Ultra douro Paiva 2015 – Relato

Na sala de espera da pequena cirurgia do Hospital de Santa Maria, quase 48h depois de passar a meta, a minha ultramaratona Douro e Paiva não terminou.
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Desde que parti às sete da manhã numa ponte sobre a foz do rio Bestança que desagua no Douro, que todas as minhas deslocações se contam pelos metros que faltam até chegar a outro ponto: da minha cama ao wc, do wc ao roupeiro, de casa ao taxi, do taxi ao café, do café ao outro lado da rua. Primeira vez que uso canadianas. Aliás, assim que acabou a prova, vim a conduzir para Lisboa, mais 360km de maratona. Depois subir escadas. Quanto tirei as meias não queria acreditar. Decidir lavar os pés e deitar-me com eles de fora da cama, para secarem e, no dia seguinte, lidar com “aquilo”.

Aquilo

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Lancetei bolhas (erro, não se deve fazer), mantive-me quieto, arranjei um par de muletas novas e na terça fui trabalhar.

pes
Não tenho feito boa publicidade ao desporto do ultra running. Pouco tempo depois de estar no trabalho, as bolhas começaram a doer-me demais e tive receio de uma infecção. Dirigi-me ao hospital “Como fez isto?” perguntam-me no hospital. “A correr”. Depois tento aplacar os olhares de espanto, explico a prova, as condições etc, tentando que aquela pessoa que me está a limpar e desinfectar as bolhas (a bolha?) em cada um dos pés, possa mesmo assim ter curiosidade em experimentar. Pelo ar da estagiária de enfermagem a quem o enfermeiro explicou o procedimento semelhante a queimaduras de terceiro grau, duvido que tenha sucesso.

Depois do hospital, estas ligaduras têm um ar muito mais profissional e sério do que as minhas.
curativo
Tenho hesitado na abordagem a este relato. porque sinto que é injusto que uma prova tão bonita fique tão deturpada pelo que considero ser um pequeno detalhe. Aliás, a única forma de conseguir terminar a prova prendeu-se com uma batalha psicológica que uma pessoa sã consideraria imbecil, e que se resumia a remeter para pequeno detalhe as sensações menos agradáveis que sentia nos pés.
Muito bem, o relato. Escolhi esta prova porque queria voltar à região do Douro e o excelente Douro Ultra Trail não me calhava numa data muito favorável. Ultra Douro Paiva, 64km +4000m, vamos a isso.

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Inscrevi-me há muito, com o meu amigo João LP, com quem fiz o Paleozóico e uma Ecomaratona. A minha preparação foi muito irregular. Saí da Transvulcania em Maio, muito cansado, fiz ciclismo, tive duas viroses cortesia da minha filha e vários factores impediram-me de treinar trail como devia. Por isso, para esta prova fui com uma mentalidade de finisher em modo passeio agradável (como se isso fosse possível, é tão estúpido como querer ir para a guerra no Afeganistão mas pedir o favor de não dispararem contra nós). Ficámos em Caldas de Aregos, saímos do hotel às 5:30 para ir para Cinfães, local da chegada e onde a organização tinha os autocarros que nos levavam para a partida, numa ponte sobre o Douro, perto da foz do rio Bestança.

Eu e o João, prontos para partir!partida2

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Não éramos muitos, menos de uma centena (91) e o ambiente era descontraído. Parecíamos tão pequenos naquela imensidão do vale do Douro. A temperatura já deixava adivinhar um dia tórrido. Às 6:30 da manhã era possível estar de t-shirt sem sentir frio. O nascer do sol sobre o Douro proporcionou um espectáculo surreal com o nevoeiro, a luz do sol e as sombras das serras projectadas nas margens opostas.
A partida deu-se e os km’s iniciais foram tão agradáveis que já tinha euforia do corredor ao quilómetro dois. Os primeiros 16km foram absurdos de bonitos. Sempre à sombra fresca, cruzando as margens do magnífico rio Bestança, num cenário de montanha russa de trail em single track e pequenas aldeias escondidas.

paiva3Uma vegetação densa, luxuriante, húmida, o ruido das cascatas de água, ora visíveis ora invisíveis em gargantas estreitas escondidas pela vegetação, o musgo, os pássaros, a luz do sol filtrada pelo coador das copas das árvores e uma tranquilidade tão grande que me pareceu que os corredores estavam todos imersos naquilo. Não que fossemos muitos, o número reduzido proporcionava uma paz muito invulgar para os primeiros kms de uma corrida.

