“nunca mais” e outras reflexões avulsas.

Aquele momento nas provas em que decidimos nunca mais nos metermos em algo assim ou naquela prova em específico. Já ouvi outros corredores mencionarem ou escrever isto: durante a prova pensam “nunca mais” e passado alguns minutos de a concluírem já pensam em voltar para o ano. Não sou diferente. Não queria passar por um momento de reconstrução do que vivi e torná-lo agradável. Fiz isso com o DUT, pelos vistos. E faria isso com a Transvulcania, mas desta vez fixei: o meu nível ainda mal dá para correr aquele tipo de provas com prazer, mesmo tendo conseguido uma classificação um pouco acima da média. A alegria de passar a meta e concluir algo assim tende a lavar a experiência e as endorfinas em barda tratam de alguma amnésia selectiva.

O facto da experiência de correr a maratona de Málaga em 3h30′ ter sido muito mais agradável do que as 4h de Madrid ensinou-me que podemos ser cada vez mais rápidos e, ao mesmo tempo, sofrer cada vez menos, nem que seja pelo facto de sofrermos menos tempo. O certo é que a Transvulcania não esteve para o DUT como Málaga para Madrid.

Repesco a minha reflexão no relato do Transvulcania: muitos atletas de topo esquecem-se das raízes. E temos entrevistas e relatos que na verdade reflectem uma experiência que apenas 1 ou 2% dos atletas de trail running vivem. Eu diria que há aqui um fosso de comunicação: são patrocinados e o dinheiro vem dos outros 98% que compram os equipamentos que eles usam. Vejo excepções como Scott Jureck a conseguirem manter um elo com as raízes puras do desporto e a respeitar na prática os últimos, ficando, por exemplo, junto à meta a noite toda para aplaudir os que chegam ou juntando-se aos voluntários da prova.

As ultras de trail não são o mesmo que maratonas de estrada.

Outra reflexão avulsa: há diferenças muito grandes entre correr provas lá fora (assumindo que são relativamente famosas e concorridas) e provas por Portugal. Eu diria que se complementam e que é mesmo bom combinar as duas. Uma coisa de que senti saudades foi da falta de portugueses, fossem atletas, público ou voluntários. Especialmente, estando a correr sozinho, senti-me um bocado isolado. Soube-me bem voltar a Portugal e aos seus discretos costumes.

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