Salomon Speed Cross 3 vs New Balance Leadville 3

As minhas últimas aquisições para o arsenal pessoal consistiram nas Salomon Speed Cross3 e as New Balance Leadville 3. Antes de mais, dizer que o meu padrão até agora são as La Sportiva Ultra Raptor e todas as sapatilhas são avaliadas vs as Ultra Raptor.

As minhas raptors vão com 800km e senti já na “estrutura” da sapatilha alguma folga, tendo frequentemente de ajeitar a patilha da frente porque tende a descair para a direita sobre o tornozelo, algo referido por outros users. Dito isto, foi com elas que fiz a 2ª parte do MIUT e tive zero problemas com elas, embora fosse também a parte menos técnica.
Fiz um treino de 10km e os primeiros 60km do MIUT nas Leadville.
leadville 3

As Leadville são à partida o protótipo da minha sapatilha de trail preferida. São muito pão pão queijo queijo. Óptimas para correr em 95% das condições de trail em Portugal em que o piso, mesmo o técnico, se caracteriza por ser duro. O interior é muito confortável, pesam um pouco menos de 300gr, a diferença é grande para as raptor. Os atacadores têm um sistema que os fixa bem e nunca temos de ajustar. A patilha é muito fina dando a sensação e “luva”. Parecem-me muito sólidas. Gosto do perfil discreto dos lugs da sola vibram em borracha aderente e de boa qualidade. Não oferecem o mesmo nível de protecção das raptors. É impossível comparar, mas tive 7 unhas negras na primeira parte. Pode ser de serem quase novas. O tamanho 44 era ideal. Talvez as tivesse mal ajustadas, mas o mais provável é só o MIUT ser uma besta para os pés e eu ser um menino.

No fim da prova (DNF) fiquei convicto que as Leadville teriam sido óptimas para a 2ª parte do percurso, menos técnico, com um final rolante e sem lamas. Na primeira parte pensei na sola das north face em goretex que uso em monsanto para treinos curtos pois é bastante minimalista e dura e demasiado quente, mas que tem uns lugs violentos que agarram em barro escorregadio.

Ontem fui à Decathlon arranjar a bicicleta e comprar material de corrida e vi as Speed Cross 3 a um bom preço, um pouco abaixo dos 100 euros. Com preciso de mais um par (as Cascadia 10 desfizeram-se ao fim de 400km) acabei por experimentar. Nunca pensei sequer dar uma chance a algo com sola assim (venho de estrada apesar de tudo) e já tive duas más experiências com Salomon, mas experimentei e gostei Isto teria sido a sapatilha para a minha primeira parte do MIUT e as leadville para a 2ª. Dei várias quedas e escorreguei muito em lama. Massacrei os pés e não tive praticamente partes rolantes em piso duro.

speedcross

Não sei se isto teria evitado o massacre que senti com as Leadville, os pontapés em pedras, as torções brutais, a precisão necessária, a submersão em lama gelada, etc.

Tenho lido relatos da Ehunmilak e já percebi que há semelhanças e queixas parecidas. Lama, piso escorregadio, desníveis enormes, piso muito duro e rochoso… 11 mil de desnível que dizem ser mais técnico que o Mont Blanc. Em qualquer caso irei ao MIUT para o ano, por isso, vou já quebrando e domesticando quer as leadville, quer as speedcross.

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mudanças no treino

Para a  Ehunmilak daqui a menos de 3 meses, algumas coisas vão ter de mudar. No MIUT mesmo sem a parte dos enjoos, senti-me muito destruído. Pensei que a prova me estava a correr muito pior do que na realidade estava, mesmo quando ia nos primeiros 30% de classificados, a sensação era a de estar a fazer uma péssima prova. Avançava lentamente e ao fim de 30-40km tinha já os quadricípetes bastante doridos.

Preciso de concentrar ainda mais desnível. O que o MIUT exigiu e a Ehunmilak vai exigir é força para subir e descer do princípio ao fim da prova, sem destruir os meus pés.