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Aqui ainda me lembrava de não molhar os pés…paiva6

Ufff.paiva7
Tive muito cuidado e evitei molhar os pés, mas mesmo no fim tivémos de atravessar um lameiro, uma espécie de pantano, e os meus pés ficaram imersos em lama. No lameiro havia enormes vacas à solta, castanhas, que nos olhavam muito espantadas: quem são estes malucos?
Começou a grande subida inicial, 2 horas depois da partida, 1000m em cerca de 10km e que nos iam levar ao ponto mais alto. Saímos da sombra, veio o sol. Ainda não eram 10 horas da manhã e já estavam mais de 30 graus. A apreensão entre os corredores era alguma, sabíamos que a parte mais dura seria feita na zona mais exposta da serra de Montemuro e o dia confirmava-se tórrido. Ainda tive a ilusão de que lá em cima estivesse fresco e vento, mas salvo raras e deliciosoas brisas frescas, grande parte do percurso decorreu num ar estagnado, apenas remexido pelo bafo quente que se erguia do estradão branco, da rocha ou da poeira castanha escura. Bastava olhar para as eólicas: a maior parte estava imóvel.
Mas até aqui sentia-me bem. Já tinha perdido o João LP de vista numa subida, antes do primeiro pico. Ele voltou para mim e encolheu os ombros e eu fiz-lhe sinal para continuar. Não me estava a sentir mal, pelo contrário, mas ele ia mais em forma.

Os quilómetros voavam e eu até ia ganhando uma ou outra posição tranquilamente, caminhando com os bastões nas subidas, correndo em plano e nas descidas. Contudo, não estava totalmente descontraído. Inexplicavelmente, a organização colocou como tempo de cut-off no ponto de controlo dos 30km em S. Pedro as 5horas e meia, o que era muito curto. A minha estimativa se tudo corresse bem era chegar lá às 5h e qualquer coisa. Este facto fez-me ir num ritmo um pouco acelerado.
As vistas no topo da serra são completamente estrondosas.
Aqui contudo, o primeiro percalço grave. A distância entre os dois postos de abastecimento nesta zona era demasiado grande. Vários atletas ficaram sem água, entre os quais eu. Felizmente descobrimos uma bica deliciosa em Aveloso, um tanque de água fresca onde alguns já mergulhavam os pés. Deu para reabastecer. Mas passei tempo demais sem beber e, mais importante, sem ingerir Perpetuem (uma espécie de pó isotónico) ou gel, porque não tinha bebida. Mais de uma hora sem consumir calorias provou ser fatal mais tarde.Cheguei ao ponto de controlo precisamente com 5h26′ de prova, 4 minutos abaixo do limite. Era impossível ser aquele o tempo e de facto a organização alterou. Eu nessa altura ia no lugar 38º, com mais de 50 corredores atrás de mim.

Depois de um maravilho abastecimento em S. Pedro no km 30 onde bebi um redbull fresquinho que teve o mesmo efeito que a garrafa de powerade na transvulcania, apanhei o Eduard Irimia, um corredor romeno a residir em Portugal. O Eduard viria a ser uma das minhas companhias nesta prova e os quilómetros foram voando na primeira grande descida em direcção à Nespereira. Ele ironizava com a temperatura absurda: “Está frio outra vez!” dizia com o seu sotaque romeno sempre que éramos apanhados em mais um vale fechado.

