Apreensão

Estou muito apreensivo para a Ehunmilak. Amanhã tentarei fazer um treino longo de 55km e mais de 3000m de desnível em sintra, com duas voltas ao STE XXL a partir do Penedo, infelizmente sozinho porque o João estará fora e para a semana ele treina mas eu tenho a filha. Serão mais de 8 horas acho eu.

Acho que vou conseguir por teimosia pura, mas confesso que estas coisas deixam marca e só consigo passar por isto porque é a última ultra de trail do ano, depois é preparar a maratona do Porto. Podia ir pescar algures, surfar, praia, estar descontraído e todo um sábado vai ser torrado num treino que nem sequer é divertido e que ainda tem o detalhe de ter dois loops no mesmo percurso.

A apreensão é porque não sinto nenhuma melhoria significativa face ao MIUT e no MIUT rebentei aos 7400m e 98km. Posso ter aprendido coisas novas a nível de enjoos e nutrição e ritmos… posso ter ficado mais humilde (para o MIUT quis estar sempre no redline) e ter uma postura muito mais de “quero sobreviver, chegar ao fim”. Mas não me acho um atleta fisicamente diferente para melhor. Não ajuda ter ganho mais um quilo, ter um entorse no pé esquerdo.

Estou psicologicamente mais forte e experiente, mas a nível físico, a confiança que tinha depois do sucesso do UTAX, esfumou-se. A ehunmilak vai ser um exercício de paciência e autodomínio extremo. De perseverança.

No último treino em sintra experimentei uma coisa: contar até 168km, os km da ehunmilak, como um mantra. 1 km, 2 km, 3 km, 4km… cadenciado pela passada.

Meti na cabeça que se não conseguisse acabar a contagem nos 168 não ia acabar a corrida.

Fiz três séries de contagem até 168 e surpreendeu-me quanto tempo demorava a contar até 168 quando coordenado com os pés e braços e visualizei a ultra em fast forward: 1km, 2 km, 3km…

Mas a subida que estava a fazer passou rápido no meio disto. Não foi o único exercício que experimentei. Outro foi concentrar-me ao máximo em qualquer detalhe. Uma flor, a casca de uma árvore, uma nuvem. Tentar ter um modo de maravilhamento e atenção, estar completamente receptivo e curioso ao meu ambiente. Não ajuda correr em trilhos que já corri dezenas de vezes, mas o treino é isso. Sem dúvida que nas ultras temos um boost mental brutal que elimina o tédio – nunca senti tédio numa ultra, nunca! – ver uma paisagem nova, não saber o que está para lá de uma curva, do topo de uma montanha.

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