MIUT 2017 – relato

Relato MIUT

Este relato é muito técnico. Não contém apontamentos literários e de comédia para efeitos de entretenimento, tais como partes esfoladas e outros pormenores do estilo grosseiro ou de revista. É verdade que há efectivamente um atleta português que logo na subida para os Estanquinhos exclama alto e bom som: “epá foda-se já me caguei todo”, mas isso é uma excepção e uma prova deste nível não é feita de momentos assim. O meu frontal e o dos cerca de 50 atletas em fila indiana compacta iluminaram o infeliz, a 2 metros do trilho, enfiado entre arbustos com o à vontade de um veado encadeado. Percebi que ia tentando remediar os estragos. Os amigos algo embaraçados revezaram-se na distribuição de lenços de papel ao infeliz que se justificava “…e fui à casa de banho umas três vezes antes e nada, agora chego aqui e cago-me todo”.

Foi um momento de entretenimento. Este relato é destinado a quem? Não sei. Li agora mesmo o relato do amigo Pedro Baptista com quem fiz os últimos kms da Ehunmilak e que terminou isto em 21h29m. A impressão que ele tem da prova (que já terminou 3x) é bem diferente da minha.

Este relato é destinado especialmente a trail runners no segmento entusiasta / sério com a mania, mas não assim tão bom como o Pedro ou o meu amigo João, pessoas que acabam o MIUT na casa das sub 24h na boa.

O MIUT tem 115km e +7100m de desnível positivo. Atravessa a ilha da Madeira de Porto Moniz a Machico. A partida é dada à meia noite. O tempo limite é de 36 horas. O piso é muito técnico. As temperaturas e altitudes oscilam entre o nível do mar e os quase 1700 metros. Para dificultar mais as coisas, este ano a prova contou com cerca de 500 atletas franceses que falaram francês e que foram franceses durante o percurso. Também houve pelo menos um espanhol que logo nos Estanquinhos se virou para mim a procurar confirmação de que era “real” o que lhe estava a acontecer. “Puta madre!” diz-me ele a beber isotónico com a mão a tremer e eu a pensar  “pois é espanholito, querias caramielos, era?” e foi assim este diálogo europeu entre povos do sul, contra a austeridade.

Como é sabido de todos no planeta, desisti desta prova em 2016, na Portela, sensivelmente ao km 98. Voltei de novo para encerrar o MIUT e encerrei, faço já aqui um spoiler. Teria desistido de novo não fosse ter desistido em 2016. É que eu tenho duas coisas que recomendo a todos os ultra runners, duas forças genuínas. E são elas o orgulho e a vergonha na cara. O ultra runner que tenha uma fonte inesgotável de orgulho e vergonha na cara não desiste de nada a que se propõe de forma pública.

Este ano fui sem o meu companheiro João Paiva que, tendo já completado com distinção o MIUT em 2016 me fez um educado mas assertivo manguito quando lhe propus repetir a dose. Compreendo-o.

Encontrei-me assim de novo em Porto Moniz, às 22h e pouco, deitado num montinho de relva, a dormitar, alheio à confusão e excitação da partida.

Estava alheado da excitação do MIUT e de tudo à minha volta. Já era a segunda vez que tentava o MIUT Parece que como já sabemos que vai ser mau, não temos expectativas que não seja. Somos aquele veterano de guerra que é enviado de volta para a linha da frente por um erro burocrático e que já sabe ao que vai e que enquanto os jovens inconscientes cantam e fazem brindes no porão do navio, ele fica apenas numa cama de rede com um cigarro a contemplar as estrelas pela última vez… Isso ou então foi dos 2 valdispers que tomei no dia antes.

Dica prática MIUT #53: a prova começa à meia noite. O tempo de conclusão da maior parte dos atletas é para cima de 24 horas. Como tal vão experimentar sonolência no fim da prova. É importante ter o sono em dia. O uso de drogas do tipo barbitúricos é recomendado para dormir bem na véspera e se possível meter umas sestas. Em 2016 estava mais excitado que uma menina na véspera de um concerto do Justin Bieber. Fiz quase directa na noite antes. Aconteceu-me o mesmo na Ehunmilak, o que resultou em praticamente 3 directas consecutivas, com alucinações jeitosas. Não há necessidade. Pensem que há pessoas com vidas normais que precisam de ansiolíticos e barbitúrios diariamente porque não conseguem lidar com a vida normal. Vocês vão fazer uma ultra de 24 horas ou mais: merecem o calmante.

Finalmente tirei a roupa, bebi um shot de cafeína e entreguei os sacos ao som do Bailinho da Madeira, uma melodia que a espaços me entrou na cabeça e não saiu, torturando-me. Entrei com calma no “curral” dos corredores. Este ano nem verificaram o material, limitaram-se ao controlo zero. Vi o primeiro desclassificado do dia, um espertalhuço que saltou a vedação para conseguir vir cá para a frente. Ao fazê-lo falhou o controlo zero à entrada. Eu ia avisá-lo mas ele era francês.

Dica #45: não liguem ao engarrafamento inicial. Aqui divirjo dos cromos. Se querem fazer mega tempo força nisso. Se são pessoas normais, tenham calma. O meu erro em 2016, como sou rápido em downhill, foi pensar que tinha de me chegar à frente até ao Fanal para fazer a descida à vontade. Este ano sentia-me relaxado. Senti que não tinha de me despachar, só queria chegar ao fim bem, como se isso fosse possível no MIUT.

Depois de subir ao Fanal e descer a Chão da Ribeira, atrapalhado por tansos com medo das descidas, começa a subida aos Estanquinhos. Acabar ou não o MIUT decide-se na subida aos Estanquinhos antes do km 30. As pessoas tendem a focar-se na pancada monumental do Curral das Freiras para o Pico Ruivo, mas na verdade o massacre que dá o tom para o resto é a subida para Estanquinhos. 1385 metros de desnível positivo em menos de 10km com temperaturas gélidas no topo. A subida é monótona como o raio. Serpenteia. Olha-se para cima e vemos luzes de frontais uns 100 ou 200 metros acima o que é demolidor. Foi aqui que o atleta se borrou. Mas também vemos uma serpente de luzes serra abaixo e serra acima. É uma visão fabulosa. Calma, calma e calma. Logo nos Estanquinhos há desistências.

Tempo para mais um apontamento de humor.

À minha frente seguia uma atleta com calções que tinham escrito VEGAN bem grande atrás. O comentário chocarreiro e de baixo nível atrás de mim não fez esperar, com sotaque do norte:

-Olha, já reparaste ali naquele pormenor?
-Qual?
-Aquele é vegan. Ali não entra chouriço. Só cenoura e courgete.

Fim de apontamento de humor.

