Abutres 2017 – relato

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Abutres, feitos. Tinha previsto entre 8 e 9 horas, fiz 8:32 tempo de chip.

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O dia amanheceu gelado em Miranda do Corvo. Fiquei no Hotel Parque Serra da Lousã (http://www.hotelparqueserradalousa.pt/alojamento-4-estrelas-no-interior-do-parque-biologico) que recomendo vivamente. O hotel é novo. Foram espectaculares ao deixarem os atletas hóspedes tomar banho no spa bem depois da hora do checkout e com um pequeno almoço fantástico às 6 am, incluindo bolachas e pacotes de coisas para levarmos para a prova. O hotel é bonito e parece-me um sítio a visitar com mais calma.

Choveu bastante dois dias anteriores mas durante toda a prova até pelo menos às 17h não choveu e até houve sol em vários momentos. Ao sairmos de Miranda começou a chover muito. Tendo em conta que a prova só acabava às 21h, os últimos atletas sofreram muito. Os Abutres (e o UTAX que é na mesma região) são famosos por doses maciças de lama. Esta também teve muita, mas nada de extraordinário comparado com edições passadas.

Pés com tape, o truque me livrou de bolhas até agora, depois da má experiência na UDP. A questão das bolhas torna-se crítica em pisos muito técnicos com pedras, especialmente descidas e com muita água e lama. Contudo o tempo esteve fresco e isso contribui para diminuir a probabilidade. Com tempo quente são bem mais prováveis. Estreia das Salomon Speed Cross 3 em corridas oficiais e foram a escolha certa. Vão fazer-me a primeira parte do MIUT. A sola é muito agressiva e ideal para fixar em paredes de barro liso e escorregadio. Também se livram da água depressa. Tive várias vezes o pé submerso em água e em lama até à canela.

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A serra da Lousã já conhecia do UTAX, embora noutros percursos. Achei o percurso dos Abutres mais interessante que o do UTAX. O do UTAX pareceu-me artificialmente inchado para fazer mais de 100km. Os Abutres tem tudo na medida certa, é um percurso que senti ser compacto.

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Estas florestas são muito húmidas, há riachos, cascatas, a terra é escura e lamacenta. É um tipo de paisagem pouco comum – digo eu – em Portugal. Os bosques lembram outras paragens mais a norte da europa. Recantos das florestas, os vales profundos, as aldeias, os rios e cascatas, a sensação de isolamento…

Aqui Gondramaz por onde passamos e abastecemos aos 39km.

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Caras conhecidas na partida, é uma prova que atrai os tops.

Fui sem bastões, conselhos do amigo Pedro Batista numa conversa de facebook que já fez isto duas vezes. E com toda a razão. Sou fã de bastões, mas nesta prova são uma má opção. É demasiado técnica. Em muitas situações os bastões são um obstáculo. Os trilhos são estreitos demais, há zonas técnicas em que precisamos das duas mãos, especialmente a descer. Foi a única prova até hoje que fiz em que posso dizer: bastões não.

O arranque deu-se, como é hábito, num ritmo absurdo. E o João deixamo-nos ficar para trás e a comentar um com outro a loucura dos entusiasmados. Impressionante como há atletas que aos 5km estão em grande esforço a trote em subidas quando ainda faltam 45km de prova e mais de 2500 metros de acumulado. É assim em todas as que vou, no MIUT fui eu que cometi esse erro e paguei com o meu DNF. Por vezes deixamo-nos levar e não queremos ficar na cauda da corrida. Mas aqui eu tinha medo de ter quebras enormes e por isso encarei a prova como um treino, indo ao meu ritmo, sem pressão de tempo. Aos 13km em Vila Nova estava na classificação 413 (em 600 atletas). Terminei em 303, apenas porque tive um ritmo estável durante toda a prova, não acelerei na segunda parte. Só não quebrei. Quase todos os atletas que passei tinham simplesmente quebrado e já não conseguiam correr bem em planou ou descidas normais. O segredo destas coisas é conseguirmos correr onde é para correr do princípio ao fim da prova num ritmo estável. Não é ganhar 2 minutos numa subida indo a trote em vez de andar nos primeiros 20km para depois fazer os últimos 20km passo de caracol  e a ver tudo escuro.

Não sou eu na foto, mas é só um exemplo do tipo de trilhos.

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Esta prova encaixou na perfeição no meu perfil, técnica nas duas descidas principais, com single tracks de sonho, alguns a obrigar a uma constante ginástica. Quem pensa que correr trail aqui é “correr” com as pernas… temos de usar os braços, passar debaixo de troncos, deslizar por pedras, saltar… Trilhos bem divertidos, parecia playstation. Tenho os ombros e os braços doridos.

