doping musical: Grimes – Flesh without Blood/Life in the Vivid Dream

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bicicletas, continued… o meu diálogo interno, pensar alto

Depois de mais investigação, perguntas, comparativos… Cheguei às seguintes conclusões: A Birdy vai continuar sempre a ser a minha bicicleta utilitária em Lisboa, não dá hipóteses e não vale a pena sonhar com outras opções. Devo em breve mudar o local de trabalho para uma torre de escritórios e a Birdy permite-me dobrá-la toda e levá-la no elevador apinhado de gente para o meu piso e arrumá-la num canto. Nenhuma bicicleta algum dia pode substituir-me esta versatilidade.

Para poder transportar a minha filha agora que está cada vez mais pesada e tendo em conta que não é possível fazer o fit seguro de uma cadeirinha, e caso a escolinha dela mude, é praticamente garantido que boa parte do percurso será feito em ciclovia como já é actualmente. A solução é um trailer.

trailer

Só preciso garantir que sistema de acoplagem é compatível com o eixo da birdy que no caso da minha tem um nexus hub e não tem uma configuração comum, mas acredito que não haverá problema. Outra questão é o engate ser rápido, mas isso creio que quase todas são.

Portanto, risco qualquer outra utilitária urbana. No meu kit de bicicletas, o upgrade novo seria uma desportiva como a Trek Domane 4.5, categoria endurance road. Era a que completava o meu set. É uma desportiva mas com geometria um pouco menos agressiva e com um sistema de amortecimento de vibrações.
domane

Percebi que é possível mesmo numa desportiva deste tipo fazer o fit de um saco no quadro, debaio do selim e/ou no guiador, pelo que posso ter espaço suficiente para levar algumas coisas para um touring rápido com cartão multibanco. Até há racks que podem levar até 6kg e se ligam com um mecanismo “snap”, mesmo em tubos de selim e carbono.

rack

Depois, uma bicicleta desse tipo poderia servir-me para brincar aos duatlos e quem sabe, um dia, aos triatlos e ironmans (o Cancelara anda numa da série Domane). O problema é a etiqueta de preço: – 2300 euros. Diga-se que as versões desta bicicleta vão desde os 1700 euros aos 6500 euros, pelo que a versão que escolheria dentro da gama nem seria a mais absurda.

Aqui volto ao dilema de todos os anos, a hesitação. Sei que há bicicletas de estrada aceitáveis a 500-600 euros, mas eu não consigo ve as coisas assim, percebo umas coisas de bicicletas e sei que tudo se joga no compromisso. A questão para mim é o compromisso com o ciclismo de estrada: darei uso à bicicleta? Se sim, em poucos meses quereria trocar os 500 euros iam para o lixo.

Mas quando? Em que circunstâncias? E num fim de semana de long run em Sintra vou ainda fazer estrada? Tenho tempo? É um pouco por isso que desisti da ideia de uma de touring específica, eu não tenho tempo.  Eu fantasio com ir para Peniche com ela, passar lá o fim de semana e voltar com ela, mas eu quando vou para lá é para pescar, surfar, aproveitar e vou de carro a 140kmh cheio de pressa comprar isco e preparar anzóis. Vou mesmo ter paciência para acordar cedíssimo e demorar quase 3 horas? E vou mesmo, como acho que vou, almoçar ao Guincho ou outro lado qualquer de bicicleta, andar por aí?

Eu já treino maratonas e ultras. Sem dúvida que o ciclismo é um extra, mas assim como assim, eu já faço +80kms por semana só em commute urbano diário e é bem possível que venha a fazer mais. Nas semanas de treinos mais duros, opto pelo metro.

A única forma disto fazer qualquer espécie de sentido era planear entrar nuns duatlos, triatlos e mais tarde ironmans, acho isso interessante pelo lado de trabalhar a natação em que sou fraco, mas tenho tempo?

Quando espremo bem tudo, chego à conclusão que uma boa bicicleta desportiva seria um luxo semelhante a comprar um Porsche ou um Veleiro, salve as devidas proporções financeiras.

Adoro o objecto, a bicicleta, as bicicletas. Há poucas obras de engenharia humana que eu mais aprecie que o poder do infinito das rodas. Por mim tinha bicicletas nas paredes de casa. Tive uma de estrada em adolescente e cresci na zona oeste, o meu pai era ciclista (amador), o Joaquim Agostinho quando morreu, chorámos todos em casa, é uma memória que tenho muito nítida.

Gosto da sensação de sair de casa e dar uma volta, ver coisas, explorar estradas, passar por aldeias, parar em cafés para beber uma coca-cola e comer uns pasteis de feijão e seguir. Essa sensação de liberdade infinita é algo que na corrida não dá do mesmo modo e o btt também não.

Veremos, tenho de pensar. Não me parece óbvio para já e tenho de ser realista. Detesto isso.

ultramaratonista de três dígitos, o que mudou e o que aprendi

Se tiver de pensar no que mudou e no que aprendi com o UTAX

1) gestão da intensidade – numa ultra tão longa os erros de pacing e intensidade pagam-se a dobrar no fim. Foi esclarecedora a experiência de ganhar umas 80 posições numa corrida em que fui simplesmente num ritmo que eu acharia confortável, mas que me permitiu nos últimos 30-40km ser muito mais rápido do que atletas com dificuldades em correr.

