olá limite

Belo nascer do sol. Era suposto ser dia de descanso hoje, depois de um fim de semana com 55km incluindo um long run de 44km em Sintra. Como não é fácil treinar amanhã, tentei fazer 15km hoje e ao km 4 percebi que faria 7 ou 8 com dificuldade e nunca na vida mais de 10. Lá me consegui arrastar para os 11km à custa de fazer um desvio para longe de casa de propósito. Cansaço extremo nas subidas, em plano ainda me conseguia mexer. Muita dificuldade a cada passo, dores no dedo do pé grande esquerdo, entorse a latejar, dores no peito do pé direito, pontadas na coxa esquerda, pés inchados, enfim, senti-me como um boneco de vudu todo alfinetado. Pela minha sombra longa no sol da manhã, no parqe da belavista, podia ver-me todo desengonçado à procura da passada menos difícil. Amanhã nem pensar em correr e se for preciso descanso outro dia e outro, nem que seja para tentar fazer o long run em condições. Isto sente-se logo a subir escadas, uma espécie de peso. Não podia correr duas semanas de 100km pela primeira vez e não pagar a factura. Mas fico feliz por ter chegado a esse limite sem lesões graves.
treino

lesões pá

Tenho de abordar a questão das lesões em geral e da relação com os possíveis tratamentos.Toda gente sugere “devias ir ver isso”. Também me sugeriram isso em todas as lesões e todas curei, ou melhor, o meu corpo curou sozinho. O meu corpo, teimosia, investigação, criatividade nos treinos, variação.

Recomendo este artigo sobre o runner’s knee. Esta foi a minha abordagem para bater a lesão a primeira vez que a tive em 2013, primeiro num joelho, depois noutro (o que em si já dizia muito deste tipo de lesão – não era de trauma, mas sim uma inflamação de excesso de esforço). E resultou. Evitar a dor, correr e fazer o exercício possível sem dor, recuar, avançar, mas nunca deixar. Se mais de um ano depois voltei a ter a lesão foi por causa do erro de pensar que era de ferro, eufórico da experiência de Málaga em que senti que podia correr anaeróbio sempre e podia treinar intensamente sempre, sem nunca correr em fácil. À 2ª semana de ritmos loucos a bater PR’s, estalou. Lição aprendida, mas já era uma lição esquecida: a velocidade, as pancadas no asfalto a correr…. E curiosamente, estalou após a longa recta plana da Praça do Comércio até ao Parque das Nações que fiz em ritmo puxado. Coincidência? Claro que não. Foi por isto, pelas primeiras lesões no joelho, que comecei a correr trail: no trail nunca damos dois passos da mesma forma e o terreno é mais macio (depende, claro, do terreno). Isto significa que não é sempre o mesmo pedacinho microscópico de cartilagem algures a levar a pancada máxima, uma e outra e outra vez, de seguida. No trail o joelho nunca bate na mesma posição, a passada ora é mais curta, mais longa, ajusta-se, sobe-se, vira-se, desce-se, podem ser diferenças microscópicas mas contam! Numa recta longa, ainda por cima sobre pedra na parte do Parque das Nações e do Cais do Sodré, a pancada é sempre repetida e maquinal. Sempre no mesmo ponto, sempre a forçar as mesmas coisas. As passadas são todas iguais, nem há curvas. O que houver para sofrer aí, vai sofrer e muito. Vai sofrer tudo e o resto, nada. Não é à toa que os quenianos fogem de asfalto e treinam tanto em percursos ascendentes e em montanha.

Confio no poder regenerativo do corpo. Quando o motivo da lesão é abuso, a solução é descanso. Aliás, nessa fase da lesão estava com muito stress na minha vida pessoal e isso também está ligado, pois dormia pouco.

Nem sequer estou a ir pela via dos anti-inflamatórios que – sei por experiência do Paleozóico – eliminam ou mitigam muito esta dor. O artigo sugere-os, até aqui tenho preferido evitá-los. Confio no meu corpo, se ele diz que dói, eu oiço e paro. Mas vou sempre testar os limites, procurar alternativas. Sei que a solução, tal como vem no artigo, passa muito por estimular a regeneração. O complicado é cair num loop em que como não podemos correr, ficamos mais fracos, como ficamos mais fracos, lesionamo-nos.

