crónica de uma morte anunciada (Maratona do Porto 2016)

Desisti pouco antes do km 30.

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Aquilo de que os kamikazes são feitos. A minha desistência começou há 4 meses quando achei plausível fazer sub 3h. Essa impressão, talvez fruto da euforia de ter feito a minha primeira de 100 milhas ou ter feito duas maratonas de estrada em 4h e 3h30 levou-me a inscrever-me na maratona do Porto de 2016, pensando que poderia fazer sub 3h.

Eu conto fazer talvez mais 3 maratonas de estrada até ao fim da minha vida. São muito duras e não me dão prazer especial, embora sejam marcantes (já lá vou) a nível de evolução. Depressa percebi que não faria sub 3h, e pensei em sub 3h15, embora algo contrariado. Não me teria inscrito sabendo-me tanto no limite de conseguir tirar “apenas” quinze minutos. Treinei 4 meses fazendo o plano de maratona nível 3 (avançado) da garmin, envolvendo treinos bi-diários e muita insistência em velocidade e lactate treshold, na capacidade do corpo ter endurance para aguentar regimes fortes.

A verdade é que todos os testes que fiz me disseram que não conseguia fazer sub 3h15. E até no dia da maratona, naquela manhã fria, linda e solarenga no Porto, ponderei, discuti comigo mesmo e com o amigo Pedro Paulino que também foi, se devia ir para algo como 3h20.

Nota: para fazer uma maratona sub 3h15 o pace por km é 4:35. Para fazer próximo de 3h20 o pace é uns muitos mais lentos 4:45… uns míseros 10 segundos por km.

O meu raciocínio construiu-se em:

  1. eu não me teria inscrito se me tivessem dito que ia fazer 3h20.
  2. eu eventualmente vou fazer uma maratona abaixo de 3h num ponto qualquer da minha vida
  3. eu não vou aprender nada de novo se correr dentro dos meus limites
  4. Acredito em milagres, sou uma pessoa espiritual.

Estas  4 premissas fizeram-me decidir por tentar 4:35/km. Sub 3h15. Parti do portão A, reservado ao pessoal mais sério que faz menos de 3h15 e as boas notícias é que nem uma vez me senti atrapalhado (numa maratona com 5000 participantes é uma boa notícia). As más notícias é que durante todo o tempo em que corri não ultrapassei quase ninguém, pelo contrário.

Fui com o monitor cardíaco. Penso que 588 é o meu suffer score mais alto de sempre. Estive 30 minutos no total em anaeróbico, com a frequência acima de 173, a fronteira objectivamente medida nos testes de lactato que fiz antes da ehunmilak.

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Não sou propriamente inexperiente nas maratonas e na corrida de estrada. As sensações que tinha no corpo e o relógio diziam-me claramente que era um ritmo insustentável. Mas consegui apanhar o pacer das 4:35. Os kms 2,3 e 4 fiz a 4:29, 4:20 e 4:15 para o apanhar. O meu coração já ia disparado. Era absurdo para mim. A minha maratona anterior tinha sido feita a 5:00/km. Estava com a sensação de ir a sprintar. O meu coração a 175bpm quando para ser realista acabar a prova não devia ir a mais de 165 nesta fase da prova, idealmente nos 150s…

Então por que razão não abrandei logo? Se calhar porque mesmo assim continuei a acreditar num milagre e estava a gostar de ir naquele pelotão das sub 3h15. Acabando em menos de 3h15 fica-se nos primeiros 500 corredores de uma maratona de 5 mil corredores. Estava a tentar distrair-me do sofrimento vendo o magnífico Douro, as pessoas a aplaudir, o céu azul, Porto, Gaia, detalhes pequenos…  E acreditei até ao km 16. Altura em que me comecei a afastar-me do pelotão e a ficar exposto ao vento contra. Aí tomei a decisão de esquecer as sub 3h15 ou nem acabava, mas foi tarde demais.

O choque psicológico de ver o grupo a afastar-se, e isto quando só reduzi 10 segundos por km, foi duro.

Depois veio a parte mais dura do percurso, o cais de Gaia. Um empedrado muito grosseiro e anguloso, pedras enormes sobressaídas, um piso completamente assassino para as minhas new balance minimais, mas que teria sido assassino com qualquer calçado de estrada. Grande parte dos corredores seguia pelos passeios no meio das pessoas quando se podia. Empedrado normal já custa bastante, mas quando as pedras estão todas desconjuntadas é tortura. Comecei a sentir bolhas nos dois pés. Por fim quando saí do empedrado tinha feito os últimos 2km a cima dos 5:00 e estava cheio de dores. A faltar 12km ainda, com dificuldades já para me manter nos 5:00/km, adivinhei um calvário brutal para fazer 3h25 na melhor das hipóteses.

Reflecti pouco tempo, não foi preciso pensar muito e encostei à box. Não teve qualquer efeito psicológico danoso.  Estou de facto mais rápido e não tive uma desilusão porque não tive propriamente uma ilusão antes.

De caminho tirei seis minutos à minha anterior meia maratona e mais uns quantos recordes.

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Dei tudo o que tinha até bater num muro e isso também foi importante. Ao contrário da minha desistência no MIUT, aqui não houve factores como enjoos e afins. Só esteve em jogo uma variável: o ritmo imprimido por mim. Confirmei certos limites e isto serve de referência. O shutdown nesta prova deu-se ao nível das pernas, ficaram cansadas e rígidas, sem força.

Só me volto a inscrever numa maratona quando tiver mais a certeza do tempo que posso fazer. O ideal é fazer mesmo uns testes, ver o que acontece, e se achar relevante inscrever-me, inscrevo-me. Isso não vai acontecer até eu pulverizar 3h15. Pode ser daqui a 2 anos, 3, 4… não sei.

Não me arrependo de me ter inscrito. A estrada permite uma evolução muito forte. Aprendi algo importante que esteve também na base da minha menor evolução em estrada de 2014 para 2016. Corri estrada sempre a pensar em ultras e trail. Não treinei velocidade nos pontos críticos que o plano de maratona de nível 3 trabalha e quero ver se mudo isso. O

Mas até Abril já tenho dois objectivos bem mais divertidos. E o meu plano para eles, inventado por  mim, terá por base 2 treinos semanais chave, o longão do costume com muitas horas e muito desnível em sintra baseado em variações do STE (25-30km com 1500m de desnível) e, novidade, um de séries / velocidade / rampas. Os outros treinos da semana havendo tempo serão só para meter kms em muito baixa intensidade. Mas mesmo muito baixa, para permitir a recuperação e regeneração destes 2 treinos chave.

Venha 2017!

abutresmiut2017