MIUT 2017 – relato

Relato MIUT

Este relato é muito técnico. Não contém apontamentos literários e de comédia para efeitos de entretenimento, tais como partes esfoladas e outros pormenores do estilo grosseiro ou de revista. É verdade que há efectivamente um atleta português que logo na subida para os Estanquinhos exclama alto e bom som: “epá foda-se já me caguei todo”, mas isso é uma excepção e uma prova deste nível não é feita de momentos assim. O meu frontal e o dos cerca de 50 atletas em fila indiana compacta iluminaram o infeliz, a 2 metros do trilho, enfiado entre arbustos com o à vontade de um veado encadeado. Percebi que ia tentando remediar os estragos. Os amigos algo embaraçados revezaram-se na distribuição de lenços de papel ao infeliz que se justificava “…e fui à casa de banho umas três vezes antes e nada, agora chego aqui e cago-me todo”.

Foi um momento de entretenimento. Este relato é destinado a quem? Não sei. Li agora mesmo o relato do amigo Pedro Baptista com quem fiz os últimos kms da Ehunmilak e que terminou isto em 21h29m. A impressão que ele tem da prova (que já terminou 3x) é bem diferente da minha.

Este relato é destinado especialmente a trail runners no segmento entusiasta / sério com a mania, mas não assim tão bom como o Pedro ou o meu amigo João, pessoas que acabam o MIUT na casa das sub 24h na boa.

O MIUT tem 115km e +7100m de desnível positivo. Atravessa a ilha da Madeira de Porto Moniz a Machico. A partida é dada à meia noite. O tempo limite é de 36 horas. O piso é muito técnico. As temperaturas e altitudes oscilam entre o nível do mar e os quase 1700 metros. Para dificultar mais as coisas, este ano a prova contou com cerca de 500 atletas franceses que falaram francês e que foram franceses durante o percurso. Também houve pelo menos um espanhol que logo nos Estanquinhos se virou para mim a procurar confirmação de que era “real” o que lhe estava a acontecer. “Puta madre!” diz-me ele a beber isotónico com a mão a tremer e eu a pensar  “pois é espanholito, querias caramielos, era?” e foi assim este diálogo europeu entre povos do sul, contra a austeridade.

Como é sabido de todos no planeta, desisti desta prova em 2016, na Portela, sensivelmente ao km 98. Voltei de novo para encerrar o MIUT e encerrei, faço já aqui um spoiler. Teria desistido de novo não fosse ter desistido em 2016. É que eu tenho duas coisas que recomendo a todos os ultra runners, duas forças genuínas. E são elas o orgulho e a vergonha na cara. O ultra runner que tenha uma fonte inesgotável de orgulho e vergonha na cara não desiste de nada a que se propõe de forma pública.

Este ano fui sem o meu companheiro João Paiva que, tendo já completado com distinção o MIUT em 2016 me fez um educado mas assertivo manguito quando lhe propus repetir a dose. Compreendo-o.

Encontrei-me assim de novo em Porto Moniz, às 22h e pouco, deitado num montinho de relva, a dormitar, alheio à confusão e excitação da partida.

Estava alheado da excitação do MIUT e de tudo à minha volta. Já era a segunda vez que tentava o MIUT Parece que como já sabemos que vai ser mau, não temos expectativas que não seja. Somos aquele veterano de guerra que é enviado de volta para a linha da frente por um erro burocrático e que já sabe ao que vai e que enquanto os jovens inconscientes cantam e fazem brindes no porão do navio, ele fica apenas numa cama de rede com um cigarro a contemplar as estrelas pela última vez… Isso ou então foi dos 2 valdispers que tomei no dia antes.

Dica prática MIUT #53: a prova começa à meia noite. O tempo de conclusão da maior parte dos atletas é para cima de 24 horas. Como tal vão experimentar sonolência no fim da prova. É importante ter o sono em dia. O uso de drogas do tipo barbitúricos é recomendado para dormir bem na véspera e se possível meter umas sestas. Em 2016 estava mais excitado que uma menina na véspera de um concerto do Justin Bieber. Fiz quase directa na noite antes. Aconteceu-me o mesmo na Ehunmilak, o que resultou em praticamente 3 directas consecutivas, com alucinações jeitosas. Não há necessidade. Pensem que há pessoas com vidas normais que precisam de ansiolíticos e barbitúrios diariamente porque não conseguem lidar com a vida normal. Vocês vão fazer uma ultra de 24 horas ou mais: merecem o calmante.

Finalmente tirei a roupa, bebi um shot de cafeína e entreguei os sacos ao som do Bailinho da Madeira, uma melodia que a espaços me entrou na cabeça e não saiu, torturando-me. Entrei com calma no “curral” dos corredores. Este ano nem verificaram o material, limitaram-se ao controlo zero. Vi o primeiro desclassificado do dia, um espertalhuço que saltou a vedação para conseguir vir cá para a frente. Ao fazê-lo falhou o controlo zero à entrada. Eu ia avisá-lo mas ele era francês.