2) defesa absoluta da integridade e do conforto, seja pelo evitar de bolhas, de ter demasiado frio ou demasiado calor, de ter sempre as calorias, tape nos mamilos, vaselina nos tomates, os electrólitos e a hidratação na altura certa, sapatilhas sem lixo, mudar de roupas se for preciso etc. Essa sensação de controlo é vital (no meu caso foi ao ponto de ter levado um powerbank para carregar o Suunto e saber sempre quantos km’s fiz) embora seja preciso flexibilidade para lidar com imprevistos que acontecem sempre. A questão das bolhas foi importante porque tinha danificado a minha confiança na possibilidade de fazer ultras sem as ter. Temi que fossem uma fatalidade e não são.

3) valor do taper. Descansar muito antes da prova, mas mesmo muito. Quanto mais longa e dura a prova, menos se deve correr nas últimas 2 semanas. Eu praticamente não corri nada, só fiz ciclismo leve.

4) silenciar rapidamente qualquer devaneio pessimista ou reflexões sobre o quanto falta ainda correr.

5) Ter pressa. Não perder mais do que o absolutamente necessário nos abastecimentos. O meu segredo é o perpetuem, sou praticamente independente dos abastecimentos a nível calórico, só os uso para saciar a fome de comida a sério, para coca-colas e para água. Poupar 5 minutos em cada abastecimento significa menos 1 hora numa ultra de 112km. Vou ao ponto de antes de chegar ao abastecimento já ter os frascos destapados, o copo cá fora e saber exactamente o que preciso de fazer e não ficar lá à nora.

6) Aproveitar boleias de corredores do mesmo nível ou um pouco mais rápidos. Uma coisa extraordinária nas ultras é esta oportunidade de irmos lado a lado com companheiros que estão juntos naquela aventura épica. Se houver fôlego, conversa-se ou corre-se em silêncio, que também é uma coisa exraordinária. Os grupos formam-se, desfazem-se, formam-se, um está melhor, o outro pior, troca etc. Os km’s passam mesmo mais rápido, nem se dá por eles. Tendo sempre a conversar e a ser bastante sociável em ultras.

7) Para além do taper, reservas de sono, hidratos e corte com os vícios. Eu bebo regularmente e na semana antes bebi apenas 1 noite (bebi 1 cerveja no restaurante antes da prova ok). Nos últimos 3 dias procurei deitar-me ridiculamente cedo. Na tarde da prova tentei dormir uma sesta.

8) não esquecer nunca de ajudar os outros, eu agora levo sempre medicamentos e gomas a mais, ajudei 3 atletas, um com anti-inflamatório e outros dois com umas gomas com cafeína. Não pesa nada.

9) Ser paciente com os maus momentos. Por exemplo, depois da canja senti-me muito enjoado por ter misturado com coca-cola, pensei mesmo em vomitar e estive perto. Não atrofiar com isso, são situações passageiras desde que o ritmo seja estável.

10) ultrapassar o próximo. É uma forma dos km’s voarem. Vê-se alguém lá longe numa subida a ficar um pouco mais perto… significa um alvo. Isto é uma corrida, não é um passeio. Ajuda os km’s a passar. Eu sou terrivelmente competitivo, mas com fairplay! O que há mais são atletas que voam por mim e sobretudo os que nunca mais vejo desde a partida.

11) observar a natureza, ver como é bom estar ali a viver aquele momento num sítio tão bonito, como temos essa sorte e a saúde para o poder fazer e como correr na natureza nos faz regressar a divertimentos de infância, aventuras e tudo mais, mas ainda mais épico e fantástico! Isto ajuda a ter um foco no agora e a não deixar a cabeça ir por devaneios, seja com o que falta correr, com as más sensações e dores etc. Foco no agora!

bicicleta de touring, o meu dilema recorrente

E pronto, agora no intervalo de recuperação, volta o bichinho da bicicleta.

A bicicleta é uma companhia quase diária, casa-creche-trabalho e vice versa. Em certas semanas são perto de 80km só em deslocações pequenas na Birdy.

Recentemente mandei a minha velha specialized stumpjumper (btt, suspensão completa) de 2007 para a revisão, teve de substituir suspensões. Não tem valor de revenda relevante, queria despachá-la e com o dinheiro ajudar-me a comprar uma de estrada. Mas não me dão nada por ela e por isso fiquei com ela e tive de a arranjar.

Andei a babar por uma pura de estrada, desportiva. Mas por outro lado, também era estúpido comprar uma bicicleta que só desse para isso, porque eu tenho pouco tempo livre e o meu desporto nº1 é a corrida. O dinheiro é muitas vezes mal gasto em bicicletas caras quando a sua utilização é demasiado específica e pontual – ou mesmo inexistente. Foi um pouco assim com a minha bicicleta de BTT, que usava aos fins de semana, mas cuja logística (levar no tejadilho do carro, lavá-la etc.)  tornava mais rara a sua utilização. É uma bicicleta algo inútil como commuter, apesar de rápida e ultraconfortável no empedrado.

A minha filha está a ficar maior e levá-la às costas começa a ser complexo. Ainda por cima a próxima escola poderá ficar bem mais longe – embora ligada por ciclovia, o que é excelente.

No intervalo em que não anda de bicicleta sozinha e pode andar numa cadeirinha na bicicleta, teria lógica ter uma de touring, uma que desse para a levar e levar os sacos com as tralhas dela e as minhas.