No estanquinhos estava bastante público como é hábito, a aplaudir os corredores. É um dos postos mais espectaculares que conheço do trail running, por estar assim a mais de 1600 metros, ao frio, de madrugada, e estar cheio de gente para além dos voluntários, a aplaudir e incentivar. O povo da Madeira é fantástico. Lembrou-me o espírito do país Basco, um espírito que aprecia a montanha.

Segui o mais depressa que pude devido às baixas temperaturas. Céu estrelado, com uma lua em quarto minguante no enfiamento do caminho. Como em 2016, a vegetação com geada e orvalho. Muito frio, o ar gélido e cristalino.

Segue-se a descida para o Rosário, uma das descidas mais técnicas do MIUT. Em 2016 foi um pesadelo devido à lama, este ano não choveu tanto e foi mais fácil. Com o piso bem menos escorregadio caí apenas 1 vez com grande aparato. A esse propósito, caí bem no meio de um monte de pedregulhos pontiagudos e disse “ai” e vieram-me ajudar. Pronto.

Comparativamente com 2016 estava a sentir-me muito bem. Verifiquei há pouco que estava mais lento uns 30 ou 40 minutos. Quando passei a encumeada e cheguei ao posto de abastecimento no Hotel da Encumeada estava mesmo eufórico, pois lembro-me de estar KO por esta altura. Ainda não tinha chegado ao tira teimas. A subida do “pipe-line” antes do Curral das Freiras, ao km 45 sensivelmente. Em 2016 foi aqui que morri. Subi a passo de caracol, ofegando, cheio de calor, sem perceber o que se passava. Desta vez não digo que tenha saltitado como um coelho, mas fiz sem grandes problemas. No fim até assobiei músicas quando o terreno alisou. É uma coisa que eu faço para irritar o trail runner que vai à minha frente. Ponho-me a assobiar o malhão malhão ou o bailinho da madeira, demonstrando que a minha respiração está controlada e normal, enquanto o desgraçado está a ofegar. Resulta quase sempre, a vítima desvia-se irritada só para não ter de me ouvir, eu passo e depois sou eu que ofego para recuperar desta manobra, mas longe da vista. O trail é muito psicológico. É tudo psicológico.

A descida para o curral das freiras é um massacre de calhaus e pó, e de vertigens, mas é o single track mais bonito e espectacular de trail do mundo para quem consiga lidar com as vertigens e olhar. Eu como não consigo só vejo a paisagem no início e depois só vejo mesmo onde ponho os pés. O chão é muito bonito por ali, muito calhau diversificado e o pó é muito bonito, deixa as pegadas bem definidas. Cheguei finalmente ao curral pelas 11:40, mesmo tempo praticamente que em 2016 mas a sentir-me muito melhor. Devagar se vai ao longe.

Vamos fazer fast forward. Sou péssimo em relatos porque na minha cabeça tudo se mistura e fico com uma amnésia. Digamos que a pouco e pouco fui recuperando face a 2016 no posto onde desisti em 2016 ia já com 1 hora de vantagem, o que demonstra como ir mais calmo no início compensa.

Saí do curral com roupinha lavada, banho tomado e barba feita e finalmente preparado para o sol, com boné e creme 50. Em 2016 sofri um escaldão brutal nesta subida. Fui carregando o suunto com o power bank. Esta subida é objectivamente a pior e não deve ser surpresa. Pelos vistos foi para um francês a que expliquei “beacoup de chaleur mon ami, beaucup chaud” e ele “quoi? pas possible!” e eu “mais oui!” Levei um litro de água e safei-me porque este ano foi mais fresco. O ideal é mesmo 1.5 litros de água no percurso Curral – Pico Ruivo. O ano passado levei 500ml apenas. Este ano era obrigatório levar 1 litro e mostrar o telemóvel operacional. Gostei. É preferível incidir o esforço de check up na etapa crítica do que perder tempo na partida.

Esta subida é gigantesca. É interminável. Pronto. Relato da subida feito. Depois ali segue segue segue para o Pico do Areeiro. Há uns túneis, mais escadas, etc. Estava frio este ano, que bem que me soube. Parece que ainda estava a cozer de 2016. Segue segue segue e chega-se ao Pico do Areeiro.

Chegado ao Pico do Areeiro vejo os abastecimentos e um calor infernal no posto cheio de gente. Senti-me claustrofóbico. E com fome, mas de nada daquilo. Começou aqui a sensação de enjoos. Apeteceu-me uma água tónica. Naturalmente fui pedir água tónica. Causei confusão no abastecimento, quiseram dar-me água mineral com gás. Insisti que queria uma água tónica. Pensaram que por água tónica eu me referia a qualquer coisa do “continente”, tipo quando vamos ao norte e pedimos uma “bica” ou uma “imperial” e eles corrigem para cimbalino e fino. Não havia. Fui falar com o director do abastecimento que tinha uma t-shirt a dizer “director do abastecimento”. Havia um café no piso de cima, perguntei-lhe de seria desclassificado se fosse lá comprar comida e ele disse que não, à vontade. Então fui. Entro no bar, discretamente, misturado entre turistas e pessoas que ali estavam para ver o MIUT sem a consciência de que um Deus Grego tinha ali entrado e meti-me na fila. Nisto percebo que é preciso tabuleiro e vou buscar tabuleiro e meto-me na fila de novo. Vejo uma taça de morangos. Não sei o que me deu, mas peguei nos morangos e meti no tabuleiro. Depois foi um ovo cozido. E duas garrafas de água tónica da madeira – Brisa. Na esplanada devorei os morangos e bebi 1 água tónica A outra água tónica foi para uma das garrafas de hidratação e fui bebendo água tónica até vomitar tudo das últimas 12h no Poiso. Não perguntem. Eu sei o que estou a fazer.

Vou saltar esta parte porque é MIUT puro. Não há palavras para descrever. Não há mesmo. Ok, há mas eu tenho preguiça. É uma descida muito grande e que se faz bem. Façamos antes mais fast forward até Ribeiro Frio – Poiso. Saliento um francês que tinha caído e estava a desistir. Tive pena dele, pareceu triste, mas para o fazer sentir-se melhor disse-lhe que a corrida dele tinha acabado e que já me tinha acontecido aussi, mon ami.

eu

Aqui as coisas mexeram comigo. Não tinha qualquer memória de ter feito este troço. Em 2016 estava tão “fora” que nada me ficou na mente, apenas uma branca monumental. Não reconhecia praticamente parte nenhuma do percurso. Sabia que tinha desistido na Portela mas já duvidava, porque para chegar à Portela tinha de passar por ali. Quando cheguei à subida estúpida implacável e insensível de Ribeiro Poiso estava indignado. Que merda é esta? Perguntei a várias pessoas se aquilo era normal, visto que o dorsal não mostrava aquelas subidas. Só tive respostas em francês. Franceses. Imaginem-se ao anoitecer, exaustos, rodeados de zombies franceses…

Já percebi entretanto que a organização do MIUT não está muito preocupada com a escala das subidas e descidas no dorsal, mas enfim. Finalmente reconheci tudo e comecei a ter um flashbach enorme ao chegar ao Poiso. Isto porque os bastões se prenderam nas pedras do caminho, o que me aconteceu em 2016. Só faltava 1 posto de abastecimento para chegar ao sítio onde desisti em 2016: a Portela.

