriculo de ultras para poder entrar.

Scott faz uma interessante descrição, das paisagens cheias de história e como nos transportam para a grécia antiga e épica. E a forma como descreve o povo grego, que trata estes corredores como heróis, também é contagiante.

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Claro que nunca pensaria ser possível correr a Spartathlon se não fosse ter lido relatos de pessoas que, como eu, também nunca pensariam ter corrido a Spartathlon. Como em tudo nas ultras, é uma questão de treino. Quanto aos pré-requisitos ficam aqui alguns

c) Have completed a 100 km race within 10.30 hours. ***

e) To have covered at least 180km (men) or 170km( women) within a 24.00 hours race

g) To have covered at least 280 km(men) or 260 km(women) within a 48.00 hours race.

h) Have completed a non-stop 200-220 km race within 29.00 hours (men) or 30.00 hours (women). *****

i) Have completed a longer than 220 km non-stop race (this case also includes Badwater 135mi race) within 41.00 hours (men) or 43.00 hours (women).

j) Have finished a 100 miles race within 22.30 hours (men) or 24.00 hours (women).

Athletes must have achieved the above PREREQUISITES during the years 2013/2014/2015.

Convém ter em atenção que isto não inclui desnível e a Spartathlon é uma prova globalmente plana (2600 metros em 240km) com algumas excepções. Ou seja, os pré-requisitos em si são acessíveis e não são indicativos para a Spartathlon. Eu acredito que é por isso que a desistências são tantas. Se fizessem pré-requisitos tão difíceis quanto a corria, teriam 1/3 dos corredores (e nem são muitos já).

A lista de finishers de 2014 é assustadora.
O vencedor completou em 22h. Terminaram 207 corredores em 380, mas só 30 dos finishers fizeram tempos abaixo das 30h e mais de 100 dos finishers terminou quando faltava menos de 2-3 horas para o tempo limite. É difícil imaginar o que terá passado pelas suas cabeças. De facto, terminar abaixo das 29 horas garante um lugar na história como pertecente aos 10% mais rápidos. Portanto, falamos aqui de uma janela de tempo bem reduzida na grande escala das coisas, entre 30-36h para o corredor normal. Já agora, o Yannis Kouros que detém o recorde (impossível de bater) de 20 horas, correu-as num pace de 4:55 😀

É possível deixar muitos dropbags, por isso vemos que os corredores não têm de carregar muita coisa com eles e na prática não é preciso equipa de apoio.

Como se treina para uma coisa destas? Em primeiro lugar, os pré-requisitos garantem que pelo menos temos uma experiência relevante de ultra distância. Mas suponho que seja correndo muito, muito tempo. E mais tempo. Em asfalto. Meter 160-200km por semana. Não é treino, vejo-o como uma filosofia de vida, algo transcendente em si e que é preciso manter durante pelo menos 4 meses antes da corrida. O ponto fundamental é trabalhar técnica, economia de energia, minimização de impacto visto que são os mesmos grupos de músculos que vão sofrer ao longo de mais de 30 horas. Mas sem dúvida que o ponto chave é o lado mental.
Deixo-vos com o video da vencedora feminina de 2013, a húngara Lubics Szilvia, mãe de 3 filhos e dentista.

 

 

top 5… por um dia

Claro que isto não quer dizer nada, calhou ser 1 de Abril ontem, ter feito 10km e logo hoje ter feito um long run, pelo que acabei por ficar aqui em 5º lugar nacional em 420 corredores pelo dia 2 de abril… por um dia. Vem aí o fim de semana e bye bye 🙂
top5

Não obstante, tenho agora 2 semanas de férias e se conseguir ter muito cuidado para não me lesionar, acredito que posso bater o meu recorde pessoal de kms corridos num mês, nem que vá a passo de caracol. Estou a pensar em certos treinos na ordem dos 45km, como ir de Lisboa a casa da minha mãe, jantar e dormir lá e no dia seguinte voltar, num back to back épico. Gostava de fazer um bom Transvulcania.

mais items para o kit vulcânico

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E pronto, acho que é tudo para já. Encontrei um excelente guia do runner Ian Corless para o Transvulcania. É de 2012 mas o percurso sofreu poucas alterações. No fim uma recomendação para o calçado: recomenda as La Sportiva Ultra Raptor entre outras opções, tudo o que tenha grip e amortecimento. Sem dúvida que havendo troços em terreno técnico rochoso, especialmente nos últimos km’s, parece-me bem algo com mais amortecimento.

La-Sportiva-Ultra-Raptor2

É curioso como esta sapatilha, não tendo que eu saiba, grande “push” de marketing, acabou por conquistar tantos adeptos. Usei-a no RDUT e no Paleozóico e uso-a apenas em treinos longos ocasionais, para a poupar para as corridas. O meu amigo JLP que veio comigo ao Paleozóico comentou que parecia que metade dos runners tinha umas destas. Eu diria 25%, mas mesmo assim muitos. Comigo foi tentativa erro. No início desconfiava do drop alto e vinha influenciado pelo minimalismo do Born To Run. Mas depois de as experimentar, rendi-me.

Transvulcania e Els Bastions

Em Maio decorre a mítica Transvulcânia nas Canárias.

Apesar de ter um percurso mais curto que o RDUT com os seus 73.3km tem uns assustadores 8,525 metros, o dobro do RDUT, e é conhecida por ter temperaturas extremas. Além disso o terreno é bem duro. Já corri em paisagens vulcânicas em Menorca e há poucos pisos mais duros e agrestes.

Outra que me parece boa decorre em Junho, a Els Bastions, em Núria, país basco. Tem 90km e um desnível de 6 mil metros, o que parece uma progressão natural face ao RDUT. Contudo, é na zona dos alpes, a altitude ronda os 2000m durante quase toda a prova e chega aos 3000m.