alone in the dark, edição Sintra

À medida que descia para o vale do rio da mula, a escuridão ia sendo mais completa, pois a serra ofuscava cada vez mais as luzes de Sintra e os subúrbios como Rio de Mouro. O céu velado por nuvens ainda reflectia uma tonalidade laranja, como se houvesse um incêndio longínquo. Corri bastante rápido e motivado.

Tudo começou 5 horas antes, ainda de dia, mas Sintra cria a sua noite quando quer, com as árvores e o nevoeiro nestes dias, com um silêncio apenas cortado pelo vento, pelo som dos nossos passos, respiração e pelo que a nossa imaginação lhe acrescentar.

Que pode ser muito. E para o caso de estarem com dúvidas, tirei todas as fotos, mesmo aquelas em que apareço, maravilhas do timer de 30 segundos.

Estar na natureza sozinho é uma coisa que me descontrai. Em Sintra… tem momentos.

O plano era ir pelas 17:30 da barragem do rio da Mula até à Peninha e da Peninha até à Anta de Adrenunes, depois voltar, cerca 15-20km no total (foram 17), não sabia ao certo pois dependeria da escolha de caminhos e da luz solar. Sabia que ia fazer muitas pausas para fotografar, observar, em 5 horas só corri propriamente 2h.

Infelizmente a luz não podia ser pior quando cheguei. Um dia branco. Branco, baço. Sem nuvens gordas e negras, sem céu azul, sem céu com nuvens bonitas, nada. Só um véu branco de ferir a vista que o por do sol iria tratar de acinzentar.

Mas tive fé porque Sintra tem microclimas dentro de microclimas. Sabia que do lado oeste e norte poderia encontrar nevoeiro num dia assim. E há sempre pormenores interessantes em Sintra. E assustadores.

Antes de chegar à Peninha, o espectáculo começou.

As árvores na encosta sul virada para o guincho, crescem entortadas pelos ventos. São como um instantâneo do vento, mesmo quando ele não sopra.

Passei o Santuário da Peninha. Estávamos em plena hora do por do sol. De costume nesta direcção há um espectáculo glorioso, mas daqui, zero, uma cúpula branca. O nevoeiro é uma substância estranha. Está sempre num raio de alguns metros de nós, mas perto de nós, é invisível. Apenas sentimos o ar fresco e molhado. A sensação aqui era do santuário travar o avanço de um nevoeiro mortal a vir do Oceano, do Cabo da Roca. A minha imaginação…

Em Sintra, mesmo de dia, sinto algo diferente. Há uma energia mística que atrai pessoas para aqui há milénios. Afinal, o meu objectivo aqui era sobretudo chegar à Anta de Adrenunes, uma construção do megalítico. Queria apenas ir lá e observar, estudar o local e pirar-me.

O caminho é difícil de encontrar para quem não conhece. O sol já se tinha posto e em breve seria escuro total. Hesitei. Sabia que fazendo o desvio para lá ir, tirando fotos e voltar, chegaria ao carro bem tarde, ainda faltavam uns 8 km no total. Além disso, chegar lá envolve passar por um trilho de folhagem densa sem luz, agachados, pisando pedras que parecem ter sido colocadas pelos que construíram a anta há 5 mil anos e a escuridão já me estava a meter nervoso.

Fui, obviamente. É nestas pequenas decisões que está a aventura. No promontório virado para o cabo da roca, açoitado pelo vento, nevoeiro e o frio, tirei algumas fotos, mas não era o momento.  Só quis vir aqui mais uma vez, habituar-me, estar em frente ao cemitério com 5 mil anos à sua boca escancarada que não consegui captar. Estava tanto nevoeiro que o ecrã embaciava e já quase não tinha luz. Experimentei imaginar isto há 5 mil anos, em pleno culto. Medo.

A noite caiu. Medo do escuro. Penso que todos temos medo do escuro em certos contextos. O escuro aguça os sentidos. Na natureza, à noite, uma imaginação fértil, semeada de histórias e filmes de terror e fantasia, é presa mais fácil. Virar as costas à Anta, abandonar o terreno sagrado, que atrai tantos cultos satânicos e bruxarias para esta serra, fez-me sentir como estando no argumento de um filme de terror, como vítima dispensável.

Por vezes ouvia ruídos estranhos, corujas, folhas pesadas a cair, ramos a estalar. Às vezes era eu próprio a fazer o barulho e os ecos a baralhar-me. A certa altura julguei estar a ser perseguido por um pica pau porque ouvia um tac tac tac seco de vez quando. Só percebi que era o tubo do hidrapack a bater numa fivela de plástico um quarto de hora depois.
Uma coisa que fazia quando era criança e tinha medo do escuro (cresci no campo e o campo nos anos 80 era bastante escuro no inverno) era inverter o papel. Ter medo porquê? De quê? E se fosse eu o monstro assustador? Entrei em modo: “eu sou o caçador, não a presa” como quando precisava de ir à adega no inverno, buscar lenha para a lareira.

Enquanto corria sozinho estrada abaixo, evitando as pedras que afinal por vezes eram sapos, às 22:00, depois de horas  na serra de sintra, a quilómetros da minha viatura estacionada , sem comida e com uma mochila com equipamento fotográfico às costas, confesso que o meu instinto me deu uma adrenalina adicional.

