como motivar para corrida

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Poucos dias depois de completar os meus primeiros 5km, em sofrimento e a desfalecer, tomei conhecimento do ultra running, nomeadamente, do UTAX, por acaso, a navegar online. Fiquei incrédulo e quando mais via sobre a prova e descobria que afinal havia muitas provas deste tipo, mais incrédulo fiquei com a capacidade daqueles atletas. Afinal, eu mal conseguia sofrer 5km , imaginar mais de 100 estava para lá das minhas capacidades.

Foi há 2 anos e um mês.

E eis-me a menos de dois meses de partir para o UTAX, 112 km e mais de 6000m de desnível positivo. E a ver a mesma incredulidade da parte das pessoas “normais” que pensam que há qualidades sobre-humanas no plano físico para completar uma ultra assim.

Na realidade, não são bem as qualidades físicas as mais importantes para terminar uma corrida destas no tempo limite (26 horas neste caso), especialmente se não formos em modo competitivo mas sim de finisher / survival. É sobretudo mental e aqui distingue-se um pouco da maratona de estrada por exacerbar mais esse lado. Alguém muito teimoso e com resistência ao sofrimento ganha a alguém mais rápido mas mais pessimista ou sensível.

Tem a ver com o que Tim Noakes chamou de teoria do “central governor” (que já tinha sido avançada em 1922 mas abandonada): um mecanismo no cérebro que é responsável por nos sentirmos cansados ou exaustos durante um exercício, não sendo esta sensação directamente relacionada com os factores propostos por modelos mais fisiológicos e que envolvem a energia que se esgota, o oxigénio, danos musculares, ácido láctico que acumula em anaeróbio etc. Ou seja, esta teoria – cada vez mais aceite – é de que o corpo não é bem uma máquina como um carro, mas que as sensações de cansaço e exaustão são também influenciadas por uma espécie de termostato no cérebro.  cérebro faz o switch off para a exaustão para se proteger e deixa-nos de rastos muito antes da real exaustão poder sequer acontecer.

As ultras são mais extremas neste domínio em particular, mas isto vai para lá do meu ponto aqui.

Em todas as provas e treinos mais duros o central governor vai falando cada vez mais alto e diz: desiste, pára. E aí entra o lado consciente que tem de forçar o movimento e contrariar essa mensagem, uma força de vontade à prova de bala.

Uma parte dos treinos é conviver com essa sensação e habituar-se a ela e contrariá-la. O próprio treino em si, o acordar, equipar-se, ir treinar-se, é um teste. Claro que há extremos e nem todos os corredores se tornam ultra runners ou maratonistas sub 3 horas. Preferia até nem pensar em corrida propriamente dita, mas abrir aqui o leque de actividades.

Continuo a insistir neste ponto: não é possível motivação substancial baseada num benefício como saúde ou emagrecer, porque essa motivação não será suficiente para derrotar um central governor contrariado e transformará os treinos num martírio e indisciplina.

O que pode acontecer, fruto de muitos factores, é alguém passar a gostar de um desporto qualquer depois de experimentar por esses motivos. Eu comecei a correr por “obrigação”, porque queria emagrecer e ser mais saudável, para fazer maratonas de BTT em vez de meias maratonas de BTT. Aconteceu que gostei ao fim de uns meses e depois fui sempre traçando objectivos e comprometendo-me comigo, com os outros.

A fase mais difícil e que exige mais motivação é o início. Tive todas as piores lesões no primeiro ano ao ponto de pensar em desistir. Pesava 86 quilos, hoje peso menos 10kg, são como 2 garrafões de cinco litros às costas: coitados dos meus joelhos, do meu coração! Fumava 1 maço e só deixei a 1 mês da minha 1ª maratona de estrada! Se começamos desporto aos 30’s e tais, 40’s e tais, o nosso corpo é um carro de sucata. As sensações são geralmente desagradáveis.

Se não conseguimos correr “fácil” ou então temos de correr muito lento, não temos o prazer de passear. Eu fazia treinos de 3km às voltas no INATEL.Era muito aborrecido.  E sobretudo, a nível de peso por exemplo, tinha zero efeito. A maior parte do exercício que as pessoas fazem não é muito relevante para perder peso e depois desanimam. Ou têm lesões e não voltam à carga, ficam obcecadas com médicos, palmilhas ortopédicas, cirurgias… não liguem. O corpo é o melhor regenerador. É preciso ter paciência, curar bem as lesões (lição própria), mas não desistir ou nunca se passa à fase 2. Alguém que tenha sempre problemas quando corre xis km’s por semana, mas queria correr mais, tem de mudar a abordagem. Ou o tipo de treinos, pisos, desníveis….

Para passar por essa fase, o truque é um plano fácil e progressivo que possa ser divertido e com vista a uma corrida / objectivo.

Infelizmente a cultura do ginásio coloca demasiada ênfase no sacrifício, na dor, no castigo. Vale tudo no início, uma pessoa pode começar a correr por querer perder peso ou melhorar a forma, como um sacrifício para ter um fim. A certa altura, a corrida torna-se um fim em si.

O meu grande objectivo é essencialmente este, mas pode variar de pessoa para pessoa e consoante a fase da minha vida:

quero viver enormes aventuras na natureza por todo o mundo e ter a euforia da sensação de superação

Coisas como as ultramaratonas mais difíceis do mundo e mais bonitas, e maratonas emblemáticas, podem dar-me memórias que mais nenhuma coisa me dá. São dias especiais gravados para sempre, porque são desafiantes a vários níveis, aventuras diferentes e reais em que descobrimos um “eu” que está aqui escondido e que é sempre mais forte do que pensávamos.

Numa fase posterior, hiking por trails com a minha filha, se ela quiser, montanhismo, etc. Quero fazer essas coisas ainda com 60 e tal anos pelo menos ou mesmo mais. Isto a mim inverteu-me um pouco a sensação associada a envelhecer, ou pelo menos atrasou. Sinto-me melhor hoje perto dos 40 do que com 20 e sinto que vivo mais aventuras. Detesto o “has been”, o complexo da pessoa que vive de recordações dos glory days em vez de ter no horizonte coisas espectaculares.

O estar um pouco mais saudável é só uma consequência disso. E o poder (ter de) comer mais.

Cada um tem a sua inspiração, o seu motivo e o seu desporto. Mas tem de ter uma inspiração maior e ter paciência. Ser gentil consigo próprio e ter curiosidade para procurar e descobrir o que o inspira. Eu tento sempre, mesmo num treino repetitivo no Estádio Universitário, ver uma nuvem diferente, ouvir os meus passos, brincar a tentar não fazer barulho a correr (melhorar a passada), observar as pessoas, respirar fundo… Depois de uma hora desta meditação real, é impossível não me sentir melhor.

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