UTMB 2017

20116832_10213710347337775_8797717812311355766_oSer sorteado para o UTBM com o João significou mais do que apenas ser sorteado para o UTBM. Na vida de uma pessoa ocorrem por vezes acontecimentos significativos ou desafios que nos fazem escolher o melhor de dois caminhos. Aliás, dificilmente escolhemos um pior caminho, somos simplesmente levado por ele, por vezes de forma completamente lúcida, mas é como se nos víssemos de fora e não conseguíssemos mudar de padrões. A corrida por diversas ocasiões serviu de caminho que me leva sem eu ter de decidir, como quando deixei de fumar a poucos dias da maratona de Madrid. É como se fosse uma inevitabilidade ou fosse convencido.
Tenho demónios, inscrever-me em corridas é alimentar os anjos. Inscrevo-me. Sei que vou levar uma estalada monumental de quase dois dias nas montanhas. Tem de ser assustador ou difícil ou não resulta. Não tem de ser uma ultra, pode ser tentar bater as 3h numa maratona de estrada. Tem de haver um compromisso público, uma espécie de honra. Quando mete honra já não depende só de nós, não é invisível. Houve pessoas que fizeram sacrifícios por nós, a começar pela minha filha que já não vejo há uma semana e não vou ver mais uns dias por causa da corrida. E então tem de valer a pena. Naquela sexta feira à noite recusa-se o convite, o anjo convence-nos. Dormimos cedo e sóbrios. O anjo fica orgulhoso. Sábado às 8:00 estamos em sintra. O treino monótono de 8 horas consecutivas, duas voltas iguais, mas a compreensão de que se não temos resiliência para fazer o treino não vamos ter resiliência para algo como o UTMB. As endorfinas nas veias, a água no duche a levar terra e pó. E somos felizes e temos paz. Mas no cruzamento no dia anterior, na decisão por um caminho ou por outro, foi por um triz, o demónio quase venceu. Às vezes vence. E o caminho nunca acaba. O mais difícil foi antes e vai ser depois do UTBM. O UTMB é algo puro em que não se decide nada. Há um caminho, é ir em frente, o mais rápido possível. É ir numa torrente de atletas como nós. É a curiosidade de ver o nascer do sol depois da primeira noite. A curiosidade de conhecer os alpes que não conheço. A curiosidade de ver o por do sol antes da 2ª noite. O UTMB é só o início de um caminho e o caminho até lá já me fez passar por momentos de decisão difíceis e horas mais negras. Porque é mais fácil no início quando alguém começa a correr e começa a fazer as suas primeira ultras. Fica enebriado com a súbita revelação de um “eu” que talvez nem com 20 anos de idade existiu. Essa sensação de liberdade é poderosa, especialmente quando o nosso BI e cabelos brancos dizem o oposto. Mas também já tive outro contexto para treinar, mais estável. Este período foi complexo. Já sei, não se pode arranjar desculpas. Continuo a querer a sensação de correr para sempre numa floresta, num trilho húmido, por entre a condensação da face norte de sintra, por entre folhas encharcadas a reflectir raios de luz atlântica, a sensação de descer a face sul de Montenjunto por entre as pedras de um vale glaciar, a sensação de correr nas dunas do baleal, descalço, numa praia deserta, com o salitre na boca e a areia imaculada e estaladiça, a sensação de correr no leito do rio Paivô, mergulhado em água até à cintura, água gelada e doce, debaixo de um sol branco numa terra queimada, a sensação de correr acima das nuvens num vulcão na madeira ou nas cinzas de la palma ou de correr nos caminhos da minha infância na zona oeste onde as vinhas ganham a cor oxidada das memórias, onde vejo ecos de mim em pequeno, do meu pai e da minha mãe jovens, dos cães a caçar, de perdizes espantadas a levantar vôo num fim de domingo de inverno…  como explicar, a sensação. Vou levar um tigre de peluche pequenino que é dela, na mochila. Tenho a sensação que vou precisar do senhor tigre quando estiver à noite com a luz do frontal na monotonia do escuro e quem sabe com chuva. E quero trazê-lo de volta para que conte tudo o que viu e não me deixe mentir. De resto, para o UTMB, a minha preocupação nº1 são os enjoos. Tenho pernas para aquilo e tenho paciência de monje maratonista do monte Hiei. O meu objectivo é acabar. Não esperem grandes brilharetes, se chegasse a meio da tabela já me considerava competente. Mas o meu objectivo é acabar e não passar demasiado mal. Obrigado pelo apoio e boa sorte a todos os amigos que vão participar e que estão a participar noutras provas.

O tracking de atletas pode ser feito no site oficial: http://utmbmontblanc.com/en/live/utmb

uma citação de um senhor que admiro muito:

“I had an opportunity to follow Sakai all night in a car as he was approaching the end of his first 1,000-day alpine rounds,” Yamaori said. “Rather than striding in the mountains, he was flying through the mountains like a heron.
“I remember his two companion dogs obediently waiting by his side while he stopped to chant a sutra and say a prayer during the practice. His face had an affable and merciful look. That was a spectacular scene.”
-22-
Genshin Fujinami, Sakai’s disciple and chief mourner, has also completed the 1,000-day alpine rounds.
After an early life of war and pain, followed by exhausting journeys through the mountains, Sakai spent the last days of his life at his Imuro Fudodo Chojuin temple in Otsu.
Regarding his practice, Sakai has said: “Human life is like a candle; if it burns out halfway it does no one any good. I want the flame of my practice to consume my candle completely, letting that light illuminate thousands of places. My practice is to live wholeheartedly, with gratitude and without regret. Practice really has no beginning nor end; when practice and daily life are one, that is true Buddhism.
– podem ler tudo aqui Marathon Monks of Mount Hiei

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