Downhill vs Uphill

Resumindo: sou estupidamente bom no downhill e uma merda no uphill. A rolar estou bem, um pouco acima da média graças aos treinos de estrada para maratonas.

Mesmo em treinos com ritmo relaxado para mim fico quase sempre no top 10, top 20 de segmentos longos de downhill em 100, 200 atletas no strava. Se meter o turbo consigo top 5, já tive CR’s. Adoro downhill. Fiz BTT antes e talvez isso me dê um certo à vontade em terrenos técnicos, pois mesmo no máximo, a velocidade não se compara com o que se atinge de bicicleta com os pés presos nos pedais. Não que alguma vez tenha descido trilhos comparáveis aos de Sintra com aqueles saltos. Respect.

Mas uphill… em Sintra tive um top 10 num longo segmento em 80 pessoas mas morri. O resto do treino foi péssimo e a 2/3 da subida colapsei e tive de andar. Foi num treino longo de 28km, mas aquele boost na subida rebentou comigo. No meu ritmo normal, o mesmo que me coloca no top 20 de downhill, fico nos últimos 25% da tabela quando treino em Sintra. Não acontece isso em Monsanto porque lá faço treinos mais curtos e dou-me mais ao luxo de rebentar, mas sinto que eu estou em esforço maior do que colegas que estão a resguardar-se mais e vão ao meu ritmo.

Podia pensar “ok, é porque eu quando corro em Sintra é sempre 4h para cima” e os segmentos não têm isso em consideração. Se lá fizesse um treino de 20km com apenas 1000m de desnível podia partir bastantes tempos, mas não explica tudo.

Sou mesmo mau a subir. Já estive a ler umas coisas sobre isso e conto fazer uns treinos próprios para melhorar nessa parte. Pelo menos, estou a melhorar.

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chegámos aqui

Depois da fase de lua de mel com a corrida, deixei de pensar nela tanto. Mas não deixei de correr, a minha média até agora até está cima do ano passado e com substancialmente mais desnível. Pensei nisso ontem durante o longo treino de 30km e +1800m por Sintra. 4h30’ a viajar por trilhos, a correr em todas as descidas, a flutuar por cima de terreno irregular..

Quando a transformação se completa, perdemos a noção das mudanças que ocorreram. É como ir viver para um bairro novo e a pouco e pouco ele torna-se familiar e já não o comparamos com o anterior em que vivíamos e ele já não nos surpreende tanto. Não que deixemos de gostar do bairro, se calhar até gostamos mais. Simplesmente, torna-se parte de nós.

Até agora foram 3 anos em que passei de praticamente sedentário em que não aguentava 5km a ultramaratonista. E foi uma transformação sofrida. Mas esqueci-me desse sofrimento todo. Só me lembro quando me perguntam.

Esqueci-me das sucessivas lesões nos joelhos, ao ponto de ter pensado desistir de correr, e que me faziam coxear e descer escadas degrau a degrau, agarrado ao corrimão. Esqueci-me que urinei sangue ou que tive uma micruptura no diafragma dos impactos de correr na lava dura do Cami de Cavals. Esqueci-me dos edemas periféricos nos pés que me deixavam com patas de elefante dias a fio. Esqueci-me dos quadricípites estoirados no início de cada ciclo, ao ponto de descer escadas a ranger os dentes ou de descer a calçada de s.francisco aos s’s no passeio para conseguir travar. E dos curativos  banhos gelados, com as pernas mergulhadas em água e gelo e diminuir a inflamação. Esqueci-me de todas as dores nos pés. Das unhas negras da transvulcânia. Esqueci-me de torcer um pé em Sintra ao ponto de ouvir e sentir a cartilagem a estalar toda e mesmo assim fazer mais 20km e continuar a treinar nas semanas, meses e ano seguinte, por vezes colocando mal o pé de novo e gemendo impropérios. Esqueci-me das bolhas e da ida às urgências com os pés em carne viva. Esqueci-me do colapso do meu sistema imunitário nos períodos de maior carga, do herpes labial que rebentava quase sempre. Nas 500 assaduras diferentes: virilhas, mamilos, calcanhares…

Lembrei-me de tudo isso ontem. Ao terminar o treino a correr sozinho por trilhos, a ouvir o canto dos pássaros, o burburinho das pequenas cascatas dos riachos de Sintra, a correr, um pouco espantado com tudo. Ainda há muito para aprender e mudar, mas o pior já passou.
Tento explicar isso a todos os que dizem (como eu dizia) “odeio correr” mas que até querem correr. Claro que odeiam. Não é agradável no início, acho que é mesmo a pior fase. Embora por outro lado seja a fase em que as mudanças e progressos são mais rápidos e motivadores. Mas a qualidade número 1 para isto é paciência e a seguinte é confiança.