No Poiso já não conseguia meter nada no estômago. Foi aqui que fruto da experiência que me faltou em 2016 e pré Ehunmilak, peguei numa garrafa de água das pedras e bebi dois copos de seguida. Depois fui para as traseiras, dedo na garganta e vomitei a minha alma, lembrei-me das noites no alcântara mar em 1998. Daí para a frente foi chá preto com uma colher de açucar. Mas, basicamente, estava ko.

Nunca mais recuperei 100%. Desci a correr bem até à Portela (onde desisti em 2016), estava fixado em terminar. Toparam o meu estado, deitei-me numa maca, mediram-me a tensão. Deram-me *primperan. E o que me salvou foi a canja mágica. No MIUT não há canja com massa. Excepto aqui na Portela. A canja tinha massinhas. Nos outros postos era só o caldo com umas farripas de cenoura e às vezes arroz cru. O posto da Portela tinha massinhas. Tinha também voluntárias bonitas, incluindo uma rapariga atraente que me tentou dar chá e que quando eu me lembrei de lhe dizer “obrigado” já tinham passado 2 minutos e ela tinha ido embora. Entretanto estava lá um atleta brasileiro que tem um amigo em comum comigo (o ultramaratonista Ricardo Almeida), uma coincidência do caraças. Fizemos a promessa de terminar a prova, sei que ele terminou um pouco antes de mim.

E pronto. Saí da Portela e nesta fase estava em piloto automático. Lembrei-me de no ano passado me ter sentido melhor depois de descansar um bocado e aqui também aconteceu o mesmo. Ainda consegui correr um pouco da Portela para o Larano mas o meu corpo ia fazendo shutdown aos poucos, incluindo sono. A minha cabeça parecia o Windows XP quando se abriam muitas janelas e aplicações ao mesmo tempo. Já só conseguia andar e faltavam mais de 15km. Se fosse o meu primeiro MIUT teria desistido de novo, mas desta vez só queria colocar uma pedra no assunto. A etapa Larano – Ribeira Seca de quase 10km foi talvez a pior de trail running que me lembro de fazer na vida. À minha direita um precipício insondável no escuro, só lhe ouvia o mar cá em baixo. Uma vereda interminável. Ao longe via frontais de atletas e isso dava para adivinhar a escala. Interminável. A ser ultrapassado por atletas em catadupa, sem me conseguir mexer, com vertigens.

Por fim Ribeira Seca e os kms finais para Machico que fiz quase a correr, de tão impaciente que estava. Se a prova tivesse 170kms eu teria recuperado e feito uma classificação melhor. Lembrei-me da Ehunmilak, de como passei mal pelos 100km e aos 160 estava a voar. Acho que mais uma ou duas tentativas e afino um MIUT perfeito. Acreditei que fazia 23 horas e acabei com 26h e 42 minutos, classificação 382 em 787 atletas o que se insere na minha regra mental de ficar pelo menos a meio da classificação. O último fez 31h e 37 minutos. Mais de 200 desistiram.

Não sei se volto a repetir esta. Talvez pela Madeira, porque adoro a ilha e as paisagens e o MIUT pode ser um pretexto. Andei nos dias antes a carregar 50kg de equipamento fotográfico pelos trilhos e gostei. É uma coisa que me dá prazer, explorar. Sei que o trail running e as ultras me permitem fazer esse hike de forma mais eficiente e fácil por isso ambas as coisas estão ligadas. O ultra runner é um excelente caminhante e explorador. Já discuti isto com o amigo João que me diz o mesmo, que quando apenas andamos a pé pelo campo ou serra, sem a pressão de uma corrida ou de um treino, sentimos uma paz e liberdade, um relaxe, como se fosse muito fácil por comparação. Também sinto isso com a comida e a bebida. Nos dias seguintes a uma ultra, beber água fresca ou uma cerveja ou um sumo, uma boa refeição, sentado, confortável, parece que tem mais valor e uma intensidade maior.

Senti um enorme alívio. Este ano vou ter a Freita e o Mont Blanc. Para o ano estou a pensar na PT 281, Patagónia (ultra fjord) ou Monte Fuji ou Leadville 100… veremos o que vem aí 🙂

madeira2-1

Aqui a actividade no Strava: https://www.strava.com/activities/953833439

EDIT: obrigado sério, Primperan em vez de priberan

EDIT2: Esqueci-me de contar um episódio que me aconteceu e que o amigo João Miguel (que terminou pouco antes de mim) me relembrou no facebook. A certa altura num posto de abastecimento vejo uma mulher toda jeitosa com uma embalagem de fatias de presunto aberta. Não me fiz rogado, aproximei-me e fui para tirar o presunto e ela “ahh não é para si” e depois percebi que ela era acompanhante do marido ou namorado que estava sentado mesmo à frente e nao alguém da organização. Ele olhou para mim cheio de pena e lá me disse “vá, pode tirar, sirva-se”. E pronto, servi-me de uma fatiazinha e fui-me embora todo contente que a presunto dado não se olha o dente.

Abutres 2017 – relato

screen-shot-2017-01-29-at-10-40-13

Abutres, feitos. Tinha previsto entre 8 e 9 horas, fiz 8:32 tempo de chip.

screen-shot-2017-01-29-at-10-35-04

O dia amanheceu gelado em Miranda do Corvo. Fiquei no Hotel Parque Serra da Lousã (http://www.hotelparqueserradalousa.pt/alojamento-4-estrelas-no-interior-do-parque-biologico) que recomendo vivamente. O hotel é novo. Foram espectaculares ao deixarem os atletas hóspedes tomar banho no spa bem depois da hora do checkout e com um pequeno almoço fantástico às 6 am, incluindo bolachas e pacotes de coisas para levarmos para a prova. O hotel é bonito e parece-me um sítio a visitar com mais calma.

Choveu bastante dois dias anteriores mas durante toda a prova até pelo menos às 17h não choveu e até houve sol em vários momentos. Ao sairmos de Miranda começou a chover muito. Tendo em conta que a prova só acabava às 21h, os últimos atletas sofreram muito. Os Abutres (e o UTAX que é na mesma região) são famosos por doses maciças de lama. Esta também teve muita, mas nada de extraordinário comparado com edições passadas.