Não sou, obviamente, contra a consulta de especialistas. O que quero dizer é que ninguém conhece melhor o nosso corpo e sintomas como nós se estivermos atentos e informados e que temos de ter responsabilidade e acção própria sobre nós próprios para vencer o que é aparentemente impossível. Já estive mais longe de comprar uma boa máquina stepper, só para treinar desnível positivo sem impacto, reforçar a parte cardio no ciclismo (hoje 16km em ritmo rápido) tenho feito mais exercícios de força, de core, etc.

E agora cá vou tentar correr de novo até casa, percurso 100% ascendente, ajustando o ritmo para evitar a dor. Nem que só ande a pé! De manhã já fiz uns 16km de bicicleta em bom ritmo.

glória efémera e cara

Hoje, 20km em 2 horas, a abrir, incluindo umas subidas em Monsanto.

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Esta semana já vou em 48km. E ainda tenho uns 8km a fazer no Sábado e no Domingo 42km em Sintra. Se aguentar tudo isto, farei mais de 90km, muito perto de 100km, numa só semana. A parte da glória é estar já nos tops do Strava em clubes e desafios de kms corridos for all the world to see, especialmente eu próprio. Uma pequena motivação extra, um “prémio”, pois quando comecei parecia-me irreal correr tanto numa semana. O prémio maior é saber que este sacrifício me vai ajudar suportar melhor a ultramaratona. Mas a que custo? Tenho pé direito numa lástima. Tive de fazer gelo e compressão e até cheguei atrasado ao trabalho. Durmo com packs de gel no pé, a perna em cima de 3 almofadas, elevada. O tornozelo inchado, disforme. Nada disto me incomoda especialmente durante a corrida, mas tem incomodado mais. A minha esperança é que a diminuição de esforço que se vai suceder a esta semana (embora a próxima seja ainda pesada), especialmente a última semana pré-ultra em que praticamente não conto correr, dê para recuperar tudo isto e estar a 100% na partida. E vou-me lembrar de todos estes treinos ao longo destes 3 meses, de todas as lesões, de todas as dores, das madrugadas a acordar para correr, das corridas longas ao sol, 20-30-35-42km, de mijar sangue, de geis enjoativos, de pele branca de sal… vai desfilar tudo e vou estar eufórico!

é tudo muito bonito mas

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… fiquei com uma arreliante lesão. Uma ‘dor de burro’ permanente, asfixiante, a par de uma coisa qualquer intestinal (correr com 30 e tal graus e sem sombra pode fazer mal). Mesmo assim ainda corri mais uma vez no Cami de Cavalls porque sim, ao fantástico ritmo de 10 minutos por km, de dentes cerrados, 18km. No dia seguinte mal conseguia mexer-me e respirar fundo. Nos dias seguintes a dor foi-se aligeirando até desaparecer. Excepto que sempre que tento voltar aos treinos, sinto o seu fantasma a despertar. Já perdi uma semana de corrida e só volto a tentar na 6ª feira, quase 2 semanas depois da última corrida. O curioso é que consigo fazer ciclismo com intensidade sem qualquer problema ou nadar. É mesmo do raio do impacto vertical associado a correr, da pressão aqui na zona do diafragma. Como calculam, estou deprimido. Estas deviam ser duas semanas intensas. Falta pouco para a serra do Marão e sei (e o meu treinador sabe) que vou sofrer forte e feio. Tento ver as coisas pelo lado positivo e o lado positivo é que irei fresco. Mas basta parar de correr para tudo vir por aí abaixo, a motivação toda. A inércia alimenta-se de inércia e vice versa.

 

 

Loop monsanto e estou mesmo a mijar sangue quando corro

Hoje foi dia de testar um loop em Monsanto para treinar desnível. O ideal era ser perto de um dos acessos de carro, preferencialmente do lado Benfica / Sete Rios (o lado da minha casa). Creio ter encontrado um no meio das explorações de hoje, visíveis aqui no track.
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No início algumas explorações, depois afinei no tal loop. Aqui o perfil altimétrico. Tinha saudades de um gráfico destes…
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Aqui o loop transformado em segmento no strava. Tem 1.2km de extensão e 77m de desnível positivo.