Não há muitas fotos desta fase do percurso, não censuro os fotógrafos. Estavam +32º sem sombras… O Eduard nas margens do Bestança!

eduard
E foi perto do km 40 que tive uma quebra violenta. Em todas as minhas provas nunca me sucedeu uma quebra desta magnitude. Aqui sabia que o problema era falta de treino, não ter comido durante mais de uma hora e um deficiente carbo loading nos últimos dias. A quebra foi de tal ordem que tive de dizer ao Eduard para continuar a correr sem mim, eu tinha de me sentar no chão.
Ele recusou, insistiu, puxou por mim, mas não havia nada a fazer. Não tinha um sopro de vida, não conseguia sequer andar. Passámos por uma bica que brotava da serra, cheia de água fresca à sombra a e eu disse-lhe “fico já aqui, segue” . Tive de insistir. Ele seguiu e eu fiquei ali com os pés debaixo de água gelada (e assim se fazem bolhas, não deixando os pés secar…), metendo o boné debaixo de água e a dar “baldes” de água para cima de mim, a beber, a lavar a cara… uns 30 minutos depois e apanhei o Eduard outra vez a chegar ao abastecimento do Pindelo. Ele pareceu um pouco surpreendido de me ver regressar dos mortos. Não só regressei como estava muito bem disposto e com energia. Vá-se lá perceber.

Aqui mais molhanço de pés, desta vez com uma mangueira com água fresca de um poço. Alguns atletas lavavam as sapatilhas, descalços. Comi bolinhos muito bons, de figos e mel, devorava melancia, estava muito contente e sem pressa. Vi atletas a lavar as sapatilhas.
As minhas iam ficando negras, as meias perdendo a capacidade de absorção e secagem e já sentia pequenos sinais de bolhas ao km 44. Era como ter pedrinhas nos sapatos, mas descalçava-me, sacudia as sapatilhas e não saía nada. Percebi que eram bolhas, mas lembrei-me da transvulcania e que foi só no fim da prova que doeu mais. Tendo esta menos 10km o meu cálculo errado é que não chegariam a ser tão graves como as da transvulcania e que mais valia nao me preocupar com isso. Erro 🙂
No arranque para a última grande subida, já com quase 9 horas comecei a ficar preocupado. Aos 50km, com 10 horas de prova, já sabia que tinha problemas daqueles dos maus, mas as coisas precipitaram-se nos últimos 90 minutos. Aqui ainda ia a ganhar posições. Dois atletas que me passaram nesta fase, desistiam alguns km’s mais à frente, um montou num jipe, outro ficou no posto. O calor ia fazendo baixas Eu subia com os olhos semi-cerrados por causa da luz, em transe, vendo a minha sombra a avançar sobre o caminho.
Tinha deixado, não de propósito, o Eduard para trás. Serviu apenas de referência para o meu ritmo. Por pior que me sentisse, estava a andar bem.
Começou aqui o meu desastre, na penúltima descida. Apanhei um jovem atleta neste abastecimento, o Rui Gomes, e fomos juntos uns quantos quilómetros. Ele também estava a sofrer com bolhas, mas ia em bom ritmo. Cerrando os dentes lá fomos a correr, quanto mais depressa, melhor. Tive outra quebra depois da última subida, antes da descida final para Cinfães. Tive de me sentar numa rocha à sombra. Ele disse-me “se eu parar fico aqui”, despedimo-nos, uma coisa muito épica. Fiquei ali parado o que me pareceu uma eternidade, sentado numa rocha quente e suave, a ver a serra e o céu, eram 18:30. Pensei em deixar-me cair de costas e ficar ali à espera, imaginei um helicóptero a descer para me apanhar. Então vi um vulto ao longe a vir nos trilhos e pensei “epá não, não me vão ultrapassar”.
10 minutos depois tinha apanhado o Rui Gomes outra vez. De volta dos mortos, round 2. Quando uma das minhas bolhas rebentou, entre o dedo grande do pé grande e o outro. Senti algo estranho, um líquido quente a jorrar dentro das meias enlameadas e uma dor aguda, como se tivesse um alfinete espetado. Passámos por um riacho e de novo mergulhei os pés. O local da bolha rebentada deu-me uma dor semelhante à que teria se despejasse álcool etílico para cima da ferida. Disse ao Rui para seguir, eu provavelmente não acabava.
Faltavam apenas 8km para a meta (na verdade 4km, erro de distância da organização). Nem me passava pela cabeça desistir assim, nem que tivesse de ir de gatas. Fui andando com passos pequenos, devagar, quase sem avançar, apoiado nos bastões, até ao último abastecimento antes da meta, em Contença. Aqui fui ultrapassado por um, dois, três, quatro atletas, incluindo a 2ª classificada das mulheres que também sofria bastante com as bolhas.