Muito antes de correr sonhava em fazer grandes viagens pela europa de bicicleta e andava a namorar as bicicletas puras de touring com quadros normalmente em aço, estáveis e sólidas, preparadas para grandes cargas. Um bom exemplo é o clássico Surly Long Haul Trucker, uma bicicleta que acho muito bonita, como de resto, todas as de touring puro, devido aos quadros em aço ou coisas parecidas, tubulares.

surly

surly2

Mas nunca o fiz. Na verdade não tenho normalmente tempo para aventuras destas e se as fizesse não sei se acampava. Fazia o chamado credit card touring. Roupa ok, mas comida e dormida, temos hotéis ou pensões. Ou não? Há tendas muito leves, mas o hiking a pé por montanhas atrai-me mais que o touring com tendas. Preferia fazer 80km por dia em bom ritmo do que ir a arrastar-me com malas.

Foi na altura em que optei pela minha Birdy (desdobrável) e não me arrependo. Apesar do preço tenho milhares de km’s feitos com ela e pagou-se a si própria, é uma companheira diária, faça chuva ou sol. Vou às compras, à creche, ao trabalho e ainda dou umas voltinhas em desvios das rotas habituais. Já a paguei em poupanças de transportes, para não falar na questão da saúde e do exercício, bem como da rapidez em deslocações pequenas onde os transportes e o carro são ineficientes.

A minha birdy 🙂

birdy

Adoro-a. A birdy foi a primeira bicicleta que tive que fundiu o utilitário com a diversão, especialmente o lado utilitário e percebi a importância tremenda que essa flexibilidade tem.

Um luxo é algo 100% desportivo e é curioso que as pessoas tendem a pensar ao contrário, podem dar milhares de euros por uma de estrada ou btt de elevada performance que frequentemente fica a ganhar pó durante longos períodos, mas depois para uma urbana em que fazem milhares de km’s já são poupados. Conheço vários casos assim!

A bicicleta de sonho? Seria uma de ciclismo rápida e desportiva, com a qual pudesse dar passeios grandes, mas não tão grandes como as de touring a sério, que levasse malas…

E é aqui que entra esta trek 720…

trek

Tem geometria de desportiva de estrada, embora não das mais agressivas. O facto de poder levar sacos frontais sem racks pesados é um winner. Mas permite rack traseiro, creio que o limite total do quadro é 135kg. Por isso posso usá-la para levar a minha filha numa cadeirinha confortável e passear com ela ou levá-la à escola. Ou para fazer touring com um pouco mais de bagagem.

Tirando o rack e a cadeirinha, posso usar só os sacos frontais, 1 ou 2, para o commute para o trabalho e assim meter lá uma muda de roupa nos dias de chuva, ou então para dar voltas grandes – passar um fim de semana fora, levando alguma roupa, carteira, etc. – ou posso mesmo não levar nada e ir dar só uma volta e tenho uma de estrada que pesa uns 9.5kg sem sacos.

A outra hipótese é ter uma de estrada pura, comprar uma em 2ª mão. Talvez essa seja a opção mais racional, uma vez que é possível fazer o fit de sacos numa de estrada pura caso queira fazer “credit card touring” sem precisar de racks traseiros. O mercado de 2ª mão para bicicletas de estrada tem uma liquidez impressionante e a desvalorização é imensa.

Outra hipótese é fazer o mesmo de há uma década para cá, ficar quieto… 😛

Utax relato possível provisorio

Perdi um draft disto! Arghh.

Tentar reconstruir uma narrativa linear do que foi o meu UTAX é algo complicado, embora não tanto como a de outras noitadas que já fiz, pois desta vez estava sóbrio.

castelo

Quando o sol nasceu estava sozinho, numa secção péssima do percurso, recentemente desbastada, aos 36km. O chão estava coberto de raízes e pedaços de madeira, havia silvas, era impossível correr sem tropeçar, mas por outro lado não me apetecia andar porque aquilo era plano. Quando vi a luz – o Sol não o vi, esteve mesmo mau tempo – senti-me primitivo e percebi porque os nossos antepassados veneravam esse astro. Não há nada como estar no meio de uma floresta numa serra numa noite sem lua para perceber a diferença que faz um pouco de luz sem ser a da nossa lanterna. Costuma dizer-se “estava no meio do nada”, mas se calhar deviam rever a expressão “nada”. Eu até gosto de centros comerciais, mas dificilmente diria que estava no meio do “tudo” comparado com isto.
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foto de Tovieira

Tentei dormir uma sesta antes da prova, não consegui. Só fiquei quieto na cama, o João LP na noutra cama, os dois no quarto de hotel a tentar dormir um bocadinho antes de iniciar a aventura, mas estávamos só quietos a fazer de mortos.

O material todo espalhado pelo quarto, as previsões metereológicas de alertas amarelos ou laranjas que no alto das serras a 1000m viram vermelho vivo, tudo isso rodopiava na minha cabeça. Enquanto fechava os olhos e visualizava as secções do percurso, repetia, mentalmente os mantras: não desistas, espírito positivo, não penses no todo, vai só de abastecimento em abastecimento, olha à tua volta, repara nas coisas pequenas, toma as calorias e os electrólitos…

Lembrava-me do que foram meses de preparação a pensar nisto, com a Ultra Douro Paiva pelo meio, onde as bolhas uns dias depois me levaram às urgências. Eram o meu maior medo. Sabia que a água tinha sido um factor essencial para ter bolhas e previam chuva.