Pés com tape, o truque me livrou de bolhas até agora, depois da má experiência na UDP. A questão das bolhas torna-se crítica em pisos muito técnicos com pedras, especialmente descidas e com muita água e lama. Contudo o tempo esteve fresco e isso contribui para diminuir a probabilidade. Com tempo quente são bem mais prováveis. Estreia das Salomon Speed Cross 3 em corridas oficiais e foram a escolha certa. Vão fazer-me a primeira parte do MIUT. A sola é muito agressiva e ideal para fixar em paredes de barro liso e escorregadio. Também se livram da água depressa. Tive várias vezes o pé submerso em água e em lama até à canela.

img_1311

A serra da Lousã já conhecia do UTAX, embora noutros percursos. Achei o percurso dos Abutres mais interessante que o do UTAX. O do UTAX pareceu-me artificialmente inchado para fazer mais de 100km. Os Abutres tem tudo na medida certa, é um percurso que senti ser compacto.

lousa

Estas florestas são muito húmidas, há riachos, cascatas, a terra é escura e lamacenta. É um tipo de paisagem pouco comum – digo eu – em Portugal. Os bosques lembram outras paragens mais a norte da europa. Recantos das florestas, os vales profundos, as aldeias, os rios e cascatas, a sensação de isolamento…

Aqui Gondramaz por onde passamos e abastecemos aos 39km.

gondra

Caras conhecidas na partida, é uma prova que atrai os tops.

Fui sem bastões, conselhos do amigo Pedro Batista numa conversa de facebook que já fez isto duas vezes. E com toda a razão. Sou fã de bastões, mas nesta prova são uma má opção. É demasiado técnica. Em muitas situações os bastões são um obstáculo. Os trilhos são estreitos demais, há zonas técnicas em que precisamos das duas mãos, especialmente a descer. Foi a única prova até hoje que fiz em que posso dizer: bastões não.

O arranque deu-se, como é hábito, num ritmo absurdo. E o João deixamo-nos ficar para trás e a comentar um com outro a loucura dos entusiasmados. Impressionante como há atletas que aos 5km estão em grande esforço a trote em subidas quando ainda faltam 45km de prova e mais de 2500 metros de acumulado. É assim em todas as que vou, no MIUT fui eu que cometi esse erro e paguei com o meu DNF. Por vezes deixamo-nos levar e não queremos ficar na cauda da corrida. Mas aqui eu tinha medo de ter quebras enormes e por isso encarei a prova como um treino, indo ao meu ritmo, sem pressão de tempo. Aos 13km em Vila Nova estava na classificação 413 (em 600 atletas). Terminei em 303, apenas porque tive um ritmo estável durante toda a prova, não acelerei na segunda parte. Só não quebrei. Quase todos os atletas que passei tinham simplesmente quebrado e já não conseguiam correr bem em planou ou descidas normais. O segredo destas coisas é conseguirmos correr onde é para correr do princípio ao fim da prova num ritmo estável. Não é ganhar 2 minutos numa subida indo a trote em vez de andar nos primeiros 20km para depois fazer os últimos 20km passo de caracol  e a ver tudo escuro.

Não sou eu na foto, mas é só um exemplo do tipo de trilhos.

screen-shot-2017-01-29-at-10-55-19

Esta prova encaixou na perfeição no meu perfil, técnica nas duas descidas principais, com single tracks de sonho, alguns a obrigar a uma constante ginástica. Quem pensa que correr trail aqui é “correr” com as pernas… temos de usar os braços, passar debaixo de troncos, deslizar por pedras, saltar… Trilhos bem divertidos, parecia playstation. Tenho os ombros e os braços doridos.

Mas aqui talvez um dos pontos negativos esta prova: muita gente, especialmente quando se misturam os atletas dos 30km (dorsal verde) na parte final. Não sei como resolver isso, mas é chato não poder descer (ou subir) à vontade e ter sempre gente a atrapalhar o rimo por causa do medo. Sublinho medo. Numa prova normal o grupo estica e deixa de ser um problema, mas aqui com esta injecção de atletas dos 30km a meio da prova, vamos até ao fim a lidar com isso. O problema dos Abutres é que como é técnico, faz as pessoas bloquearem mentalmente com medo, e como os trilhos são mesmo muito estreitos, não é possível ultrapassar em grandes extensões a não ser com a cooperação do atleta ultrapassado e aqui  lidei com alguma falta de etiqueta de trail running, mais pronunciada nos atletas inexperientes. A maior parte não tinha problema em ceder a passagem mas houve excepções. Eu não sou forte nas subidas, pelo contrário, se não ganhar tempo a descer, torna-se complicado. Sou competitivo na minha escala. Corro contra mim. Não faço 500km num fim de semana e treino horas a fio para fazer hiking em família ou no convívio. Cedo passagem sempre por respeito aos objectivos e às provas dos outros. Por vezes atletas trocam de posição numa prova várias vezes e cooperam. Detesto sentir que estou a atrapalhar o ritmo de alguém, muito menos de um grupo de pessoas. Além disso gosto de ir depressa em descidas. Único ponto menos positivo, levou a situações de tensão em que me via forçado a travar e a pedir licença.

Gostei da organização da prova, extremamente bem sinalizada, tudo bem organizado, vê-se que é uma máquina bem rotinada. O percurso é inteligente e nunca chega a enjoar por ser repetitivo, embora aí entre na equação ter feito algumas provas de mais de 100km. Começamos a relativizar mentalmente e o que parece longo, vai tornando-se mais curto, o que parece difícil, torna-se simpático.

Não me aborreci em nenhum momento da prova, nunca tive a impaciência de “isto nunca mais acaba?” ou “nunca mais entro numa destas”.

Outro ponto, a qualidade dos abastecimentos é muito boa, assim como a prontidão dos voluntários. Recomendo sem reservas esta prova para qualquer pessoa que se queira estrear num trail mais longo e de qualidade. É superior a outros trails que fiz de distâncias parecidas ou menores. É um percurso inteligente e com sensibilidade e personalidade, com alma. A meta é gira, no pavilhão / mercado, cheio de gente.

Estou gordo para os padrões e senti mesmo esse peso, essa gordura, não ajuda nada… Mas fora isso, comi imenso e nunca tive uma quebra de energia grande. Fui constante e em paz. Hoje, dia seguinte, estou a 100% tirando uma dor no tornozelo direito de um entorse num treino a semana passada. Se a dor passar, a meio da semana já estou a treinar de novo.