Até ser apanhado de novo pelo Eduard Irimia que me acompanhou até à meta. A cada passo eu vociferava, num delírio. Só uns breves trechos de asfalto me permitiram aliviar a dor, pois em terreno regular eu conseguia dar passos pequenos. Tudo o que era descida com pedras, causava-me uma torrente de grunhidos de raiva que o Irimia até se voltava para trás do género “tudo bem!?” Até que passamos por um parque de merendas, somos aplaudidos e alguém me diz “faltam 2km!” Pelo meu relógio faltavam 6km. Eu e o Eduard discutíamos se seria verdade ou não, se não nos tinham dito aquilo para incentivar. Mentalizei-me que faltavam 6km e não 2km. Quando, passado um pouco, apareceu no horizonte a igreja de Cinfães. Reconheci-a. E disse ao Eduard “já chegámos” Só quem faz ultras percebe a diferença abissal que é uma surpresa (positiva) destas no fim de uma prova. Foi como um brinde inesperado. Passei a meta, reencontrei o João que já estava recuperado, pois chegou mais de meia hora antes de mim.
44º (em 91 starters), tempo 11h45m.

a expressão da dor e de felicidade!

chegada

mapa perfil

prova

No fim, devorei um caldo verde, duas sandes de porco no espeto, duas imperiais e partimos para Lisboa na hora, conduzir 4h… Optei por não tirar as sapatilhas para não ver aquilo até chegar a casa. Não sei se fiz bem, se fiz mal, mas pelo menos as dores ajudaram-me a não adormecer na autoestrada.

Em resumo… recomendo esta prova. É muito dura, especialmente pelo calor e pelo piso técnico quase permanente. Exige uma estratégia anti-bolhas pela conjugação de cursos de água, calor e pó. Apesar da dureza, se eliminasse o factor “bolhas”, que poderá ser eliminado com cuidado e preparação, esta prova tem uma dimensão ideal e a configuração ideal para quem se queira estrear numa ultra de peso. A zona é magnífica e vale a visita.

Obrigado a Cinfães e a todos os fantásticos voluntários que nos ajudaram.

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11 thoughts on “Ultra douro Paiva 2015 – Relato

  1. Todas estas fotografias (imagino que) do rio Bestança deixam-me cheia de vontade de ir lá para o ano… à prova pequena. Assim só apanho a parte divertida.
    És um valente, cada desafio, cada superação. Parabéns e bom descanso 🙂

    p.s. Abriram agora as inscrições do UTAX, devem esgotar depressa.

    1. Fui ver, abrem a 16 de Julho, amanhã. Estou a hesitar seriamente agora. Com os pés assim só começo a treinar em agosto… a alternativa é tentar sub 3h15 ou mesmo sub 3h na maratona do Porto… Que coincidência abrirem amanhã. É um sinal não é?

      1. Ainda bem que consultaste uma segunda opinião porque esse astrólogo que te andava a dar sinais para treinares para o sub 3h de maratona não tem uma abordagem holística. Se o objectivo de 2016 é MIUT, o UTAX é capaz de ser um passo mais adequado, sobretudo menos dado a lesões. E nessa altura já não está tanto calor que faça bolhas como agora. E a Lousã é mesmo bonita.

  2. Fixe as descrições das tuas maratonas. Foi pena a cena das bolhas. Se não fosse isso tinhas curtido muito mais e as descrições da “viagem” tinham sido bem mais interessantes. Pena…
    As melhoras.

  3. Ui… Não invejo o estado dos teus pés, mas invejo a tua determinação. Ah, valente!! Parabéns por teres concluído a prova nessas condições e desejo-te umas rápidas melhoras. A paisagem é fantástica.

  4. Bem, esta saiu-te literalmente da pele, mas a determinação foi mais longe que as bolhas.
    Agora é recuperar bem, para não teres sequelas e começares o caminho para a próxima (já vi que vem UTAX a caminho 😉 )

    Entretanto, se precisares de ajuda a carregar sacos do mercado avisa 😉

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