Fiz o taping do pés com todo o cuidado.

tape

Saímos das camas, abrimos a janela do quarto e íamos experimentando a temperatura. Estava calor? Estava frio? Era um tempo de trovoada incerto. O ar estava carregado. Como que para responder às nossas dúvidas, começou a chover. Optei por levar uma muda (temos direito a 1 saco de muda de roupa e comida aí pelos 64km) e preparar-me para o pior. Meti no saco uma t-shirt técnica de manga comprida para tempo frio que só usei duas vezes e das duas vezes tive de a tirar ao fim de 5 minutos e eu sou uma pessoa que corre às 6:00 no inverno com 8 graus e chuva. Só que tive um feeling que podia ser diferente.

Chegámos à meta e o nervoso aumentou!

begin

utax3

Na partida senti-me pequenino, todos pareciam mais “cromos” do que eu, mais batidos, mais rápidos… Vê-se logo pelos equipamentos e pelo físico dos referidos atletas, já para não falar na quantidade de t-shirts de finisher MIUT ou UTMB que desfilaram no Zé Padeiro, o restaurante obrigatório.

Eu nesta altura estava algo apreensivo e atrapalhava-me com os fechos da mochila para confirmar e ajeitar o material para não me magoar as costas. Embirrei com a caixinha dos electrólitos, benurons, voltarens e imodiums, não encontrava posição, tirava e punha a caixinha noutro bolso… Conversávamos uns com os outros, a desejar boa sorte. Nunca me tinha visto numa situação assim antes de uma prova, normalmente tenho consciência daquilo que me esperava, ali era um mistério completo, desde o clima, ao tipo de terreno que só sabia ser difícil, ao que eram as sensações de quase 22h a correr.

video da partida

Numa ultra destas vai pessoal mais da pesada e é natural que um estreante como eu se sinta intimidado. Em provas mais curtas há de tudo, mas no UTAX a sensação é de “uniformidade” dos participantes, daí a minha apreensão.

A prova começou e como é hábito fomos todos disparados pelo alcatrão de Miranda do Corvo. É sempre divertido fazer o primeiro km em estrada a 5:30 e depois a estrada acaba e dizemos adeus à civilização. A primeira subida foi cheia de engarrafamentos. O single track era muito técnico, mas belíssimo, sem lama, acompanhando um regato cheio de pequenas cascatas e tive pena de não poder desfrutar dele como queria. Passagens de pontes que eram só troncos, subir rochas, agarrado a cabos de aço… O problema eram os engarrafamentos. Perdi à vontade 30 minutos nesta parte, mas como era uma ultra de 112km não me fazia diferença.

Chegámos a Gondramaz, primeiros 10km feitos em duas horas.

gondramaz

não me recordo em que abastecimento foi tirada esta foto, mas ia bem. Aliás, estrago já o suspense, fui bem os 112km quase todos, só fiquei mais desesperado a 4-5km da meta devido ao sadismo da organização!

happy

Depois seguiu-se a Lousã. O meu espírito tentava registar uma narrativa. Fui ultrapassado várias vezes por um atleta coreano que seguia num estilo invulgar, com um bastão apenas e com uma luz de frontal demasiado fraquinha. As minhas dúvidas sobre se sabia o que estava a fazer desfizeram-se depressa quando o apanhei pela 4ª vez, desta feita agarrado à perna. Tinha dado uma violenta queda numas pedras. Parei para o ajudar e dei-lhe um voltarene, ficou contente, falámos um bocadinho em inglês e eu segui (nunca mais o vi, mas soube que terminou bem! )

O pelotão começou finalmente a esticar-se a começámos a ter espaço. Não me sentia muito bem. Sei que aos 20 e tal km’s estava com dores anormais nas pernas, eram 3 e tal da manhã. Senti-me muito mais dorido do que o normal para a distância e ritmo, comparando com os long runs em Sintra em ritmo igual.

Atribuí isso ao sono, ao facto de estar a correr de noite, numa altura em que o meu corpo queria dormir. Contudo não tive qualquer vestígio de sono a não ser pelas 7:30, curiosamente, a hora em que a minha filha me acorda e eu sinto sono por ela me acordar 🙂 Acho que ela foi fundamental para me treinar o sono, treinar-me a acordar a qualquer hora, para a tapar, para a sossegar.

A noite foi longa e tempestuosa. O vento acordou com toda a força e seguiu-se a chuva que nos açoitava nos cumes expostos. Era um alívio mergulhar em vales ou em encostas mais abrigadas. O vento estava tão forte que eu evitava mesmo aproximar-me de árvores: havia várias caídas recentemente, algumas coisa de minutos, podia ver pegadas debaixos do ramos.

O céu estava estrelado nos intervalos das nuvens baixas e fiz parte de um caminho em direcção à constelação de Orion. Nesta fase já estava a ficar eufórico, a sentir-me forte de novo. Desliguei o frontal a certa altura para fazer chichi a ver as estrelas, completamente só no caminho. Vi uma estrela cadente, enorme, luminosa. A noite estava tão escura que só detectava as montanhas pelo seu vulto contra o céu estrelado, maciços que se adivinhavam imponentes, mas que na noite se assemlhavam apenas a recortes negros sobre o ceu.

A luz do meu frontal, programada para aguentar 8 horas, começou a esmorecer ao fim de 7, mesmo a tempo do lento nascer do sol. Não foi espectacular porque o tempo já estava definitivamente em modo tormenta e o céu encoberto.