Mudanças:

  1. Já estou a tratar de uma avença num parque de estacionamento no trabalho. Vou de carro. Vou de carro porque depois posso ir directamente para monsanto ou sintra. Vou tentar ir a Sintra pelo menos 2 vezes por semana. Preciso de fazer um longão por semana. Nem que seja numa 4ª ou 5ª feira das 19h às 23h depois do trabalho em Sintra. E preciso de meter + um treino lá por semana de pelo menos 90 minutos só numa rampa a pique, técnica, para treinar subida e down-hill.
  2. Esquecer os km’s. Pensar em metros de desnível e horas. Tenho alguns percursos pensados em Monsanto, do lado da prisão – benfica consigo uns loops com desnível técnico
  3. Mais back to backs. Dois treinos duros ao fim de semana.

Em sintra consigo ter um loop com um grade de 22% perto da barragem do rio da mula onde posso deixar o carro. 1h aqui podem valer mais que 4 treinos no meu bairro.

MIUT 2016 – DNF às 22:40 de prova

Este post não é ainda o “relato épico” que estou a preparar. É uma análise fria do que se passou. Cerca do km 98 desisti no posto de controlo da Levada essencialmente por motivos de enjoo forte sempre que corria. Andar era tolerável, mas correr não e isto na parte mais rolante do percurso. Também fui para lá constipado, passei a prova com o nariz a correr.

O enjoo, que começou pelo km 45, impediu-me de ingerir o perpetuem que tinha preparado. De 6 garrafas, cada uma para 4 horas, consegui beber apenas uma. Isso obrigava-me (pensei eu) a ter de comer mais nos abastecimentos para compensar, o que por sua vez levou a misturadas e às tais náuseas. Nunca tinha tido problemas destes, embora já tivesse tido intolerância ao sabor do perpetuem quente em dias muito quentes. Podia ter tido na Transvulcania ou na UDP, mas todas essas provas foram comparativamente bem mais curtas, pelo que podia sobreviver sem calorias.

O meu ritmo estava a ser bom e ia para pelo menos 23-24 horas de prova como previ. No CP10, aos 90km, no Poiso, já muito dentro do mal estar e muito fraco, ia em 244º (580 na partida). No Curral das Freiras (60km) ia em 212. Quando desisti nem me apercebi que tinha tanta gente atrás, mas o certo é que estava a ser ultrapassado constantemente e ia terminar numas 26 horas.

A decisão foi tomada no caminho para o Larano. Foi muito pacífica. No UTAX mentalizei-me que queria ser finsher dos 112km e a vitória era conseguir isso. Foi conseguido. No MIUT disse sempre que queria pensar em termos competitivos e fazer uma boa prova, conseguindo correr em plano e descidas até ao fim. Desisti já depois do desnível positivo todo e na parte mais rolante do percurso. Não conseguia correr sem ter vontade de vomitar. Estava rebentado, mas a frustração de não consegui correr sem enjoar irritou-me. A partir daqui não me interessa acabar a qualquer custo e sendo de noite, estava apenas a sujeitar-me a um tédio abissal, ser sempre ultrapassado e um desgaste extra nas descidas.

Enquanto esperava pelo transporte, fui vendo vários corredores a passar por aquele posto bem depois de eu desistir e a continuarem. Respeito. Houve quem acabasse com 31 horas. Não me arrependi, mas ficou claro que eu desisti e eles não. Se não fico com a menor azia foi porque o MIUT ganhou limpinho.

Acreditem, foram os 98km mais duros da minha vida. Foi a coisa mais dura que já fiz. O que fiz mete num canto tudo o que já fiz antes mesmo que não diga finisher, pois sempre foram 98k e mais de 7000 de desnível hiper técnico. A prova é demolidora. É super técnica, os pés sofrem muito (tenho 7 unhas negras – o máximo que tive foi uma). Os desníveis a pique são comuns e obrigam a um desgaste enorme. Por exemplo, o km 60 inclui 270 metros em 1000 metros. É um desnível médio de 27%. Existem desníveis equivalentes nas descidas. Estes desníveis provocam um desgaste tremendo. Dei três quedas, eu que só caí mesmo no fim do UTAX. Uma das quedas foi algo aparatosa e quase rebolei para fora do trilho por uma arriba abaixo, ficando agarrado a ramos e raízes. À terceira queda ganhei medo e diminuí a velocidade, perdi a confiança sempre que o terreno tinha lama e madeira. E mete  vertigens.