Dica #45: não liguem ao engarrafamento inicial. Aqui divirjo dos cromos. Se querem fazer mega tempo força nisso. Se são pessoas normais, tenham calma. O meu erro em 2016, como sou rápido em downhill, foi pensar que tinha de me chegar à frente até ao Fanal para fazer a descida à vontade. Este ano sentia-me relaxado. Senti que não tinha de me despachar, só queria chegar ao fim bem, como se isso fosse possível no MIUT.

Depois de subir ao Fanal e descer a Chão da Ribeira, atrapalhado por tansos com medo das descidas, começa a subida aos Estanquinhos. Acabar ou não o MIUT decide-se na subida aos Estanquinhos antes do km 30. As pessoas tendem a focar-se na pancada monumental do Curral das Freiras para o Pico Ruivo, mas na verdade o massacre que dá o tom para o resto é a subida para Estanquinhos. 1385 metros de desnível positivo em menos de 10km com temperaturas gélidas no topo. A subida é monótona como o raio. Serpenteia. Olha-se para cima e vemos luzes de frontais uns 100 ou 200 metros acima o que é demolidor. Foi aqui que o atleta se borrou. Mas também vemos uma serpente de luzes serra abaixo e serra acima. É uma visão fabulosa. Calma, calma e calma. Logo nos Estanquinhos há desistências.

Tempo para mais um apontamento de humor.

À minha frente seguia uma atleta com calções que tinham escrito VEGAN bem grande atrás. O comentário chocarreiro e de baixo nível atrás de mim não fez esperar, com sotaque do norte:

-Olha, já reparaste ali naquele pormenor?
-Qual?
-Aquele é vegan. Ali não entra chouriço. Só cenoura e courgete.

Fim de apontamento de humor.

No estanquinhos estava bastante público como é hábito, a aplaudir os corredores. É um dos postos mais espectaculares que conheço do trail running, por estar assim a mais de 1600 metros, ao frio, de madrugada, e estar cheio de gente para além dos voluntários, a aplaudir e incentivar. O povo da Madeira é fantástico. Lembrou-me o espírito do país Basco, um espírito que aprecia a montanha.

Segui o mais depressa que pude devido às baixas temperaturas. Céu estrelado, com uma lua em quarto minguante no enfiamento do caminho. Como em 2016, a vegetação com geada e orvalho. Muito frio, o ar gélido e cristalino.

Segue-se a descida para o Rosário, uma das descidas mais técnicas do MIUT. Em 2016 foi um pesadelo devido à lama, este ano não choveu tanto e foi mais fácil. Com o piso bem menos escorregadio caí apenas 1 vez com grande aparato. A esse propósito, caí bem no meio de um monte de pedregulhos pontiagudos e disse “ai” e vieram-me ajudar. Pronto.

Comparativamente com 2016 estava a sentir-me muito bem. Verifiquei há pouco que estava mais lento uns 30 ou 40 minutos. Quando passei a encumeada e cheguei ao posto de abastecimento no Hotel da Encumeada estava mesmo eufórico, pois lembro-me de estar KO por esta altura. Ainda não tinha chegado ao tira teimas. A subida do “pipe-line” antes do Curral das Freiras, ao km 45 sensivelmente. Em 2016 foi aqui que morri. Subi a passo de caracol, ofegando, cheio de calor, sem perceber o que se passava. Desta vez não digo que tenha saltitado como um coelho, mas fiz sem grandes problemas. No fim até assobiei músicas quando o terreno alisou. É uma coisa que eu faço para irritar o trail runner que vai à minha frente. Ponho-me a assobiar o malhão malhão ou o bailinho da madeira, demonstrando que a minha respiração está controlada e normal, enquanto o desgraçado está a ofegar. Resulta quase sempre, a vítima desvia-se irritada só para não ter de me ouvir, eu passo e depois sou eu que ofego para recuperar desta manobra, mas longe da vista. O trail é muito psicológico. É tudo psicológico.

A descida para o curral das freiras é um massacre de calhaus e pó, e de vertigens, mas é o single track mais bonito e espectacular de trail do mundo para quem consiga lidar com as vertigens e olhar. Eu como não consigo só vejo a paisagem no início e depois só vejo mesmo onde ponho os pés. O chão é muito bonito por ali, muito calhau diversificado e o pó é muito bonito, deixa as pegadas bem definidas. Cheguei finalmente ao curral pelas 11:40, mesmo tempo praticamente que em 2016 mas a sentir-me muito melhor. Devagar se vai ao longe.

