chegámos aqui

Depois da fase de lua de mel com a corrida, deixei de pensar nela tanto. Mas não deixei de correr, a minha média até agora até está cima do ano passado e com substancialmente mais desnível. Pensei nisso ontem durante o longo treino de 30km e +1800m por Sintra. 4h30’ a viajar por trilhos, a correr em todas as descidas, a flutuar por cima de terreno irregular..

Quando a transformação se completa, perdemos a noção das mudanças que ocorreram. É como ir viver para um bairro novo e a pouco e pouco ele torna-se familiar e já não o comparamos com o anterior em que vivíamos e ele já não nos surpreende tanto. Não que deixemos de gostar do bairro, se calhar até gostamos mais. Simplesmente, torna-se parte de nós.

Até agora foram 3 anos em que passei de praticamente sedentário em que não aguentava 5km a ultramaratonista. E foi uma transformação sofrida. Mas esqueci-me desse sofrimento todo. Só me lembro quando me perguntam.

Esqueci-me das sucessivas lesões nos joelhos, ao ponto de ter pensado desistir de correr, e que me faziam coxear e descer escadas degrau a degrau, agarrado ao corrimão. Esqueci-me que urinei sangue ou que tive uma micruptura no diafragma dos impactos de correr na lava dura do Cami de Cavals. Esqueci-me dos edemas periféricos nos pés que me deixavam com patas de elefante dias a fio. Esqueci-me dos quadricípites estoirados no início de cada ciclo, ao ponto de descer escadas a ranger os dentes ou de descer a calçada de s.francisco aos s’s no passeio para conseguir travar. E dos curativos  banhos gelados, com as pernas mergulhadas em água e gelo e diminuir a inflamação. Esqueci-me de todas as dores nos pés. Das unhas negras da transvulcânia. Esqueci-me de torcer um pé em Sintra ao ponto de ouvir e sentir a cartilagem a estalar toda e mesmo assim fazer mais 20km e continuar a treinar nas semanas, meses e ano seguinte, por vezes colocando mal o pé de novo e gemendo impropérios. Esqueci-me das bolhas e da ida às urgências com os pés em carne viva. Esqueci-me do colapso do meu sistema imunitário nos períodos de maior carga, do herpes labial que rebentava quase sempre. Nas 500 assaduras diferentes: virilhas, mamilos, calcanhares…

Lembrei-me de tudo isso ontem. Ao terminar o treino a correr sozinho por trilhos, a ouvir o canto dos pássaros, o burburinho das pequenas cascatas dos riachos de Sintra, a correr, um pouco espantado com tudo. Ainda há muito para aprender e mudar, mas o pior já passou.
Tento explicar isso a todos os que dizem (como eu dizia) “odeio correr” mas que até querem correr. Claro que odeiam. Não é agradável no início, acho que é mesmo a pior fase. Embora por outro lado seja a fase em que as mudanças e progressos são mais rápidos e motivadores. Mas a qualidade número 1 para isto é paciência e a seguinte é confiança.

 

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