Coisas que correram mal / lições

  1. Tenho de ter mais dias dedicados a preparar a logística. Fui com excesso de confiança. Tenho de perceber quanto tempo entre postos, quanta água, temperaturas expectáveis etc. Comprei sapatilhas a poucos dias da prova. Demasiado improviso.
  2. Em provas muito longas não posso depender apenas do perpetuem. Falha isso, falha tudo. Resulta em provas “curtas” (8-12 horas). Tenho de levar sempre variedade e redundância, especialmente no drop bag deve haver lá alternativas. Vou ter de estudar este tema a tempo da ehunmilak ou estou lixado.
  3. Os calções assaram-me os tomates. Não foi a primeira vez mas mesmo assim levei-os. Encontrar alternativas. E levar sempre vaselina. SEMPRE
  4. Arranjar um melhor sistema de compartimentação das coisas (ex: vaselina, fita adesiva, medicamentos, bateria etc.) em sacos resistentes. O fecho zip dos meus deixou de funcionar e ainda bem que não choveu ou ficava sem telemóvel. Confusão total devido ao equipamento obrigatório.
  5. Levar mais água. Falhou-me a água umas 3 vezes, não desidratei porque um casal de hikers me deu 500ml de água ou tinha ficado por ali. Foi completamente erro de cálculo e ir mentalizado que estaria frio ou que demorava menos a chegar ao próximo posto.
  6. Vestir de acordo com a temperatura. No início sofri logo excesso de calor. Avisaram que ia estar muito frio e esteve, mas só umas 2 horas depois. Vestir de acordo com o que se sente no momento. Depois atinei, mas passei mal nos primeiros kms, estupidamente.
  7. Não vale a pena acelerar no início, não é assm tão dfícil ultrpassar nos primeiros kms, embora tenha feito bem em arrancar com o pessoal da frente.
  8. Quando tiver enjoos e não consumir o que trago comigo, a solução é esperar e não forçar a ingestão de calorias com misturadas. Mais vale fazer skip a 1 abastecimento e esperar, do que perpetuar o enjoo ao tentar engolir comida, pois o que sucede neste último caso é que nunca fazemos um reset ao sistema e não saímos do loop comer – enjoo – comer – enjoo.

Coisas que iriam sempre correr menos bem / lições

  1. Primeira parte da prova justifica sapatilhas tipo soft ground / fellcross em caso de chuva. Extremamente escorregadio o percurso, caí 3 vezes. As partes rolantes só surgem no fim. Em caso de chuva na prova ou dias anteriores, primeira parte deve ser feita com sapatilha técnica, 2ª parte sapatilha mais confortável e rolante.
  2. O meu nível era UTAX. O MIUT está acima de mim no sentido em que não consegui fazer uma prova a sentir-me ok, mesmo que não tivesse cometido aqueles erros e mesmo que não tivesse enjoado. Foi demasiado duro. Não treinei desnível suficiente. Claro que ninguém faz os 115km a sentir-se feliz e leve, mas há um certo equilíbrio.

Coisas que correram bem:

  1. A prova é magnífica, a paisagem incrível. Inacreditável.E valeu mesmo a pena.
  2. Percorri quase 100km do MIUT e estudei bem o percurso. Para o ano tenho essa experiência que é crucial acho eu.
  3. Não tive bolhas e aqui tinha todos os motivos para ter, pois rapidamente os pés ficaram molhados e com um bolo de lama seco tipo forno como no UTAX. Ao km 60 no Curral troquei fitas, sapatilhas e meias. Vi que os meus pés tinham os sintomas pré-bolhas, a pele engelhada, a comichão ou ardor em certos pontos. Bastou limpar, secar e colocar tudo seco e fofinho. Fui rápido nisso, pelo menos preparei as fitas na véspera, já cortadas com os tamanhos certos. Só voltei a ter lama ou água já no km 90 e tal.
  4. Foi no Pico Ruivo que pensei desistir e continuei. Continuei porque tinha viajado até ali, porque conseguia andar sem vomitar. Porque gostava da paisagem e achei que valia a pena fazer mais um pouco. E porque queria testar até onde era capaz de ir sem comer quase nada e estudar isso para futuras experiências semelhantes e não entrar em pânico.