O meu último km foi a 5:27/km em plano e contra vento, isto diz bem de como estava “bem”.

screen-shot-2017-01-29-at-10-36-31

Fazer um km a 5:27 depois de 8 horas e meia a mexer-me non-stop é fixe. Tudo porque vi uns tipos a correr lento e meti na cabeça que os passava e passei. O meu palpite é que numa prova de 100km ou mais teria feito uma boa classificação, no primeiro terço dos corredores. Não acabei na reserva. Acabei perto do meu amigo João, o que é raro há muito tempo, só uns 10 ou 15 minutos depois dele. Mas aí suspeito mais que ele esteve mais descontraído do que eu, que até comeu uma bifana e bebeu a mini no Posto de Vigia.

Senti-me muito feliz e emocional ao terminar, a prova é dura e exige uma concentração elevada o tempo todo, é raro dar para desfocar e viajar. Também tinha saudades da minha filha, precisava de tomar banho, meter-me no carro, voltar, ir ter com ela. Volta e meia pensava nela e acelerava. Foi um bom treino para o MIUT e tenho muita margem para melhorar, a começar pelo peso. Também foi o regresso ao trail desde a Ehunmilak. Não sei se volto a correr estrada, só se o trail me fizer ser maratonista sub 3h naturalmente, porque isto é bem melhor. Gosto cada vez mais de Portugal e dos nossos sítios.

lb

Ano 2017 – objectivos MIUT e UTMB

Pois é, bati no fundo, mas fui salvo por um pequeno milagre que foi ter sido sorteado para o UTMB, com o meu amigo João (inscrevemo-nos em conjunto). Não o esperava, era a nossa primeira tentativa. Hesitei antes de me inscrever porque sentia que 2017 não ia ser um ano em que eu estaria no topo da forma e o UMTB é para mim uma prova que se resume a competir. Naquela zona há provas bem mais “sossegadas” e que permitem absorver a natureza e as vistas com outra tranquilidade que não a de milhares de corredores do mundo inteiro. Sempre me vi como explorador de provas mais exóticas e interessantes. O UTMB era uma que queria fazer quando estivesse no topo da forma, à custa de correr provas um pouco por todo o mundo. Contudo, apareceu já, por isso em Setembro quero ser o melhor corredor que alguma vez fui.

Estou assim inscrito nos Abutres (dia 28 de Janeiro), no MIUT (22 de Abril) e no UTMB (1 de Setembro).

O ponto de partida é duro. Meses sem correr muito, apenas um ou outro treino, Estou com 5 quilos a mais face ao meu racing weight. Massa gorda nos 15.5%-16% quando já esteve nos 12%. Sinto-me dolorosamente pesado, cheio de banha na barriga, algo que sinto mexer quando corro ou pedalo. Não foi só não correr. No treino de estrada para a maratona o foco foi sobretudo em velocidade. Deixei pois de fazer treinos gigantes de 4 horas em ritmo baixo que ajudam a torrar calorias. Ainda hoje de manhã com este frio e vento fui treinar e foi um pouco triste ver um pace de 5:45 com o coração a 160bpm, ou seja, muito lento. Um pouco cansado porque mesmo assim fiz 28km com 1700m de desnível em Sintra no domingo e porque andei com a minha filha de bicicleta para a escola dois dias consecutivos, o que significa 8kms de cada vez a puxar um peso considerável no reboque cougar chariot, apanhando umas subidas interessantes na belavista. Mas tudo isso foi graças ao UTMB, à pressão.

Com os Abutres já aí à porta, vou sofrer bastante, mas vou encarar como um treino longo. Mesmo no treino deste domingo não acabei “bem”. As pernas já recuperaram a resistência ao desnível mas com mais quilos em cima e muito em baixo de forma, não dá para em pouco tempo inverter isto. Uma coisa importante que percebi – já vou tendo alguma experiência e registo de dados – é que o meu declínio aconteceu em duas coisas específicas. A primeira foi o ganho de peso e perda de alguma massa muscular, o que tem um impacto tremendo. Outra foi a desregulação metabólica. O meu corpo perdeu a capacidade que tinha de metabolizar gordura rapidamente quer devido à ausência de treinos muito longos e lentos – algo próprio das ultras e que não treino desde a Ehunmilak, quer pelo sedentarismo e maus hábitos da pausa após a maratona do Porto. Assim, tenho quebras de energia constantes e fome durante um treino. Já estou a recuperar, ontem quase não jantei e hoje em jejum fiz 8km clássicos sem sentir uma quebra. Tenho de ver coisas positivas nesta pausa, o meu corpo por outro lado recuperou. Já não tenho dores no entorse que tinha há um ano no pé esquerdo por exemplo.

O ajuste de contas com o MIUT devia ter bastado para me motivar, mas não chegou. Faltava um sinal divino e o sorteio do UTMB foi esse sinal. Em poucos dias fiz mais transformações que em muito tempo antes. Cortei com álcool e bebidas açucaradas já faz quase 3 dias e planeio consumir apenas em ocasiões especiais (jogos do Benfica) e sociais . Treino algo todos os dias: corrida, bicicleta ou ioga / exercícios de core. Voltei a fazer o meu próprio pão enriquecido – hoje foi farinha integral com muesli de avelãs, passas e manteiga de amendoim. Só janto proteína e vegetais. Introduzi bloqueadores de acesso a websites e à internet com uma aplicação chamada SelfControl para me fazer aproveitar mais o tempo em que estou sentado numa secretária para trabalhar e reduzir ao mínimo as distrações e ter mais tempo físico (de 1h em 1h levanto-me e faço algo físico). Criei um calendário numa aplicação chamada Asana onde misturo a vida profissional com a pessoal e os treinos, pois a logística de pai separado obriga a muito improviso misturado com planeamento. Estou a reduzir cafeína em força (estava nos 4 cafés por dia) para dormir o melhor possível. Zero sal. Estou a ler o Correr ou Morrer do Kilian Jornet. Tenho o objetivo, não sei como, de consistentemente fazer perto de 100km por semana quando chegar a Março. Penso meter-me no yoga. Reduzi ao mínimo a vida social desencaminhadora. Meti de lado passatempos como a fotografia. Até setembro vou viver o tempo livre como um atleta porque me calhou o UTMB e não quero apenas acabar, quero fazer uma prova boa e orgulhar-me dela. Quero também terminar o MIUT e fazer uma boa prova.

Vou procurar voltar a escrever aqui. Aliás, ter escrito isto depois da paragem já é um sinal da minha motivação. Vamos a isto, descobrir o corredor que há em mim, o melhor corredor que há em mim. Posso matar-me com maus hábitos depois, celebrar, afundar-me. Mas se tive a sorte do sorteio tenho de a honrar e agradecer com humildade. UTMB aqui vou eu.