Vamos fazer fast forward. Sou péssimo em relatos porque na minha cabeça tudo se mistura e fico com uma amnésia. Digamos que a pouco e pouco fui recuperando face a 2016 no posto onde desisti em 2016 ia já com 1 hora de vantagem, o que demonstra como ir mais calmo no início compensa.

Saí do curral com roupinha lavada, banho tomado e barba feita e finalmente preparado para o sol, com boné e creme 50. Em 2016 sofri um escaldão brutal nesta subida. Fui carregando o suunto com o power bank. Esta subida é objectivamente a pior e não deve ser surpresa. Pelos vistos foi para um francês a que expliquei “beacoup de chaleur mon ami, beaucup chaud” e ele “quoi? pas possible!” e eu “mais oui!” Levei um litro de água e safei-me porque este ano foi mais fresco. O ideal é mesmo 1.5 litros de água no percurso Curral – Pico Ruivo. O ano passado levei 500ml apenas. Este ano era obrigatório levar 1 litro e mostrar o telemóvel operacional. Gostei. É preferível incidir o esforço de check up na etapa crítica do que perder tempo na partida.

Esta subida é gigantesca. É interminável. Pronto. Relato da subida feito. Depois ali segue segue segue para o Pico do Areeiro. Há uns túneis, mais escadas, etc. Estava frio este ano, que bem que me soube. Parece que ainda estava a cozer de 2016. Segue segue segue e chega-se ao Pico do Areeiro.

Chegado ao Pico do Areeiro vejo os abastecimentos e um calor infernal no posto cheio de gente. Senti-me claustrofóbico. E com fome, mas de nada daquilo. Começou aqui a sensação de enjoos. Apeteceu-me uma água tónica. Naturalmente fui pedir água tónica. Causei confusão no abastecimento, quiseram dar-me água mineral com gás. Insisti que queria uma água tónica. Pensaram que por água tónica eu me referia a qualquer coisa do “continente”, tipo quando vamos ao norte e pedimos uma “bica” ou uma “imperial” e eles corrigem para cimbalino e fino. Não havia. Fui falar com o director do abastecimento que tinha uma t-shirt a dizer “director do abastecimento”. Havia um café no piso de cima, perguntei-lhe de seria desclassificado se fosse lá comprar comida e ele disse que não, à vontade. Então fui. Entro no bar, discretamente, misturado entre turistas e pessoas que ali estavam para ver o MIUT sem a consciência de que um Deus Grego tinha ali entrado e meti-me na fila. Nisto percebo que é preciso tabuleiro e vou buscar tabuleiro e meto-me na fila de novo. Vejo uma taça de morangos. Não sei o que me deu, mas peguei nos morangos e meti no tabuleiro. Depois foi um ovo cozido. E duas garrafas de água tónica da madeira – Brisa. Na esplanada devorei os morangos e bebi 1 água tónica A outra água tónica foi para uma das garrafas de hidratação e fui bebendo água tónica até vomitar tudo das últimas 12h no Poiso. Não perguntem. Eu sei o que estou a fazer.

Vou saltar esta parte porque é MIUT puro. Não há palavras para descrever. Não há mesmo. Ok, há mas eu tenho preguiça. É uma descida muito grande e que se faz bem. Façamos antes mais fast forward até Ribeiro Frio – Poiso. Saliento um francês que tinha caído e estava a desistir. Tive pena dele, pareceu triste, mas para o fazer sentir-se melhor disse-lhe que a corrida dele tinha acabado e que já me tinha acontecido aussi, mon ami.

eu

Aqui as coisas mexeram comigo. Não tinha qualquer memória de ter feito este troço. Em 2016 estava tão “fora” que nada me ficou na mente, apenas uma branca monumental. Não reconhecia praticamente parte nenhuma do percurso. Sabia que tinha desistido na Portela mas já duvidava, porque para chegar à Portela tinha de passar por ali. Quando cheguei à subida estúpida implacável e insensível de Ribeiro Poiso estava indignado. Que merda é esta? Perguntei a várias pessoas se aquilo era normal, visto que o dorsal não mostrava aquelas subidas. Só tive respostas em francês. Franceses. Imaginem-se ao anoitecer, exaustos, rodeados de zombies franceses…

Já percebi entretanto que a organização do MIUT não está muito preocupada com a escala das subidas e descidas no dorsal, mas enfim. Finalmente reconheci tudo e comecei a ter um flashbach enorme ao chegar ao Poiso. Isto porque os bastões se prenderam nas pedras do caminho, o que me aconteceu em 2016. Só faltava 1 posto de abastecimento para chegar ao sítio onde desisti em 2016: a Portela.

No Poiso já não conseguia meter nada no estômago. Foi aqui que fruto da experiência que me faltou em 2016 e pré Ehunmilak, peguei numa garrafa de água das pedras e bebi dois copos de seguida. Depois fui para as traseiras, dedo na garganta e vomitei a minha alma, lembrei-me das noites no alcântara mar em 1998. Daí para a frente foi chá preto com uma colher de açucar. Mas, basicamente, estava ko.