Condutor parado a pedir direcções ao telemóvel prestes a apanhar o susto da vida dele em 3, 2,1…

Começou a chover um pouco. As gotas, gotículas de nevoeiro e as poeiras do vento projectavam-se no cone de luz do meu frontal num caos de partículas luminosas. Por vezes via pior com ele do que sem ele. O uso de frontal acaba por acentuar a sensação de isolamento. Na escuridão total, os olhos habituam-se. Com o foco, só vemos mesmo em frente, para onde estamos a apontar. É um efeito muito usado em filmes de terror.

Mas depois, no meio da estrada do penedo, creio eu, rodeado de grandes árvores e fetos, fui presenteado com um dos melhores espectáculos da minha vida, que me fez desligar a luz, de boca aberta.

Pirilampos.

milhares, milhões de pirilampos, ao longo de uma extensão de pelo menos 500 metros.

Uma constelação a piscar no meio dos fetos, encosta acima e encosta abaixo da estrada do penedo. O adjectivo que me veio imediatamente à mente foi: feérico. Já não via pirilampos assim desde as noites de santo antónio na minha aldeia, mas nunca os vi em tão grande número e muito menos numa extensão tão vasta. Estranho como foram uma visão que me mudou o estado de espírito.

Perdi a pressa, tirei dezenas de fotos (muito difícil no escuro, mas tentarei com outro equipamento), caminhei, deslumbrado. Alguns passavam por mim a escassos centímetros. Depois corri de volta para o carro a toda a velocidade.

Senti-me cansado, não tanto pelos 17km nas pernas, bastante menos do que já fiz por aqui quando não perco tempo com fotografias, mas mais pelas 5 horas a mover-me, à hora de jantar, comendo bastante pouco. O ritmo não abrandou, excepto quando via mais duas pérolas brancas a brilhar no meio das ervas, no foco de luz: sapos.

Vi muitos sapos neste caminho do jogo das pedras sapo. Se a pedra saltar de repente quanto estamos a passar é porque é um sapo. Só temos de saltar na direcção oposta e correr mais rápido. O jogo vai subindo de nível porque a dada altura todas as pedras parecem sapos, mesmo as que não são. E há pedras com fartura neste caminho. Alguns sapos saltam direito a nós, são assim tão trapalhões. Quase pisei um por me tentar desviar dele e saltar precisamente para a mesma direcção que ele.

Era tarde quando cheguei ao carro e vê-lo isolado em frente à barragem do rio da mula, foi uma sensação de alívio.

De novo, aquele reflexo dos filmes de terror. Entrar no carro, trancar a porta. A luz acende no interior e de repente não vemos nada para fora do carro e somos vistos a quilómetros, pelos zombies, que se acercam.

Tempo de ir a caminho da civilização, das luzes. Soube-me bem o IC19, as bombas de gasolina, os carros. Também quero fotografar o IC19, Rio de Mouro, Amadora… É claro que não tive medo, medo. Foi um pouco como quando vamos para uma casa do terror. Deixamos, de propósito, que a imaginação se divirta. Tive a sorte de não apanhar com alguém a esquartejar uma galinha ou a acender velas. Ou um grupo de pessoas de mantos e capuzes, em roda, e um tipo com uma máscara de chifres no meio deles, a erguer um punhal. Senti-me como se tivesse acordado de um sonho, muito por culpa do momento dos pirilampos. Não me admira por isso que me tenha custado adormecer nessa noite.

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lente errada e mochila.

Hoje chegaram mais duas encomendas, a mochila Mindshift e a lente. Samyang 12mm / F2,0. Já estava a antecipar um fim de semana (fim de dia, era já hoje!) cheio de explorações fotográficas e foi com desilusão que percebi que encomendei com o mount (sistema de “enroscar a lente à máquina”) errado. É um Fuji X e eu precisava de Micro 4/3.

A nabice foi parcialmente minha, mas também do seller na amazon que não tinha estas opções explícitas na venda, pelo que não sabia que havia diferentes sistemas / mounts para a mesma lente. Só percebi a tentar enroscar e não deu. Que urso.

Já contactei o seller e pediram-me para enviar de volta, não há problema, mas vão ser mais 2 ou 3 semanas sem a grande angular para paisagens.

Quanto à mochila, parece-me óptima, excelente material, rígida, a máquina fica bem protegida e fixa.

mindshift

Já deu para ver que, sem querer, vou treinar para a marathon des sables com isto. É pesadinha. Com mais 1,5 litros de água, máquina, lente, alimentação, eventualmente o tripé de carbono em 2ª mão e temos peso total de respeito.

É claro, desde já, que não substitui a Salomon. O meu long run de trail deve permanecer igual ao que é agora: corrida pura, combinada com scout de locais que podem ser interessantes. O gps Suunto permite mesmo memorizar POIs (points of interess) e existe a categoria de paisagens / vistas.  E no dia seguinte, em vez do treino de recuperação que costumo fazer em cenário urbano, teria motivação para fazer um hike / run lento focado em ir a um ou vários locais identificados, já com algum planeamento prévio, e totalmente dedicado a fotografia.

Para bicicleta a mochila é perfeita, assim como para hike e para me acompanhar em situações como a pesca, turismo urbano e afins.