 

run commute? sim

Fiz 97km esta semana à conta da soma destas coisas. Numa semana faço 30-40km a andar a pé / correr em trote ligeiro com uma mochila com equipamento fotográfico às costas e bocados a empurrar o carrinho com a gorducha da minha filha.

Acho que os ultra runners de provas muito longas não deviam descurar a possibilidade de andarem regularmente. Para mim é a única forma de encaixar um treino em certos dias ou aumentar km’s. Por exemplo, a semana passada fiz 10km nos esquilos de monsanto e depois +10km a andar a pé, o que deu 20km num dia de semana normal.

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Faz diferença porque tive dores musculares bem fortes na parte lateral das coxas, dores que nunca tinha tido antes, ou seja andar a pé faz trabalhar músculos e um tipo de passada diferente da corrida. E numa ultra muito longa, a não ser que sejamos elites, vamos ter de andar.

Também causa lesões: fiquei com os tomates assados. É verdade. Boxers de algodão… Já me tinha acontecido ficar com o calcanhar esfolado. Andar gera movimentos mais amplos dos calcanhares e quando andamos no dia a dia não temos roupa desportiva. O problema é que se formos atletas e tivermos uma grande distância para andar, não andamos como o comum dos mortais, mas sim num passo muito rápido e enérgico, com pequenos sprints em semáforos, descidas etc.

Comprei uns nike archive que são sapatilhas “urban” discretas só para poder andar e correr na cidade, vestido normalmente, mas que já levam 350km e sinto que não se comparam com sapatilhas normas de corda.

E assim começo a namorar cada vez mais o conceito de run commute…

june-19-2014-run-commute

O primeiro problema é encontrar  a mochila adequada para transportar muda de roupa. No escritório podem ficar permanentemente 2 pares de sapatos, um blazer. Depois podemos lavar-nos à gato no escritório. Lamento não poder tomar duche, estive quase para me inscrever num ginásio à conta do duche, mas não o vou fazer.

 
Está na altura de investigar O The Run Commuter.
 

 

Ontem posso ter feito o meu treino chave pre MIUT. Idealmente faria um mais longo no próximo fim de semana, mas não vou poder.

Fui em solitário para Sintra e o treino correu muito bem. O percurso é baseado na nova versão do STE pensada pelo José Carlos Santos ao qual acrescento um extra de desnível e km’s para ir até ao Penedo beber uma cola e comer um travesseiro.
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Quase 100% a subir ou a descer e sempre em trilhos muito técnicos.
Desta vez não fui com amigo João Paiva que estava fora de férias. Ele tem um pace ligeiramente mais rápido do que o meu (acabou o UTAX 90 minutos antes de mim) e nos treinos eu meto a 4ª a fundo para o acompanhar. Desta vez eu estava algo cansado pois na sexta corri de forma muito intensa o ensaio da S. João das Lampas.

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Fui apenas em modo relax, andando nas subidas, rolando rápido no plano e suave nas descidas, testar o ritmo que prevejo para o miut, e acabei a sprintar cheio de energia. Fiquei surpreendido de ver exactamente o mesmo pace médio dos treinos com o Paiva, porque a sensação que tive foi de muito menor esforço. É certo que estou mais em forma, mas o truque é que não estoirei, nos últimos km’s costumo arrastar-me e desta vez fui mais constante. Também me senti melhor. Lição para o MIUT, lição nº1 do ultra running para mim é esta: temos de ter um pace que permite correr quando é para correr, do princípio ao fim da prova. É inútil ganhar 2 minutos numa subida quando depois vamos arrastar-nos durante horas. Se isto se nota num treino de 4 horas e meia, numa ultra de 20h, 40h…

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Nestes dias também tenho andado muito a pé em Lisboa, casa trabalho, trabalho casa, metro trabalho etc… registo todos os percursos de 1km pelo menos. Outro post.