Correr de noite é muito divertido, comentava isso com o amigo Nuno Gião que encontrei a certa altura e ele brincou dizendo que de noite não víamos a “merda que estávamos a fazer” e em boa parte tinha razão. Sem referências ao longe, vemos apenas o caminho iluminado pelo frontal. Tudo tem uma atmosfera algo estranha e mágica, especialmente aquela paisagem da Lousã, tão misteriosa. Nos momentos sozinho essa sensação era aumentada e tive momentos em que me comovi verdadeiramente com a beleza de Portugal. Sou um lamechas nestas coisas, mas que país incrível, que coisas incríveis, que privilégio. Em certas partes os muitos cogumelos pareciam fluorescentes na luz do frontal e quase parecia estar num mundo de fantasia no cinema.

Um dos percursos envolvia correr um num estreito muro de um aqueduto ao lado de uma ravina altíssima. Em certos troços havia cabos a fazer de corrimão, noutros não. Ainda bem que treinei vertigens nas ravinas do Cabo da Roca. Aquilo era hardcore para quem sofresse disso. Em boa medida, gosto que este desporto tenha este elemento – não há dúvida que quem caísse ali ficava muito mal tratado ou morria. Mas não é o bungee jumping em que dependemos 100% do equipamento e do tipo que o montou. Ali compete-nos a nós andar em cima do muro em linha recta.

Não gostei mesmo nada foi do percurso que abriram desbastando vegetação densa, o chão cheio de raminhos e raízes que se pontapeavam dolorosamente. Não queria ter bolhas.

Foi só de dia que comecei a sentir um pouco ensonado, mas a canja fantástica em Povorais (acho que era Povorais) aos 48km fez-me renascer. E fez-me também quase vomitar depois. Muita misturada de coca-cola com batata frita e canja. Mas lá me aguentei e passado 10 minutos estava bem.

Já havia desistências nesta fase e em bom número.

O mau tempo começou a dar-lhe forte ainda de noite. Uma ventania absurda, quedas de árvores, uma coisa surreal. A certa altura o vento era tão forte que parecia que tinha a cara de fora num carro a 200km/h na autoestrada, as bochechas até “abriam” tipo túnel de vento. Parecia surreal, mas o frio começava a fazer-se sentir. Nunca vi tanto vento na vida, mas nesta fase ainda foi divertido

O meu plano era ser defensivo. Tinha receio de viver um pesadelo nos últimos km’s e não me queria arrastar. Por isso só me preocupei em gerir essa sensação de “fácil” constante e em ingerir calorias pelo perpetuem.

Entre Povorais e Coentral (58kms) deu-se o ponto mais alto. A subida foi surreal e um dos momentos de maior frio. À medida que subíamos o nevoeiro ia ficando mais denso e o vento fustigava tudo. Os corredores um pouco afastados mal se viam. Senti-me uma raposa no ártico. Palavra que em toda a minha vida nunca assisti a tal vendaval como ali na serra exposta. Senti em vários momentos que havia algum descontrole na organização, que não era suposto aquele nível.

Até ao Coentral, se a memória não me falha , foi um single track muito espectacular em plena serra a vir desse alto e foi bom perder altitude e recuperar calor abrigado do vento gélido que nos sugava o calor do corpo. O single era muito técnico e pedregulhoso. Lembrei-me das bolhas. Para além do tape e evitar água, o outro eixo era um cuidado extremo na forma de pousar o pé, passadas curtas, flexíveis. Podia ter ido mais rápido, mas preferi poupar-me aos impactos. Mesmo assim ia a corer. Ganhei posições, aqui já havia atletas com pernas rebentadas do downhill.

E vem aqui mais um conselho do vosso amigo: numa ultra, corram quando é para correr. A coisa está mal quando um single track a descer é feito a andar por “busted quads”, uma vez que há um desperdício de força da gravidade. É como descer da bicicleta e ir a andar. Os treinos em desnível são fundamentais nisto e para ter tido uma prova assim a principal contribuição foi ter treinado em Sintra quase todos os fins de semana sempre no STE e variações do mesmo e ter metido mais Esquilos de Monsanto em detrimento de treinos em plano. Foi nítido, controlando as bolhas, que os momentos em que mais ganhei terreno foi nas descidas. Por vezes ia com companheiros e mesmo aos 90km descia os tracks a boa velocidade, sem stress com a parte técnica: Sintram nos trilhos certos, prepara.

No UTAX a coisa apenas aumentou de escala, mas não era mais técnico ou duro que Sintra.

De Coentral a Castanheira veio o percurso mais rolante, depois de enfardar uns ursinhos de goma. Aproveitei para carregar o relógio gps com o powebank, a solução mágica. É fácil carregar em andamento, o percurso não era técnico. Isto foi algo que me surpreendeu e às tantas já sonhava com prova sub 20h se aquilo continuasse assim (erro). Asfalto, estradão, maravilha. Os km’s iam passando e eu ia a bom ritmo.

Começou a chover torrencialmente e a trovejar e tive de guardar o powerbank, mas já com o relógio carregado. A 3km antes de Castanheira de Pera tive de passar por um lameiro, uma espécie de arrozal onde os pés – não havia hipótese – se afundaram até ao tornozelo numa mistura de lama escura e água.

Aqui vi a minha vida a andar para trás. As brooks cascadia, as fitas e as meias estavam-se a aguentar bem, mas ali senti a conspiração bolhas a ganhar forma. Para mim isto era essencial: se tivesse bolhas extremas de novo talvez desistisse de ultramaratonas.