 

 

crónica de uma morte anunciada (Maratona do Porto 2016)

Desisti pouco antes do km 30.

screen-shot-2016-11-06-at-21-12-31screen-shot-2016-11-06-at-21-12-56screen-shot-2016-11-06-at-21-13-12

Aquilo de que os kamikazes são feitos. A minha desistência começou há 4 meses quando achei plausível fazer sub 3h. Essa impressão, talvez fruto da euforia de ter feito a minha primeira de 100 milhas ou ter feito duas maratonas de estrada em 4h e 3h30 levou-me a inscrever-me na maratona do Porto de 2016, pensando que poderia fazer sub 3h.

Eu conto fazer talvez mais 3 maratonas de estrada até ao fim da minha vida. São muito duras e não me dão prazer especial, embora sejam marcantes (já lá vou) a nível de evolução. Depressa percebi que não faria sub 3h, e pensei em sub 3h15, embora algo contrariado. Não me teria inscrito sabendo-me tanto no limite de conseguir tirar “apenas” quinze minutos. Treinei 4 meses fazendo o plano de maratona nível 3 (avançado) da garmin, envolvendo treinos bi-diários e muita insistência em velocidade e lactate treshold, na capacidade do corpo ter endurance para aguentar regimes fortes.

A verdade é que todos os testes que fiz me disseram que não conseguia fazer sub 3h15. E até no dia da maratona, naquela manhã fria, linda e solarenga no Porto, ponderei, discuti comigo mesmo e com o amigo Pedro Paulino que também foi, se devia ir para algo como 3h20.

Nota: para fazer uma maratona sub 3h15 o pace por km é 4:35. Para fazer próximo de 3h20 o pace é uns muitos mais lentos 4:45… uns míseros 10 segundos por km.

O meu raciocínio construiu-se em:

  1. eu não me teria inscrito se me tivessem dito que ia fazer 3h20.
  2. eu eventualmente vou fazer uma maratona abaixo de 3h num ponto qualquer da minha vida
  3. eu não vou aprender nada de novo se correr dentro dos meus limites
  4. Acredito em milagres, sou uma pessoa espiritual.

Estas  4 premissas fizeram-me decidir por tentar 4:35/km. Sub 3h15. Parti do portão A, reservado ao pessoal mais sério que faz menos de 3h15 e as boas notícias é que nem uma vez me senti atrapalhado (numa maratona com 5000 participantes é uma boa notícia). As más notícias é que durante todo o tempo em que corri não ultrapassei quase ninguém, pelo contrário.

Fui com o monitor cardíaco. Penso que 588 é o meu suffer score mais alto de sempre. Estive 30 minutos no total em anaeróbico, com a frequência acima de 173, a fronteira objectivamente medida nos testes de lactato que fiz antes da ehunmilak.

screen-shot-2016-11-21-at-09-17-06

Não sou propriamente inexperiente nas maratonas e na corrida de estrada. As sensações que tinha no corpo e o relógio diziam-me claramente que era um ritmo insustentável. Mas consegui apanhar o pacer das 4:35. Os kms 2,3 e 4 fiz a 4:29, 4:20 e 4:15 para o apanhar. O meu coração já ia disparado. Era absurdo para mim. A minha maratona anterior tinha sido feita a 5:00/km. Estava com a sensação de ir a sprintar. O meu coração a 175bpm quando para ser realista acabar a prova não devia ir a mais de 165 nesta fase da prova, idealmente nos 150s…

Então por que razão não abrandei logo? Se calhar porque mesmo assim continuei a acreditar num milagre e estava a gostar de ir naquele pelotão das sub 3h15. Acabando em menos de 3h15 fica-se nos primeiros 500 corredores de uma maratona de 5 mil corredores. Estava a tentar distrair-me do sofrimento vendo o magnífico Douro, as pessoas a aplaudir, o céu azul, Porto, Gaia, detalhes pequenos…  E acreditei até ao km 16. Altura em que me comecei a afastar-me do pelotão e a ficar exposto ao vento contra. Aí tomei a decisão de esquecer as sub 3h15 ou nem acabava, mas foi tarde demais.

O choque psicológico de ver o grupo a afastar-se, e isto quando só reduzi 10 segundos por km, foi duro.

Depois veio a parte mais dura do percurso, o cais de Gaia. Um empedrado muito grosseiro e anguloso, pedras enormes sobressaídas, um piso completamente assassino para as minhas new balance minimais, mas que teria sido assassino com qualquer calçado de estrada. Grande parte dos corredores seguia pelos passeios no meio das pessoas quando se podia. Empedrado normal já custa bastante, mas quando as pedras estão todas desconjuntadas é tortura. Comecei a sentir bolhas nos dois pés. Por fim quando saí do empedrado tinha feito os últimos 2km a cima dos 5:00 e estava cheio de dores. A faltar 12km ainda, com dificuldades já para me manter nos 5:00/km, adivinhei um calvário brutal para fazer 3h25 na melhor das hipóteses.

Reflecti pouco tempo, não foi preciso pensar muito e encostei à box. Não teve qualquer efeito psicológico danoso.  Estou de facto mais rápido e não tive uma desilusão porque não tive propriamente uma ilusão antes.

De caminho tirei seis minutos à minha anterior meia maratona e mais uns quantos recordes.

screen-shot-2016-11-06-at-21-12-38

Dei tudo o que tinha até bater num muro e isso também foi importante. Ao contrário da minha desistência no MIUT, aqui não houve factores como enjoos e afins. Só esteve em jogo uma variável: o ritmo imprimido por mim. Confirmei certos limites e isto serve de referência. O shutdown nesta prova deu-se ao nível das pernas, ficaram cansadas e rígidas, sem força.

Só me volto a inscrever numa maratona quando tiver mais a certeza do tempo que posso fazer. O ideal é fazer mesmo uns testes, ver o que acontece, e se achar relevante inscrever-me, inscrevo-me. Isso não vai acontecer até eu pulverizar 3h15. Pode ser daqui a 2 anos, 3, 4… não sei.

Não me arrependo de me ter inscrito. A estrada permite uma evolução muito forte. Aprendi algo importante que esteve também na base da minha menor evolução em estrada de 2014 para 2016. Corri estrada sempre a pensar em ultras e trail. Não treinei velocidade nos pontos críticos que o plano de maratona de nível 3 trabalha e quero ver se mudo isso. O

Mas até Abril já tenho dois objectivos bem mais divertidos. E o meu plano para eles, inventado por  mim, terá por base 2 treinos semanais chave, o longão do costume com muitas horas e muito desnível em sintra baseado em variações do STE (25-30km com 1500m de desnível) e, novidade, um de séries / velocidade / rampas. Os outros treinos da semana havendo tempo serão só para meter kms em muito baixa intensidade. Mas mesmo muito baixa, para permitir a recuperação e regeneração destes 2 treinos chave.