 

E agora, vem aí a Ehunmilak…

tempo previsto para o MIUT

 

MIUTNão está fácil prever um tempo para o MIUT. A minha aposta para já é tentar bater as 24h. Tenho visto com cuidado as classificações e tempos de 2015. A prova tem algumas alterações, mas nada de muito significativo no contexto dos 115km. Conheço alguns dos atletas que fizeram em 2015 ou então sigo-os no strava. Isso dá para os comparar comigo e assim ter uma ideia do tempo que posso fazer. Se fosse por mim, apostaria em praticamente o mesmo tempo que o UTAX (é o objectivo do meu amigo João LP que vai comigo), ou seja, 21h30. Eu diria que estou mais forte do que antes do UTAX e que isso podia compensar os 3km e +1000m adicionais de desnível. Além disso no UTAX cai uma chuvada extrema, progredi muito lentamente em lama e demorei uma meia hora ou mais no abastecimento de muda de roupa que, a meu ver, não tinha condições num dia com chuva assim. Claro que na Madeira outras coisas poderão correr mal. Tenho de ter muito cuidado com a hidratação e com a passada flexível e curta para evitar bolhas.

Dito isto, se fosse avaliar pelos tais tempos de finisher de pessoas que conheço, eu diria que 24-25 horas é o mais plausível e não 21:30. Por exemplo, o Bruno Fernandes terminou o “meu” UTAX em 17h (e ainda se enganou no caminho perdendo uma eternidade), ou seja, 4h30 antes de mim, e se terminou o MIUT 2015 em 19h30, bate certo com as tais 24h para mim. Vendo resultados de outros atletas que sigo, as coisas também andam mais ou menos por ali.

Se conseguir fazer perto de 24h já ficava bem acima da média, top 35%-25% da classificação, o que numa prova destas era excelente. O estranho é que no UTAX eu acertei em cheio, disse que demoraria 21-22h e fiz 21:38. Talvez parte da “ilusão” advenha de não perceber bem as primeiras 2 subidas em que não é possível ultrapassar e se pode perder muito tempo?

alvorada

Ouvia há momentos a faixa Cherry de Ratatat e percebi que me estava a transmitir uma emoção familiar, a da alvorada depois de uma noite passada a correr durante uma ultra. Envolve um nascer do sol num sítio geralmente espectacular e vem-se do frio e do escuro para o calor e luz. É psicologicamente muito forte. Podia falar no efeito oposto que é o da 2ª noite. Só apanhei um pouco no UTAX, não chegou a fazer mossa. Na Ehunmilak é que vai ser pesado…

semanas de 100k e treinar como se pode

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A última vez que consegui 2 semanas a rondar os 100km foi em abril do ano passado antes da Transvulcania, mas aí tirei 2 semanas de férias, todas dedicadas à corrida. Tendo mais dias com a minha filha (5 dias em 7), ponho o objectivo nos 50km e é difícil cumpri-lo, mas consegui. Tendo menos dias com a minha filha (2 em 7) consegui por duas vezes rondar os 100. Tudo isto com a contribuição de salpicos de 1 a 3km a correr / andar com roupa à civil, mochila com 5kg de máquina fotográfica e lente ou a empurrar um carrinho de corrida com um bebé lá dentro. Ainda há muito a melhorar. Penso que há um salto seguinte, mas não o quero fazer já, e inclui usar equipamento de corrida para ir de casa para o trabalho e vice-versa, pois a roupa à civil já é demasiado quente e abrasiva e pela minha estimativa chego tão depressa como de transportes.

O treino de hoje foi duro. Foram 10km muito penosos pois estou com deficit de sono (não dormi praticamente nada) e muito cansado do treino de 4h30′ de ontem. É curioso como são estes treinos os mais duros. Podia ter ficado quieto, mas quis passar os 100. Muito vento. Custou a passar. Não tenho pontadas de lesão nenhuma, mas preciso de dormir 100 horas.

últimos dias, check up

Vamos estar a duas semanas do MIUT. Amanhã farei o último treino, um ste remix xl (30km +-1850m desnível). Estou bem, excepto uma esfoladela na virilha gerada por ter andado uma hora com boxers de algodão e que me deixou uma ferida em carne viva que se está a revelar muito complicada de cicatrizar, especialmente com os treinos, devido ao suor e sal. Um penso que a proteja de fricção ao andar não permite boa circulação de ar e isso atrasa a secagem e cicatrização. Já encontrei o método, consiste em andar nu em casa ou, no limite, com calças largas de fato de treino, sem nada por baixo. Sexy e eficaz.

Na mão, uma queimadura de 2º grau, salpiquei-me com água a ferver. Uma estupidez. Não tem aparentemente qualquer problema para a correr, amanhã logo vejo se incomoda por causa dos bastões.