MIUT 2016 – DNF às 22:40 de prova

Este post não é ainda o “relato épico” que estou a preparar. É uma análise fria do que se passou. Cerca do km 98 desisti no posto de controlo da Levada essencialmente por motivos de enjoo forte sempre que corria. Andar era tolerável, mas correr não e isto na parte mais rolante do percurso. Também fui para lá constipado, passei a prova com o nariz a correr.

O enjoo, que começou pelo km 45, impediu-me de ingerir o perpetuem que tinha preparado. De 6 garrafas, cada uma para 4 horas, consegui beber apenas uma. Isso obrigava-me (pensei eu) a ter de comer mais nos abastecimentos para compensar, o que por sua vez levou a misturadas e às tais náuseas. Nunca tinha tido problemas destes, embora já tivesse tido intolerância ao sabor do perpetuem quente em dias muito quentes. Podia ter tido na Transvulcania ou na UDP, mas todas essas provas foram comparativamente bem mais curtas, pelo que podia sobreviver sem calorias.

O meu ritmo estava a ser bom e ia para pelo menos 23-24 horas de prova como previ. No CP10, aos 90km, no Poiso, já muito dentro do mal estar e muito fraco, ia em 244º (580 na partida). No Curral das Freiras (60km) ia em 212. Quando desisti nem me apercebi que tinha tanta gente atrás, mas o certo é que estava a ser ultrapassado constantemente e ia terminar numas 26 horas.

A decisão foi tomada no caminho para o Larano. Foi muito pacífica. No UTAX mentalizei-me que queria ser finsher dos 112km e a vitória era conseguir isso. Foi conseguido. No MIUT disse sempre que queria pensar em termos competitivos e fazer uma boa prova, conseguindo correr em plano e descidas até ao fim. Desisti já depois do desnível positivo todo e na parte mais rolante do percurso. Não conseguia correr sem ter vontade de vomitar. Estava rebentado, mas a frustração de não consegui correr sem enjoar irritou-me. A partir daqui não me interessa acabar a qualquer custo e sendo de noite, estava apenas a sujeitar-me a um tédio abissal, ser sempre ultrapassado e um desgaste extra nas descidas.

Enquanto esperava pelo transporte, fui vendo vários corredores a passar por aquele posto bem depois de eu desistir e a continuarem. Respeito. Houve quem acabasse com 31 horas. Não me arrependi, mas ficou claro que eu desisti e eles não. Se não fico com a menor azia foi porque o MIUT ganhou limpinho.

Acreditem, foram os 98km mais duros da minha vida. Foi a coisa mais dura que já fiz. O que fiz mete num canto tudo o que já fiz antes mesmo que não diga finisher, pois sempre foram 98k e mais de 7000 de desnível hiper técnico. A prova é demolidora. É super técnica, os pés sofrem muito (tenho 7 unhas negras – o máximo que tive foi uma). Os desníveis a pique são comuns e obrigam a um desgaste enorme. Por exemplo, o km 60 inclui 270 metros em 1000 metros. É um desnível médio de 27%. Existem desníveis equivalentes nas descidas. Estes desníveis provocam um desgaste tremendo. Dei três quedas, eu que só caí mesmo no fim do UTAX. Uma das quedas foi algo aparatosa e quase rebolei para fora do trilho por uma arriba abaixo, ficando agarrado a ramos e raízes. À terceira queda ganhei medo e diminuí a velocidade, perdi a confiança sempre que o terreno tinha lama e madeira. E mete  vertigens.

Coisas que correram mal / lições

  1. Tenho de ter mais dias dedicados a preparar a logística. Fui com excesso de confiança. Tenho de perceber quanto tempo entre postos, quanta água, temperaturas expectáveis etc. Comprei sapatilhas a poucos dias da prova. Demasiado improviso.
  2. Em provas muito longas não posso depender apenas do perpetuem. Falha isso, falha tudo. Resulta em provas “curtas” (8-12 horas). Tenho de levar sempre variedade e redundância, especialmente no drop bag deve haver lá alternativas. Vou ter de estudar este tema a tempo da ehunmilak ou estou lixado.
  3. Os calções assaram-me os tomates. Não foi a primeira vez mas mesmo assim levei-os. Encontrar alternativas. E levar sempre vaselina. SEMPRE
  4. Arranjar um melhor sistema de compartimentação das coisas (ex: vaselina, fita adesiva, medicamentos, bateria etc.) em sacos resistentes. O fecho zip dos meus deixou de funcionar e ainda bem que não choveu ou ficava sem telemóvel. Confusão total devido ao equipamento obrigatório.
  5. Levar mais água. Falhou-me a água umas 3 vezes, não desidratei porque um casal de hikers me deu 500ml de água ou tinha ficado por ali. Foi completamente erro de cálculo e ir mentalizado que estaria frio ou que demorava menos a chegar ao próximo posto.
  6. Vestir de acordo com a temperatura. No início sofri logo excesso de calor. Avisaram que ia estar muito frio e esteve, mas só umas 2 horas depois. Vestir de acordo com o que se sente no momento. Depois atinei, mas passei mal nos primeiros kms, estupidamente.
  7. Não vale a pena acelerar no início, não é assm tão dfícil ultrpassar nos primeiros kms, embora tenha feito bem em arrancar com o pessoal da frente.
  8. Quando tiver enjoos e não consumir o que trago comigo, a solução é esperar e não forçar a ingestão de calorias com misturadas. Mais vale fazer skip a 1 abastecimento e esperar, do que perpetuar o enjoo ao tentar engolir comida, pois o que sucede neste último caso é que nunca fazemos um reset ao sistema e não saímos do loop comer – enjoo – comer – enjoo.