Venha 2017!

abutresmiut2017

ultramaratonas – como não desistir de uma prova

A minha primeira e até agora única desistência ocorreu no MIUT aos 98km, quando ia nos 30% primeiros e quando só faltavam 17km e praticamente todo o desnível estava feito. Tive problemas físicos novos – fortes enjoos – e sentia-me muito mal. Mas mesmo assim conseguia andar e podia ter andado até à meta e ser finisher dentro do tempo limite. No entanto desisti e sem qualquer remorso. Mas entretanto, estou a poucos dias de uma com números piores. Em vez de 115km são 168km e em vez de 7800m são 11000m. Então perguntam-me “mas se não conseguiste fazer o MIUT, como é que vais tentar a Ehunmilak?”

1- Colocar o “Ser finisher” no topo das prioridades. Hey, o título do post é “conselhos para nunca desistir”. Devemos ter presente que se metemos na cabeça fazer um tempo xis ou classificação xis isso pode pôr em causa o terminar da prova quando esse objectivo se esfuma depressa por um contratempo qualquer ou por uma incorrecta avaliação da dificuldade. Um mindset mais competitivo também aumenta o risco de problemas como exaustão por exagerar nos primeiros kms. Eu subestimei o MIUT e quis fazer um bom tempo, além disso tive problemas novos que me frustraram por não ir fazer o tempo que queria. É bom ter objectivos, mas se a desistência é algo que preocupa, então é preciso fazer de ser finisher a prioridade número um e não a segunda ou terceira na lista. Também não há problema, a meu ver, de alguém desistir de uma prova quando vê que não vai conseguir o seu objectivo, evitando assim lesões ou desgaste e permitindo-lhe continuar treinos. Antes eu censurava os elites por desistirem tão facilmente, mas depois do MIUT percebi o raciocínio. Não sinto que tenha algo a provar a não ser que esse seja o objectivo. Se o objectivo é ser finisher, as coisas mudam.

2- Aceitar que os primeiros kms podem ser muito duros– Uma das coisas brutais nas ultras e que ainda me surpreende é como os primeiros 30 ou 40kms de trail continuam a ser 30 ou 40kms de trail… difíceis. Seja numa prova de 50km, 80km, 100km ou 168km. Não é por estarem inseridos numa ultra muito longa que os primeiros 20-30km ficam proporcionalmente mais fáceis, mesmo em ritmos lentos. No entanto, temos essa expectativa. Achamos que uma prova de 100km só começa a ser difícil aos 60-70km quando aos 20 podemos apanhar uma subida lixada e ficar de rastos. No UTAX senti-me pior aos 17km do que aos 100km. Nesses momentos é inevitável um raciocínio: “se eu aos 17km me sinto assim… como é que vou aguentar até aos 110km?”  É preciso ter paciência e baixar o ritmo, mas não se deve encarar o estado físico e anímico como uma coisa que vai sempre piorando. Émais uma sucessão de oscilações com uma tendência, é verdade, para uma dor muscular maior (ficamos inevitavelmente cada vez mais doridos, mas não necessariamente mais exaustos). Devemos estar preparados para essas sensações e não ficar angustiado.

3- Foco na diversão e no pace conservador – Nunca senti tédio numa ultra, mas nada se compara ao teste de paciência a que as ultras nos sujeitam: é o posto de abastecimento que nunca mais vem ou só aparece 2km depois do previsto, é um km que demora uma eternidade a passar, é uma subida que nunca mais acaba e o cume continua longe… e é aquela consciência de que falta muito até à meta, e que pode ser uma consciência letal. Pode fazer-nos desistir, esmagados. É inevitável essa sensação e cada corredor pode lidar com isso de formas diferentes. Por vezes  esquecemo-nos que treinámos meses para aquilo e agora que lá estamos, só queremos que acabe, por vezes logo aos 15k (ver ponto anterior). É paradoxal no mínimo. Mas para ser finisher, o truque é mesmo  o factor diversão e prende-se muito com o ritmo imposto. Já fiz a experiência em Sintra. Posso demorar 4h20 a terminar um loop, exausto e a contar os minutos, ou então demorar 5h e terminar a assobiar com um sorriso, bem disposto. Se não estás a divertir-te, estás a ir depressa demais. Isto é especialmente crítico quando o foco é em ser finisher. O que torna a perspectiva de fazer os 80km que restam um pesadelo interminável, é o sofrimento naquele momento extrapolado para mais 20 horas. Mas se o momento estiver a ser menos duro (já nem digo agradável) isso não sucede. Ironicamente, podemos fazer um tempo bem melhor neste ritmo porque não nos arrastamos na parte final da prova e conseguimos correr onde é para correr até ao fim. Até no Sintra Magic Mountain Trail eu e o meu amigo João LP vimos vários corredores passarem por nós aos 10-20km que sabíamos que iam rebentar. Nós íamos a andar nas subidas, com calma, e estes corredores estavam a ofegar demais para uma prova de 50-60km…

4- Estar preparado a nível técnico / equipamento / nutrição / medicamentos – Isto depende de um mix de experiência e estudo teórico / informação. Se o objectivo é ser finisher é crucial não deixar pontas soltas, especiamente em territórios novos e condições novas. Oiçam os mais experientes, falem com quem já fez a prova se for preciso. É preciso ter planos B e soluções para problemas como bolhas, assaduras, frio, chuva, calor extremo, etc. Não é por mais um pouco de peso que não vamos ser finishers. Os pros podem ser minimalistas, um finisher deve ver-se como uma espécie de tanque à prova de tudo o que possa correr mal. O conforto é crucial. O benefício psicológico de ter um problema (ex: assadura, frio) e resolvê-lo no momento (ex: espalhar vaselina, colocar luvas) é enorme.  O MIUT nesse aspecto foi muito importante porque cheguei a vários limites e depois disso fiz alterações de equipamento e nutrição. Continuo a considerar bolhas como o problema mais crítico e perigoso, especialmente quando há possibilidade de desidratação com calor /humidade / altitude.

5 – Treino específico de finisher: looooongo e lento, nas condições da prova  (desnível)- Acordamos tarde e com ressaca? Estão 30 graus? Estamos a correr e acabou-se a comida e faltam 2 horas?  Treinamos na mesma. É excelente poder treinar com más sensações e em horas más. Com reservas de glicogénio em baixo, em jejum etc. É uma mera simulação do que nos espera. Um dos problemas da maior parte dos treinos é que são feitos num ritmo completamente irrealista no âmbito de uma ultra muito longa e em condições mais suaves a nível de altimetria ou tipo de piso.  Numa ultra de montanha o atleta que apenas quer ser finisher passa boa parte do tempo a andar, no entanto muitos atletas nunca andam em treinos e nunca usam os bastões que vão usar na prova. Não sou treinador, mas tenho a certeza que pelo menos no plano psicológico é positivo sentir familiaridade com ritmos lentos, andar a pé, bastões, sensações desagradáveis, a velocidade de andar, a paciência. O corpo ganha eficiência nos ritmos a que treinamos mais. Depois há a questão da especificidade. Normalmente as ultras de serra / montanha são quase sempre em condições de desnível e piso técnico mais duras que nos treinos, a não ser que vivamos na Madeira ou na Freita. Mas quanto mais próximo melhor. Isto também é verdade para ultras mais rolantes em estrada como uma Spartathlon ou uma Badwater. Uma ultra em asfalto e pouco desnível é terrível a nível de dores que causa pelos impactos repetidos. É preciso treino específico nessas condições.