Nunca mais recuperei 100%. Desci a correr bem até à Portela (onde desisti em 2016), estava fixado em terminar. Toparam o meu estado, deitei-me numa maca, mediram-me a tensão. Deram-me *primperan. E o que me salvou foi a canja mágica. No MIUT não há canja com massa. Excepto aqui na Portela. A canja tinha massinhas. Nos outros postos era só o caldo com umas farripas de cenoura e às vezes arroz cru. O posto da Portela tinha massinhas. Tinha também voluntárias bonitas, incluindo uma rapariga atraente que me tentou dar chá e que quando eu me lembrei de lhe dizer “obrigado” já tinham passado 2 minutos e ela tinha ido embora. Entretanto estava lá um atleta brasileiro que tem um amigo em comum comigo (o ultramaratonista Ricardo Almeida), uma coincidência do caraças. Fizemos a promessa de terminar a prova, sei que ele terminou um pouco antes de mim.

E pronto. Saí da Portela e nesta fase estava em piloto automático. Lembrei-me de no ano passado me ter sentido melhor depois de descansar um bocado e aqui também aconteceu o mesmo. Ainda consegui correr um pouco da Portela para o Larano mas o meu corpo ia fazendo shutdown aos poucos, incluindo sono. A minha cabeça parecia o Windows XP quando se abriam muitas janelas e aplicações ao mesmo tempo. Já só conseguia andar e faltavam mais de 15km. Se fosse o meu primeiro MIUT teria desistido de novo, mas desta vez só queria colocar uma pedra no assunto. A etapa Larano – Ribeira Seca de quase 10km foi talvez a pior de trail running que me lembro de fazer na vida. À minha direita um precipício insondável no escuro, só lhe ouvia o mar cá em baixo. Uma vereda interminável. Ao longe via frontais de atletas e isso dava para adivinhar a escala. Interminável. A ser ultrapassado por atletas em catadupa, sem me conseguir mexer, com vertigens.

Por fim Ribeira Seca e os kms finais para Machico que fiz quase a correr, de tão impaciente que estava. Se a prova tivesse 170kms eu teria recuperado e feito uma classificação melhor. Lembrei-me da Ehunmilak, de como passei mal pelos 100km e aos 160 estava a voar. Acho que mais uma ou duas tentativas e afino um MIUT perfeito. Acreditei que fazia 23 horas e acabei com 26h e 42 minutos, classificação 382 em 787 atletas o que se insere na minha regra mental de ficar pelo menos a meio da classificação. O último fez 31h e 37 minutos. Mais de 200 desistiram.

Não sei se volto a repetir esta. Talvez pela Madeira, porque adoro a ilha e as paisagens e o MIUT pode ser um pretexto. Andei nos dias antes a carregar 50kg de equipamento fotográfico pelos trilhos e gostei. É uma coisa que me dá prazer, explorar. Sei que o trail running e as ultras me permitem fazer esse hike de forma mais eficiente e fácil por isso ambas as coisas estão ligadas. O ultra runner é um excelente caminhante e explorador. Já discuti isto com o amigo João que me diz o mesmo, que quando apenas andamos a pé pelo campo ou serra, sem a pressão de uma corrida ou de um treino, sentimos uma paz e liberdade, um relaxe, como se fosse muito fácil por comparação. Também sinto isso com a comida e a bebida. Nos dias seguintes a uma ultra, beber água fresca ou uma cerveja ou um sumo, uma boa refeição, sentado, confortável, parece que tem mais valor e uma intensidade maior.

Senti um enorme alívio. Este ano vou ter a Freita e o Mont Blanc. Para o ano estou a pensar na PT 281, Patagónia (ultra fjord) ou Monte Fuji ou Leadville 100… veremos o que vem aí 🙂

madeira2-1

Aqui a actividade no Strava: https://www.strava.com/activities/953833439

EDIT: obrigado sério, Primperan em vez de priberan

EDIT2: Esqueci-me de contar um episódio que me aconteceu e que o amigo João Miguel (que terminou pouco antes de mim) me relembrou no facebook. A certa altura num posto de abastecimento vejo uma mulher toda jeitosa com uma embalagem de fatias de presunto aberta. Não me fiz rogado, aproximei-me e fui para tirar o presunto e ela “ahh não é para si” e depois percebi que ela era acompanhante do marido ou namorado que estava sentado mesmo à frente e nao alguém da organização. Ele olhou para mim cheio de pena e lá me disse “vá, pode tirar, sirva-se”. E pronto, servi-me de uma fatiazinha e fui-me embora todo contente que a presunto dado não se olha o dente.

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