Depois de um sprint (pareceu) em plano até Castanheira de Pera aos 68km foi o tempo da muda de roupa. Caía um dilúvio extremo e trovejava. Aqui foi altura de decisões e eu decidi perder algum tempo, como muitos outros que também mudavam de roupas com cuidaod. Tirei as sapatilhas cascadia, tirei as meias, tirei as fitas. Sequei os pés, apliquei  fita que já tinha previamente cortado. Tive de repetir a operação duas vezes num pé, tinha de estar perfeita, sem dobras, faltavam mais de 50km à chuva. Pés com fitas, meias secas e desta vez calcei as raptor sequinhas. Estava  correr bem a prova com as cascadia, mas estavam ensopadas. Arrisquei a troca. Troquei de t-shirt de compressão para a tal térmica quente. Troquei a bateria do frontal logo nessa altura e deixei tudo no dropbag. Vesti-me, comi qualquer coisa e parti.

Sei que perdi aqui muito tempo, mas compensou. A sensação de conforto por estar “seco” debaixo da tormenta, foi tremenda. O impermeável da north face revelou-se excelente, para segurar o carapuço que não tinha forma de apertar, usei um buff em “bandana” por cima, à touareg. Estava pronto e feliz. Deixo outra dica importante: numa ultra o conforto e a prevenção são essenciais. É o dilema da pedrinha do sapato que fica ali a moer, ou de ir a correr com um impermeável e de repente ficar calor demais. Vale sempre a pena dar prioridade à sensação de “está tudo bem” em detrimento de não perder uns segundos ou minutos a resolver um stress. Senti-me um tanque autêntico a partir de novo debaixo do dilúvio.

Apanhei um companheiro que descia umas escadas de xisto com dificuldades extremas, pelos 80km. Percebi que tinha bolhas, perguntei por isso e ele respondeu-me “bolhas? Já passei as bolhas há muito tempo, isto rebentou… agora é aguentar”. Senti tudo a torcer cá dentro por empatia. Sabia o que ele estava a sentir, com uma pequena diferença. Eu quando senti aquilo no UDP estava a 5km da meta ou menos. Ele estava a mais de 30. E ia passar por lama. Fiquei para trás a falar com ele. Disse-lhe que tinha tido o mesmo problema na UDP, a água era fatal etc. etc. e o que tinha feito (taping, meias, muda de roupa)… não o incentivei a desistir, só lhe disse que fiquei uma semana de canadianas. Ele pareceu surpreendido com a violência e eu só pensei “não estás bem a ver em que estado estão os teus pés agora… daqui a 10km… 20… 30… men, desiste”… mas não lhe disse nada disto, desejei-lhe boa sorte e para não se matar, que era possível correr sem bolhas e que era uma questão de equipamento. Pensei “podia ser eu”. Porque podia. Se não fosse a experiência da UDP eu garanto que neste UTAX teria vivido um calvário extremo. Teria cometido TODOS os erros. Pisado lama funda, mergulhado os pés, não trocado de meias e sapatilhas e tape… numa prova de 112km, nem quero imaginar.

Durante muitos km’s não vi ninguém, até que um atleta me apanhou. Disse que tinha estado duas horas numa ambulância depois de estar no grupo da frente, mas teve problemas gástricos. Queria só acabar a prova para ter os 3 pontos para o Montblanc. Não duvido da história dele, ele passou por mim a grande velocidade e apenas a andar. Um dia espero ser rápido assim!

Depois entrei num bosque mesmo muito bonito, com um aspecto feérico, sempre à espera de ver um alce.

Ao longo a prova fui ultrapassado várias vezes por atletas que depois ultrapassava, a maior parte de forma definitiva. Pode parecer relativo – eles podiam pensar o mesmo de mim – mas a minha sensação era constante. Fui defensivo. Vi vários atletas a funcionar por rasgos e um companheiro com quem corri alguns km’s e conversei, arrancou mesmo num desses rasgos. Íamos os dois a correr rápido em plano e eu senti que a velocidade estava um pouco forte demais, disse para ele continuar e eu andei um pouco antes de voltar a correr. Perdi-o de vista, já ele ia muito distante no topo de um monte aos 90km. Pensei que nunca mais o veria. Fiquei surpreendido de passar por ele, definitivamente, aos 103km, numa descida técnica.

Ajudei dois corredores ko, dando comida (gomas com cafeína) para além do voltarene que dei ao coreano. Não faço qualquer juízo e desde que me deram uma vez voltarene que passei a levar coisas extra para retribuir essa salvação que me deram um dia. Um deles, apenas a 800 metros de um posto de abastecimento, nem conseguia falar bem, estava branco. Perguntei se precisava de ajuda, disse-lhe que o posto estava a 800 metros e segui… depois voltei para trás e dei-lhe uma goma. Ele gostou, falámos um bocado, disse-lhe a marca (Isostar, apricot flavour with caffeine)

Também vi vários atletas a vomitar, desfeitos , outros embrulhados em mantas térmicas, a tremer, outros a descer pé ante pé, quebrados. Eu sou eles, eles são eu. Isto soa estranho, mas sou bastante competitivo. Uma forma de me entreter numa prova passa por ultrapassar a pessoa à minha frente. Afinal de contas é uma corrida não é um passeio. O tempo nas ultras é uma coisa tão abstracta… o que é o UTAX? O percurso muda todos os anos, um ano chove e tem lama, outro o tempo está melhor… não existe isso de prever tempos (acertei por acaso). A referência nas ultras são os outros. Uma coisa é ser competitivo, outra é não ter todo o fairplay. Tal como eu tiro o chapéu ao tipo que depois de 2 horas numa ambulância mesmo assim me apanhou e passou por mim, pálido, como se não fosse nada, também retiro algum boost de energia por me sentir melhor e passar um grupo de três corredores que momentos antes passaram por mim. São 112km, temos de nos entreter com algo. E é tudo relativo, cada um joga o seu campeonato. O meu amigo João LP desta vez fez quase 2 horas a menos do que eu! Que máquina voadora! Impressionante. O prémio dele foi ficar com a garrafinha de licor beirão de oferta do quarto de hotel!

