objectivos de vida: Spartathlon

Já falei nela aqui e hoje voltei a pensar na Spartathlon depois de ler o impressionante relato de Scott Jurek no Eat And Run, quando a venceu 3 vezes consecutivas. E também pelo belíssimo documentário sobre Yannis Kouros, o maior corredor de fundo de todos os tempos, um filme obrigatório para qualquer ultramaratonista ou aspirante a tal. E pela vitória extraordinária do português João Oliveira em 2013.

A Spartathlon é uma ultra-maratona de 246 quilómetros, entre Atenas e Sparta, recriando o percurso de Pheidipides.
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É corrida toda de seguida, sem etapas, ficando ao critério do corredor fazer pausas quando quiser. O tempo limite é de 36h, mas o que torna esta corrida ainda mais dura são os checkpoints apertados. É uma prova com um muito elevado número de desistências. Apenas metade dos corredores chega ao fim e é preciso ter em conta que quem se mete nesta prova à partida já tem um certo nível de preparação mental e física especial e um curriculo de ultras para poder entrar.

Scott faz uma interessante descrição, das paisagens cheias de história e como nos transportam para a grécia antiga e épica. E a forma como descreve o povo grego, que trata estes corredores como heróis, também é contagiante.

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Claro que nunca pensaria ser possível correr a Spartathlon se não fosse ter lido relatos de pessoas que, como eu, também nunca pensariam ter corrido a Spartathlon. Como em tudo nas ultras, é uma questão de treino. Quanto aos pré-requisitos ficam aqui alguns

c) Have completed a 100 km race within 10.30 hours. ***

e) To have covered at least 180km (men) or 170km( women) within a 24.00 hours race

g) To have covered at least 280 km(men) or 260 km(women) within a 48.00 hours race.

h) Have completed a non-stop 200-220 km race within 29.00 hours (men) or 30.00 hours (women). *****

i) Have completed a longer than 220 km non-stop race (this case also includes Badwater 135mi race) within 41.00 hours (men) or 43.00 hours (women).

j) Have finished a 100 miles race within 22.30 hours (men) or 24.00 hours (women).

Athletes must have achieved the above PREREQUISITES during the years 2013/2014/2015.

Convém ter em atenção que isto não inclui desnível e a Spartathlon é uma prova globalmente plana (2600 metros em 240km) com algumas excepções. Ou seja, os pré-requisitos em si são acessíveis e não são indicativos para a Spartathlon. Eu acredito que é por isso que a desistências são tantas. Se fizessem pré-requisitos tão difíceis quanto a corria, teriam 1/3 dos corredores (e nem são muitos já).

A lista de finishers de 2014 é assustadora.
O vencedor completou em 22h. Terminaram 207 corredores em 380, mas só 30 dos finishers fizeram tempos abaixo das 30h e mais de 100 dos finishers terminou quando faltava menos de 2-3 horas para o tempo limite. É difícil imaginar o que terá passado pelas suas cabeças. De facto, terminar abaixo das 29 horas garante um lugar na história como pertecente aos 10% mais rápidos. Portanto, falamos aqui de uma janela de tempo bem reduzida na grande escala das coisas, entre 30-36h para o corredor normal. Já agora, o Yannis Kouros que detém o recorde (impossível de bater) de 20 horas, correu-as num pace de 4:55 😀

É possível deixar muitos dropbags, por isso vemos que os corredores não têm de carregar muita coisa com eles e na prática não é preciso equipa de apoio.

Como se treina para uma coisa destas? Em primeiro lugar, os pré-requisitos garantem que pelo menos temos uma experiência relevante de ultra distância. Mas suponho que seja correndo muito, muito tempo. E mais tempo. Em asfalto. Meter 160-200km por semana. Não é treino, vejo-o como uma filosofia de vida, algo transcendente em si e que é preciso manter durante pelo menos 4 meses antes da corrida. O ponto fundamental é trabalhar técnica, economia de energia, minimização de impacto visto que são os mesmos grupos de músculos que vão sofrer ao longo de mais de 30 horas. Mas sem dúvida que o ponto chave é o lado mental.
Deixo-vos com o video da vencedora feminina de 2013, a húngara Lubics Szilvia, mãe de 3 filhos e dentista.

 

 

top 5… por um dia

Claro que isto não quer dizer nada, calhou ser 1 de Abril ontem, ter feito 10km e logo hoje ter feito um long run, pelo que acabei por ficar aqui em 5º lugar nacional em 420 corredores pelo dia 2 de abril… por um dia. Vem aí o fim de semana e bye bye 🙂
top5

Não obstante, tenho agora 2 semanas de férias e se conseguir ter muito cuidado para não me lesionar, acredito que posso bater o meu recorde pessoal de kms corridos num mês, nem que vá a passo de caracol. Estou a pensar em certos treinos na ordem dos 45km, como ir de Lisboa a casa da minha mãe, jantar e dormir lá e no dia seguinte voltar, num back to back épico. Gostava de fazer um bom Transvulcania.

mais items para o kit vulcânico

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E pronto, acho que é tudo para já. Encontrei um excelente guia do runner Ian Corless para o Transvulcania. É de 2012 mas o percurso sofreu poucas alterações. No fim uma recomendação para o calçado: recomenda as La Sportiva Ultra Raptor entre outras opções, tudo o que tenha grip e amortecimento. Sem dúvida que havendo troços em terreno técnico rochoso, especialmente nos últimos km’s, parece-me bem algo com mais amortecimento.

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É curioso como esta sapatilha, não tendo que eu saiba, grande “push” de marketing, acabou por conquistar tantos adeptos. Usei-a no RDUT e no Paleozóico e uso-a apenas em treinos longos ocasionais, para a poupar para as corridas. O meu amigo JLP que veio comigo ao Paleozóico comentou que parecia que metade dos runners tinha umas destas. Eu diria 25%, mas mesmo assim muitos. Comigo foi tentativa erro. No início desconfiava do drop alto e vinha influenciado pelo minimalismo do Born To Run. Mas depois de as experimentar, rendi-me.

Transvulcania e Els Bastions

Em Maio decorre a mítica Transvulcânia nas Canárias.

Apesar de ter um percurso mais curto que o RDUT com os seus 73.3km tem uns assustadores 8,525 metros, o dobro do RDUT, e é conhecida por ter temperaturas extremas. Além disso o terreno é bem duro. Já corri em paisagens vulcânicas em Menorca e há poucos pisos mais duros e agrestes.

Outra que me parece boa decorre em Junho, a Els Bastions, em Núria, país basco. Tem 90km e um desnível de 6 mil metros, o que parece uma progressão natural face ao RDUT. Contudo, é na zona dos alpes, a altitude ronda os 2000m durante quase toda a prova e chega aos 3000m.