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Em duas horas deu para subir 653 metros em 12km. Não foi mau, é um Montejunto ou Sintra compactado.
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Uma das vantagens de ter loops é ir controlando a nossa evolução num terreno específico.  Aqui o objectivo é mesmo desnível, desnível, desnível…O rácio de desnível / km do Douro Ultra trail (4500m / 80 000m * 100) é de  5.6. Este loop tem 5,4 e foi o mais extremo que encontrei até agora em Monsanto. O ideal seria uma subida com o dobro do ganho. Não deixa de ser preocupante. Foram 2 horas para fazer 12km num ritmo de ultra, o que significaria umas 16 horas para fazer 80km a este ritmo…

E chegado a casa, chichi com um bocado sangue, não foi a hemorragia de ontem, mas hei… Isto é uma coisa que pode afectar corredores de longa distância e não se sabe bem porquê, pode ser desidratação, danos na bexiga por correr com ela vazia etc. Great.

e se fossem vocês a mijar sangue vermelho vivo no meio da Serra da Arrábida, sozinhos e a 10km do carro com uma serra pelo meio, ficavam preocupados?

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A actividade no strava. .
Eu também fiquei. Gosto de ser desafiado e de emoções fortes, mas ver aquele chichi vermelho opaco e escuro de sangue, sem qualquer sintoma, dor, sem nada… só pensei “se não dói, é porque pode ser mesmo grave”! Fiz contas, vi que ainda demoraria 2 horas até ao carro. A vontade de correr era moderada pela noção que se desidratasse demais podia doer-me, se me mexesse muito podia mexer uma pedra do rim, se me cansasse demais deitaria resídios tóxicos no sangue e os meus rins poderiam falhar… Eu não sentia nada e sentia-me bem, à parte sentir-me muito fraco de estar a correr quase em jejum, muito cansado da maratona da semana passada e ter um edema nas duas pernas, especialmente a direita, mas fora isso, estava supimpa.

Mas posso explicar. Tudo começou quando, há mais ou menos um ano decidir começar a corr… Não é melhor fazer fast forward. Este percurso começava com um loop um bocadinho inútil. Pode ver-se aqui no track gpx, é aquela voltinha a norte no mapa que sai de Palmela e volta a Palmela.
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Ora bem, fiz o loop, o jejum bateu-me forte e feio aos 4km, tomei um gel aptonia com sabor coca-cola e mesmo quando estava a passar outra vez por Palmela, aos 6km / 40 minutos, resolvi fazer um chichi. O meu chichi pareceu-me avermelhado e fiquei preocupado, mas  não o suficiente para tirar os óculos escuros que tinha postos e optar por voltar para o carro que estava ali a 100 metros. Pensei “é dos óculos escuros, têm lentes amarelas”. Portanto, eu sou assim. Não era cá um indício de sangue na urina que me ia fazer desperdiçar um dia maravilhoso para correr e uma deslocação até ali. E valeu a pena. Se eu morresse, tinha valido a pena, toda a minha vida. Ia em paz. Só aquela estrada de Vale dos Barris… quem nunca lá correu, lamento muito, rezarei por vós.

É simplesmente a melhor estrada de todo o sempre para correr ou para fazer outras coisas como ciclismo de estrada ou conduzir um descapotável dos anos 50 ou 60. Ao nosso lado esquerdo, a imensa serra da arrábida, mas do lado direito também uma fiada de escarpas íngremes. Aquilo parecia mesmo uma paisagem americana, mas com uma mata mediterrânica em cima. Eu nem sei por que vão as pessoas para o estrangeiro de férias. Aqui uma foto que encontrei na net, mas é má, não se vê a estrada a direito, é assim de lado e só um bocadinho.

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Bom, a única irritação prendeu-se com estar a estrear as Salomon Wings XT 3 que são de trail puro e estar ali a correr em estrada há imenso tempo. O tipo que postou este track gpx chamou-lhe “Trilhos da Arrábida”, logo pensei que fossem trilhos e não estradas. Mas tudo bem, percebi que quase todos os tracks de trail nesta serra aproveitam a estrada de vale de barris, pois permite contornar a serra de Palmela na direcção a Sesimbra e depois começar a corrida do flanco oeste para este, que me parece o mais indicado para fruir desta zona. No entanto, este track só não teve mais estradão e estrada porque eu às tantas resolvi explorar e inventar.

 

 

Afinal, lá pelo fim, o gps indicou-me um trilho para subir até ao alto da serra onde tirei estas fotos com o meu blackberry manhoso.

O lado norte, de onde vieram estas nuvens.

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Sky running! Correr quase a tocar o céu.