Mark my words, mais um conselho: numa ultra longa o que se gasta a mais agora é cobrado a dobrar com juros no fim. Aos dez kms estava no lugar 220, sem contar com os desistentes à minha frente. Acabei no 126 (provisório). Fui a prova toda a ganhar posições, especialmente na última parte. Isto é meramente o poder do geek. Não se trata de ser mais forte que não sou.

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Um momento marcante foi passar os 100kms. Inesquecível. O relógio marca 99.9km e eu vi-o passar para 100km. Comovi-me mesmo. Era numa secção de descida e eu sentia-me fresco. Senti que podia fazer 200km naquele momento. Essa surpresa, de chegar aos 100km a dar-lhe tão bem, melhor do que aos 20km, deixou-me eufórico e acelerei ainda mais.

Uma das descidas extremas em lama foi para mim divertida, usei os bastões como instrumentos de ski e fui por ali abaixo lançado! O pior era a lama. Nos últimos km então foi o pesadelo. Depois de uns estradões confortáveis, pensei mesmo que chegava à meta às 20h e qualquer coisa. Erro. Voltou a lama e um percurso verdadeiramente sádico, de ravinas, árvores, cheio de salamandras engraçadas, pretas e amarelas… Passei um grande grupo de corredores (nas descidas técnicas estava mesmo imparável), uns 6 e meti na cabeça que já não os deixava passar. Não era fácil porque na lama eu atrofiava e esforçava-me para saltitar de pedra em pedra ou tentar ir pelas margens cheias de vegetação densa. Atrás de mim parecia uma manada de javalis, levavam tudo à frente, pisavam a lama. Eu tenho bolhas, não posso! Então disparava assim que o trilho melhorava.

Acelerei o mais que pude e aqui começou uma fase de algum desespero. Nem parei no último abastecimento, não precisava. Foi só marcar o chip e pronto, segue. A noite tinha caído de novo e aí veio um certo golpe psicológico, foi como estar preso num loop. O trilho ainda por cima era vagamente parecido com o inicial. Não me magoei praticamente nenhuma vez durante a prova toda e no espaço de 5 minutos dei uma queda algo aparatosa contra uma rocha numa ravina, bati com a cabeça (até vi estrelas) num ramo ao saltar um buraco e ainda, confundindo os olhos de um gato com uma fita (não estou a gozar) saltei um rail de uma estrada e bati com joelho violentamente. Dei tanto palavrão! Não havia ninguém, zero, toda essa parte foi feita na mais completa solidão.

Sempre que o percurso parecia ir atinar, mergulhava de novo em tracks do demo, em lama, tinha de me agarrar a troncos, usar os bastões… enfim. Uma coisa diabólica. Devo dizer sinceramente que não aprecio percursos que são tornados mais difíceis desta forma consciente e algo sádica. Já o disse anterioremente. O que gosto nos percursos é que sejam naturais. Muitas vezes são caminhos que já existem. Mas um caminho é sempre para ir do ponto A ao ponto B. Quando o caminho tem subidas e descidas forçadas e orbita, digamos assim, o destino, a poucos km’s da meta, torna-se um martírio.

Finalmente isso acabou e fui de novo eufórico a sprintar. Vi um corredor ao longe, a caminhar, totalmente estoirado (confessou-me que já não conseguia correr) e fiz os últimos 500 metros a voar. Sentia-me bem, se é que isto é possível. Não senti aquele UFFFF extremo que senti em todas as provas até agora, como a Transvulcania em que contei os metros e me senti num nirvana no fim.

Foi uma prova completamente diferente de tudo o que já fiz. Não morri uma única vez (no UDP de apenas 50 e pouco morri 2x e tive bolhas).  O meu amigo João já tinha tomado banho no hotel!

Depois comemos umas bifanas, ainda cumprimentei o Didier e o Bruno Fernandes que fizeram provas estrondosas (lá está, é tudo relativo!) e aconteceu algo estranho.

Bebi uma cerveja gelada e tive mega acesso de hipotermia. Tremia por todos os lados. Todo eu tremia. Tinha de ir para o hotel depressa. Mal conseguia andar. O joão lá me ajudou. Ia beber uma 2ª cerveja e ficar por ali a ver e a aplaudir, mas não consegui. Estava gelado por dentro, com convulsões todo a tremer. Já no hotel tomei um duche. Tinha os tomates assados a um nível inédito, ao ponto de gritar. Depois um banho de imersão quente para me aquecer. Estava tão exausto que adormeci na banheira e acordei com a água fria. Tive de tomar outro duche quente. Adormeci completamente exausto.