6 – compromisso público – É subjectivo, mas eu descobri que parte do segredo da resiliência está no assumir público do nosso objectivo e partilhá-lo. Sentimentos como a vergonha de desiludir os outros, defraudar expectativas etc. são um óptimo tónico para aqueles momentos em que pensamos desistir. As pessoas até podem não nos ligar nenhuma – é o mais provável – mas nós não podemos pensar assim. Essa pressão ajuda a ser teimoso quando as dificuldades aumentam muito.

long

insights para a Ehunmilak

Graças à Cristina (uma das mulheres portuguesas que corre com o filho num super carrinho de bebé como eu fiz tantas vezes com a minha!)  tive grandes insights para a Ehunmilak, com a colaboração do Nuno Miguel, um atleta que terminou a Ehunmilak (e Zegama). Falei um pouco no chat com ele e deu-me dicas muito preciosas e que me animaram.

  • Pelas fotos que a organização disponibiliza das várias secções do percurso, o mesmo parecia algo rolante e pouco técnico (estou traumatizado pelo MIUT). Pela experiência do Nuno, apenas o Aizkori e o Txindoki requerem mais atenção. Isto é uma info muito relevante para o calçado, nomeadamente. Penso que posso precisar de um 2º par de leadvilles. As minhas La Sportiva já vão com 900km e estão muito destruídas. Tenho as Speedcross mas pelos vistos não seriam o ideal, talvez as leve na parte que inclui Aizkori ou Txindoki.
  • Não há lama a não ser que chova muito. Na época da Zegama há mais.
  • Muito frio de noite. Críticas as mudanças de roupa, de calçado, o conhecer bem o equipamento, o ter um ritmo calculado. Sei que preciso de mais duas camadas térmicas para as mudas.
  • Se chover, cuidado nos dois cumes mais técnicos. Tentar fazer o Aizkori ainda de dia, porque depois é bastante complicado fazer a sua travessia.
  • Montanha: as condições mudam frequentemente. Respeitar.

Bem, foi muito importante para mim desfazer a questão do tipo de piso e ter estes inputs em primeira mão. Vamos reflectir e ver o que nos falta. Também não há problema dos treinos – se o joelho melhorar – se focarem um pouco menos em desnível técnico e mais em estradão.

53k, 3200m no target pace para a Ehunmilak

Completei hoje o meu treino mais épico, se por treino considerar tudo o que seja extra-provas.

Sozinho, foram 10 horas por sintra (9:06 de “moving” time).
Screen Shot 2016-06-12 at 01.36.24Screen Shot 2016-06-12 at 01.36.53

Dei duas voltas completas ao track do STE remix + os extras de desnível e distância para o Penedo, o que eu e o João chamamos de STE XXL.

O objectivo do treino era chegar ao fim dos 53-54km com a sensação de que não seria impossível continuar mais 114km e mais 8 mil metros de desnível. Não é o mesmo que achar que sim, que consigo, simplesmente não foi uma nega. Cheguei muito bem ao fim do segundo loop, a correr bem e animado, depois de uma sova de 3200 de desnível ultra técnico.

Tudo se baseou num controlo paciente da intensidade aplicada. Estás a ofegar? anda. Ouves o coração bater nos ouvidos? Passos mais pequenos na subida. Estás a correr sem parar há mais de 1km? Anda um pouco a pé para descontrair os músculos. Precisas de ajeitar os atacadores? Ajeita, respira, faz chichi, anda pela sombra. Tudo é feito de forma preventiva, económica. Quem corre com a terra corre para sempre, ditado Tarahumara que ressoou na minha mente em todas as descidas.

O que eu quero é ir o mais longe possível com uma sensação mínima de conforto e conseguir ser finisher. Hoje foi testar o ritmo a que eu acho que iria, mas não quer dizer que faça 50km em 10h e duvido. Isso significa que em 25h horas teriam 150km feitos, bastando 18. Tendo em conta o tempo dos vencedores da Ehunmilak percebo que isso é irreal. Eu não vou demorar 30 horas ou vou demorar 40h ou mais, com boa probabilidade. Em todo o caso é-me indiferente nesta prova.

Pensei muito no Miut. Estou a ser duro comigo sem me aperceber – apercebi-me hoje. Lembro-me que aos 60km no MIUT eu estava destruído, mas tinha enjoos (já lá vou) também. Porquê, se na verdade não tinha subido muito mais do que hoje? O que acontece numa prova como o MIUT é que existem momentos de pico em que é IMPOSSÍVEL uma gestão da intensidade. Qualquer passo custa muito. Um erro que cometi foi subestimar o efeito que as escadas irregulares a subir e descer teriam sobre mim. No final podemos ter dois desníveis por km semelhantes, mas uma prova ser muito mais dura do que outra, apenas com base no tipo de piso, de degraus, de subidas e descidas. E eu fui demasiado forte no início, fui no redline como, aliás, disse que iria. Podia até ter feito sub 24h se tivesse ido com uma gestão de intensidade como fui hoje.

Outra lição: acabou-se o perpetuem. Não dá. Hoje levei geis e chocolates e perpetuem. Confirmei, já não consigo consumir. O meu corpo rejeita depois dos enjoos que tive. Só o cheiro, mesmo fresco e de manhã, agonia-me. É como ter uma ressaca de gin e ficar sem conseguir cheirar gin meses ou anos a fio. É absurdo pensar que vou estar umas 40h a consumir a mesma coisa. Por isso hoje trouxe montes de lixo. E gostei dele todo. De gomas a vários tipos de géis… não sou esquisito. Não houve nada que me caísse mal. Por isso para a ehunmilak vou levar uma variedade de géis, gomas, barras, tudo. Gostei muito de uns geis com 32gr de hidratos. Podia comer um daqueles por hora + abastecimentos + comfort food como uns chocolates tipo sneakers, tanto faz. Tenho é de levar coisas que goste de comer.

Foi um bom treino, pelo menos, na parte psicológica. Senti-me testado e custou-me muito, muito menos do que a primeira vez que fiz dois loops ao STE e eram só 42 ou 44km.