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Setúbal. A vegetação aqui é mais rarefeita e notam-se indícios do grande incêndio de há uns anos.

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Tróia. No dia em que os bifes se fartarem do Algarve, temos neste país “postais” que nunca mais acabam. Eu sinto uma certa euforia quando chego aos topos das serras (também pelas endorfinas do esforço), mas também me sinto um bocadinho melancólico porque gostava de partilhar isto melhor do que com umas fotos manhosas.

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No topo, a estoica bandeira de Portugal.

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Fiz o tal chichi do demónio. Não tenho fotos, lamento. Ou talvez não. Aqui desliguei o modo track do gps (seguir a rota planeada) e meti a navegação para me levar direito ao carro que, parecia, estava só a 4km em linha recta em vez de 10km que era o previsto no track original. Claro que fiz 10km à mesma. É impossível ir a direito neste sítio marcado por vales profundos, mato cerrado, quase ausência de intervenção do homem, campos cultivados etc. O calor começou a apertar mais e nas subidas já andava lentamente. O efeito era psicológico, eu não me sentia pior do que o costume depois dos 23, 24km num trail longo 6 dias depois e uma maratona… mas ali tinha receio que fosse da misteriosa doença fatal. Eis quando vejo uma ambulância de  bombeiros no meio do nada. Primeiro pensei que estava a alucinar, mas depois ouvi vozes e vi um alegre grupo de bombeiros a limpara a mata. Pensei “vou-lhes pedir boleia” mas depois imaginei o diálogo e mudei de ideias. Não me sentia mal! O resto, bom, fui a arrastar-me até ao carro, a parte final era sempre a subir. Chegado ao carro consulto rapidamente a internet para ver o que poderia ser aquela hemorragia e pronto. Graças ao meu diagnóstico extremamente apurado e capacidades clínicas, e depois de pensar em tudo à Dr. House, cheguei à brilhante conclusão que o mais provável era… o gel energético que tomei aos 4km com sabor a coca-cola!

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Era a primeira vez que o tomava (bom, tecnicamente a primeira vez foi na maratona de monsanto que foi à noite e não vi o meu chichi). Tomei-o passado 15 minutos fiz chichi com os primeiros sinais do que penso ter sido o corante artificial disto. Não tomei mais nada dos 6-7km aos 20km quando fiz chichi de novo. Se foi isto, não tenho 100% certeza, mas tudo indica que sim, até porque o meu chichi já está normal. Em breve faço a experiência de tomar isto em jejum e ver se acontecesse de novo.

Moral da história? Eu tive razão em não me preocupar por estar a mijar sangue enquanto ainda podia fazer algo quanto a isso e deixar essa preocupação para quando tivesse de correr para o carro de qualquer maneira.

Update: hoje (dia seguinte) voltei a fazer exercício e de novo sangue… desta vez não tomei gel.

The exact cause of exercised-induced hematuria remains unclear, but there are several potential causes. Trauma to the bladder walls during exercise can cause bruising and bleeding, which could cause blood in your urine. Exercise might also interfere with the process of filtering the urine from the bloodstream, allowing red blood cells to mix with it. During intense exercise, the body can redirect blood flow away from the kidney, causing red blood cells to leak into the urine. The release of hemoglobin — the protein that gives red blood cells their color — into your urine during exercise may also cause hematuria.
 

pés e pernas inchados

Raios, de novo. Já lá vão uns dias de edema. Pés inchados, especialmente o direito, tornozelos inchados, pernas abaixo do joelho que parecem um salame. Tenho de começar a usar meias de compressão DEPOIS das provas também para evitar isto nos dias seguintes. Agora hesito se vou correr ou não. Entretanto recomecei o commute de bicicleta. Soube-me bem, apesar de ter tido logo um furo na primeira viagem (vidros, evitar bermas!). É engraçado ganhar quase meia hora ao dia pela rapidez. Notei que na altura em que eu tinha mais lesões estava a correr e a fazer commute de bicicleta ao mesmo tempo. Terá tido impacto? A viagem não é muito longa, 5km para cá, 5km para lá, mas os 5km para lá são sempre a subir. Quem sabe. O certo é que estou cansado da maratona, notei isso a pedalar hoje de manhã. A ciência recomenda descansar 2 semanas no mínimo depois de uma maratona, mas este fim de semana estou a correr de novo. Sinto-me bem, não fosse um pequeno cansaço e os pés e pernas de elefante.