Tenho a certeza que me esqueci de detalhes interessantes neste relato. Foi o que consegui escrever para já (ainda estou cansado).

Se volto a fazer o UTAX, não sei. Adorei a experiência. Achei muito bem organizado, excelentes abastecimentos. Bem marcado apesar de algumas fitas estarem algo espaçadas – mas nada de grave. Organização top, voluntários top. Ambiente fantástico. Mas comparo com a sensação da Transvulcania e a verdade é que tenho saudades terríveis da Transvulcania ou mesmo do DUT (douro ultra trail) e do UTAX… 8 horas do percurso foram feitas de noite, depois levei com chuva e nevoeiro e depois noite de novo. Tudo regado com lama e ainda com aquele sadismo final. É um desafio muito duro e pode ter piada precisamente por isso e pelo lado competitivo e de provação. Acho que é uma prova obrigatória para ultra runners em Portugal e para mim foi especial. É uma sensação óptima fazer isto a sentir-me melhor do que me senti em provas bem mais curtas e fáceis. Mas não sei, dependerá dos contextos do futuro.
Próxima é o MIUT. ISto foi um teste, saí com a confiança muito reforçada por não ter tido bolhas e por não ter rebentado e não ter tido lesões chatas. Estamos vivos, apenas (muito) doridos. Siga para o MIUT!

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UTAX, aqui vou eu.

Estou a poucas horas (amanhã, sexta, à meia noite) de iniciar o UTAX, a minha estreia em provas acima dos 100km, na serra da Lousã. Logo mais 32km que a minha anterior prova mais longa, esta com o extra de um piso muito mais técnico do que essa.

Já preparei o equipamento, inluindo o dropbag, com quase tudo em duplicado: meias, sapatilhas, calções, t-shirt, buff. Levo 6 garrafas de Perpetuem, cada uma para 4 horas, 3 até ao dropbag, 3 para depois. 22 pastilhas de electrólitos ‘extreme’. Imodium, voltaren capsulas. Luz traseira, manta térmica, frontal com duas baterias, fita kynesio para os pés, incluindo uma 2ª dose de fita já cortada para o abstecimento do dropbag aos 60 e tal km em que, caso seja preciso, substituo a fita. Copo. Bastões. Luvas. Boné para o dropbag.

Agora preciso de dormir bem. Dormir esta noite, dormir uma sesta amanhã se possível, carregar muito bem as pilhas de sono e energia. Ainda vou a conduzir para lá no próprio dia, mas chego a tempo de o fazer.

Desta vez com amigos, o João LP, a Patríca e uma amiga dela. Depois lá estarão caras conhecidas do grupo dos Esquilos, o que será bem divertido. Vamos conhecendo as pessoas nos treinos, mas penso que não há nada como uma prova de 112km para aquele sentimento de brothers in arms ahaha.

É o melhor destas provas, depois de meses a treinar sozinho. Isso e a primeira cerveja depois da meta, caso não se esteja naquele estado de semi-hipotermia devido ao evaporar de toda a energia do corpo.

A minha filha também me ajudou muito no seu carrinho comigo a empurrá-la. Fez peso nas subidas, resistência ao vento com o boné das orelhas do mickey, cantou muito, atirou o Ursinho Rosa borda fora e adormeceu para eu poder correr mais um bocado.

O meu tempo de prova previsto é 22h, mas pode ser mais, sobretudo se chover mais do que o previsto e tiver problemas nos pés. Vou em modo “finisher” e defensivo, muito cuidado com os meus pés, com a passada nas descidas, ser ágil e leve como um gato, em detrimento de velocidade, para não ter bolhas, o meu medo nº1. Acredito que será muito duro, mas não tenho medo de “estoirar”. Nem de não aguentar o empeno. Se a epiderme dos meus pés me der tréguas.

Amanhã discuto a altimetria e a táctica com o João, memorizo os postos, hoje já visualizo o percurso, as principais subidas, onde estão, sonho com ele, imagino-me lá.

Um pequeno verso do Tao Te Ching de Lau-Tzu, 4 séculos AC:

Chien hsiao yueh ming –
Seen the small is called brightness.
maintaining gentleness is called strength.
Use this brightness to return to brightness.

Don’t cling to your body’s woes.
Then you can learn endurance.

suunto, a direcção errada

O meu amigo João LP adquiriu um suunto 3 e eu tenho o 2. Ambos temos coçado aqui a cabeça a tentar perceber qual a melhor forma de registar um percurso que nos vai durar umas 22h. Ele fez um teste num modo do ambit 3 que supostamente dura 30h e só durou 20h. A piada é que o relógio ficou estático numa mesinha e quando ele voltou a pegar nele, tinha feito 30km!

Fiz uns testes com registo com intervalos de 60 segundos (supostamente dura 50h) e os resultados foram desanimadores. Um percurso que sei que tem 2.7km marcou 2km e isto com uma recta gigante. Enfim, a ideia de ficar sem gps a horas da meta e já de noite é um bocado chata, mas talvez seja preferível a ter indicações erradas logo ao km 5 e a exponencialmente mais fortes. Às tantas estou nos 90km e o relógio marca 60.

O que me irrita bastante é do Suunto 2 para o Suunto 3 terem investido em ligação ao caralho do iPhone, desculpem-me o termo, em vez de se focarem exclusivamente em mais bateria e precisão. Não consigo pensar em muitos trailrunners que comprem um relógio gps de 500 euros para andar com a porcaria do iPhone atrás!