Coisas que iriam sempre correr menos bem / lições

  1. Primeira parte da prova justifica sapatilhas tipo soft ground / fellcross em caso de chuva. Extremamente escorregadio o percurso, caí 3 vezes. As partes rolantes só surgem no fim. Em caso de chuva na prova ou dias anteriores, primeira parte deve ser feita com sapatilha técnica, 2ª parte sapatilha mais confortável e rolante.
  2. O meu nível era UTAX. O MIUT está acima de mim no sentido em que não consegui fazer uma prova a sentir-me ok, mesmo que não tivesse cometido aqueles erros e mesmo que não tivesse enjoado. Foi demasiado duro. Não treinei desnível suficiente. Claro que ninguém faz os 115km a sentir-se feliz e leve, mas há um certo equilíbrio.

Coisas que correram bem:

  1. A prova é magnífica, a paisagem incrível. Inacreditável.E valeu mesmo a pena.
  2. Percorri quase 100km do MIUT e estudei bem o percurso. Para o ano tenho essa experiência que é crucial acho eu.
  3. Não tive bolhas e aqui tinha todos os motivos para ter, pois rapidamente os pés ficaram molhados e com um bolo de lama seco tipo forno como no UTAX. Ao km 60 no Curral troquei fitas, sapatilhas e meias. Vi que os meus pés tinham os sintomas pré-bolhas, a pele engelhada, a comichão ou ardor em certos pontos. Bastou limpar, secar e colocar tudo seco e fofinho. Fui rápido nisso, pelo menos preparei as fitas na véspera, já cortadas com os tamanhos certos. Só voltei a ter lama ou água já no km 90 e tal.
  4. Foi no Pico Ruivo que pensei desistir e continuei. Continuei porque tinha viajado até ali, porque conseguia andar sem vomitar. Porque gostava da paisagem e achei que valia a pena fazer mais um pouco. E porque queria testar até onde era capaz de ir sem comer quase nada e estudar isso para futuras experiências semelhantes e não entrar em pânico.

 

E agora, vem aí a Ehunmilak…

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5 thoughts on “MIUT 2016 – DNF às 22:40 de prova

  1. Mesmo sendo DNF, estás de parabéns 🙂 Para a próxima corre melhor, tenho a certeza! E fico à espera do relato épico, sim? 😀

  2. Qual a razão de levares 1 garrafa para 4 horas? Se for de 500ml, não será muito concentrado? Eu uso 500ml para 1 hora. O problema é que assim não bebo água limpa, apenas perpetuem, o que também pode levar a enjoo.
    Eu consegui suportar o perpetuem até ás 15/16h de prova. A partir daí como percebi que estava a enjoar o sabor comecei aos poucos a beber água e a comer uma barra, para fazer a transição para comida sólida. Correu bem porque até ao final consegui comer bem.
    Pensei exatemente o mesmo relativamente ao tipo de sapatilhas a utilizar numa próxima (apesar de achar que não vai haver).

    1. Eu preparo as garrafas antes, encho garrafas de 500ml com pó para 4 horas, por ser mais prático e ocupar menos volume. Uma garrafa leva água logo na partida e as outras duas vão secas na mochila, dando-me o suficiente para 12 horas ou mais. Vou enchendo outra de 500ml com água pura em todos os postos. Há quem use uma concentração mais elevada ainda. Prefiro separar a hidratação das calorias. Parabéns pela prova! 🙂

  3. OK, tudo registado.
    Agora uma questão: como é que vais conseguir treinar ainda mais desnível com a tua agenda? E esta pergunta é também um bocadinho para mim. Bom, eu tenciono meter mais t0 em Monsanto mas não é à custa de cozidos que se fazem provas deste nível, quer-me parecer.

    1. Tenho de conseguir. Em Monsanto vou usar um loop de desnível mais forte do lado da Prisão – Benfica. Mas o problema desta vez foi também ter desistido de 1 treino em Sintra, só lá ia de 15 em 15 dias. Vou fazer um post sobre isso agora.

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