Mas aqui talvez um dos pontos negativos esta prova: muita gente, especialmente quando se misturam os atletas dos 30km (dorsal verde) na parte final. Não sei como resolver isso, mas é chato não poder descer (ou subir) à vontade e ter sempre gente a atrapalhar o rimo por causa do medo. Sublinho medo. Numa prova normal o grupo estica e deixa de ser um problema, mas aqui com esta injecção de atletas dos 30km a meio da prova, vamos até ao fim a lidar com isso. O problema dos Abutres é que como é técnico, faz as pessoas bloquearem mentalmente com medo, e como os trilhos são mesmo muito estreitos, não é possível ultrapassar em grandes extensões a não ser com a cooperação do atleta ultrapassado e aqui  lidei com alguma falta de etiqueta de trail running, mais pronunciada nos atletas inexperientes. A maior parte não tinha problema em ceder a passagem mas houve excepções. Eu não sou forte nas subidas, pelo contrário, se não ganhar tempo a descer, torna-se complicado. Sou competitivo na minha escala. Corro contra mim. Não faço 500km num fim de semana e treino horas a fio para fazer hiking em família ou no convívio. Cedo passagem sempre por respeito aos objectivos e às provas dos outros. Por vezes atletas trocam de posição numa prova várias vezes e cooperam. Detesto sentir que estou a atrapalhar o ritmo de alguém, muito menos de um grupo de pessoas. Além disso gosto de ir depressa em descidas. Único ponto menos positivo, levou a situações de tensão em que me via forçado a travar e a pedir licença.

Gostei da organização da prova, extremamente bem sinalizada, tudo bem organizado, vê-se que é uma máquina bem rotinada. O percurso é inteligente e nunca chega a enjoar por ser repetitivo, embora aí entre na equação ter feito algumas provas de mais de 100km. Começamos a relativizar mentalmente e o que parece longo, vai tornando-se mais curto, o que parece difícil, torna-se simpático.

Não me aborreci em nenhum momento da prova, nunca tive a impaciência de “isto nunca mais acaba?” ou “nunca mais entro numa destas”.

Outro ponto, a qualidade dos abastecimentos é muito boa, assim como a prontidão dos voluntários. Recomendo sem reservas esta prova para qualquer pessoa que se queira estrear num trail mais longo e de qualidade. É superior a outros trails que fiz de distâncias parecidas ou menores. É um percurso inteligente e com sensibilidade e personalidade, com alma. A meta é gira, no pavilhão / mercado, cheio de gente.

Estou gordo para os padrões e senti mesmo esse peso, essa gordura, não ajuda nada… Mas fora isso, comi imenso e nunca tive uma quebra de energia grande. Fui constante e em paz. Hoje, dia seguinte, estou a 100% tirando uma dor no tornozelo direito de um entorse num treino a semana passada. Se a dor passar, a meio da semana já estou a treinar de novo.

O meu último km foi a 5:27/km em plano e contra vento, isto diz bem de como estava “bem”.

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Fazer um km a 5:27 depois de 8 horas e meia a mexer-me non-stop é fixe. Tudo porque vi uns tipos a correr lento e meti na cabeça que os passava e passei. O meu palpite é que numa prova de 100km ou mais teria feito uma boa classificação, no primeiro terço dos corredores. Não acabei na reserva. Acabei perto do meu amigo João, o que é raro há muito tempo, só uns 10 ou 15 minutos depois dele. Mas aí suspeito mais que ele esteve mais descontraído do que eu, que até comeu uma bifana e bebeu a mini no Posto de Vigia.

Senti-me muito feliz e emocional ao terminar, a prova é dura e exige uma concentração elevada o tempo todo, é raro dar para desfocar e viajar. Também tinha saudades da minha filha, precisava de tomar banho, meter-me no carro, voltar, ir ter com ela. Volta e meia pensava nela e acelerava. Foi um bom treino para o MIUT e tenho muita margem para melhorar, a começar pelo peso. Também foi o regresso ao trail desde a Ehunmilak. Não sei se volto a correr estrada, só se o trail me fizer ser maratonista sub 3h naturalmente, porque isto é bem melhor. Gosto cada vez mais de Portugal e dos nossos sítios.

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3 thoughts on “Abutres 2017 – relato

  1. Primeiro, parabéns pelo trail 🙂
    Segundo, perdoa a minha ignorância, mas andei a ler sobre essa situação de ‘ligar’ os pés com fita adesiva para evitar bolhas, mas o que tenho visto é fita adesiva daquela que se usa em pensos, normalmente aquela bege ou branca. A tua é azul e preta e, pelo menos pela foto, nem parece ter a mesma textura. É uma fita especial? Podes elaborar um pouco sobre isso por favor?

  2. vou reler este relato com atenção para ter noção do que me poderá esperar. quero ir aos abutres no próximo ano. aos 20 km, sou fraquinha. pelas classificações do ano passado dos 15 km e pela altimetria de 860m já anunciada, estou preparada para ficar em último. qualquer lugar acima já é uma vitória. tenho é de conseguir arranjar inscrição, isso pelos vistos é sempre um filme, né?

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