Transvulcania 2015 – relato da prova v1.2

Nota: vou actualizando este relato com fotos e videos que vão saindo.

9 de Maio 2015, Transvulcania, 13h57’ – Lugar 618 em 1494 atletas (283 DNF e 119 desclassificados)
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“Vamos portuguesinho! Anda sigue!”
Era desta forma informal que o costa riquenho Warner me incentivava no último km feito a um estonteante ritmo de 7:00/km. Apanhei-o na última rampa e pensei que o passava. Ele parecia acabado, ali a mijar descansado virado para uma ravina. Tínhamos ambos passado pelo corredor a alucinar, deitado no chão, amparado por dois colegas. O alucinado esbracejava, falava sem emitir sons e quando me viu aproximar com uma garrafa de água ficou a olhar fixamente para mim com um ar verdadeiramente estranho que só vi num jovem a alucinar com ácido no sudoeste. A ajuda vinha a caminho, disseram-me e segui. Nesta prova vi vários casos de exaustão e desidratação extremos que nunca antes vi e que relatarei – e que têm motivado alguma acesa polémica nas redes sociais devido a um erro da organização ao divulgar uma distância errada entre dois postos na parte mais crítica do percurso. Já lá iremos.
Também comecei a ouvir uma voz feminina que dizia “és grande Lourenzo, campeon, eres muy grande.” E vi uma ‘palmera’ muito bonita, morena, sentada num muro, com uma máquina fotográfica de aspecto sério. Fotografou-me, devia estar com um ar muito atónito. Expliquei-lhe, enquanto passava, no meu portunhol, que pensei estar a alucinar quando ouvi uma voz tão bonita a dizer que era grande e um campeão, até porque me tratou pelo meu nome. Em parte estava a brincar, em parte estava a ser sincero. Claro, o nome está no frontal e os espanhóis têm o bonito hábito, fosse ali, em Madrid ou Málaga, de dar incentivos personalizados. Se o dorsal diz Ana, jorge ou Miguel, eles dão-se ao trabalho dizer “força Ana”, “animo Miguel”, “és um campeão Jorge”. Sabe bem. Não sei se ela assumiu que eu não conseguia ser irónico ao km 71 e voltou a repetir “não, mas a sério, fantástico, és grande”. Espanholas, palmeras… Era capaz de me habituar a ser um gladiador ultramaratonista.
Foi depois da curva seguinte que apanhei o Warner (que deve ter dito poucas à palmera). Gerou-se a competição mais surreal de sempre. Parecíamos dois caracois a subir a última, cruel e interminável rampa antes do km’ final em Los Llanos. Eu passava-o numa zona mais plana e no segmento mais a pique lá vinha ele. Às tantas tonrou-se claro que acabaríamos a corrida ao mesmo tempo, mas em vez disso nos fazer andar mais lentos numa espécie de acordo tácito, visto que ninguém vinha atrás, deu-nos um boost.
Ouvíamos a multidão ao longe, fomos avistados pelo “repórter” que estava numa vigia da cidade e que transmitia em directo para os altifalantes da meta. “Ai vêm mais dois corredores!” e a multidão, ainda invisível, já era bem audível. Era preciso dar espectáculo! Voámos no último km. Asfalto liso, soube-me tão bem. Amo asfalto liso cada vez mais. Adoro estrada. Quero a Spartathlon. Dêem-me centenas de quilómetros de esfalto. Quer que se fodam os calhaus e os pedregulhos e o pó! Ele com a bandeira da Costa Rica aberta, respondendo aos gritos dos muitos habitantes de Los Llanos com piropos engraçados, como virar-se para uma senhora e dizer-lhe “quero que sejas minha sogra” e ela respondeu-lhe que aceitava e ele vira-se para mim e diz “acho que ela não percebeu, eu queria é que ela fosse minha sogra, entendes portuguesinho?”
A propósito do portuguesinho, deveu-se ao inevitável cliché do “inho”. O ‘és de Portugal? Estás bonzinho? ” E ria-se. A meta parecia nunca mais chegar. Num último detalhe inocentemente cruel, a mesma situava-se no fim de uma avenida gigante e interminável e podíamos vê-la desde o início, ao longe. Era o fim à vista, o fim de uma longa a aventura. Polícias paravam o trânsito, o bruá aumentava de volume, a passadeira vermelha estava à vista, as crianças corriam connosco e o meu coração quase explodia, de alívio, de felicidade e de saudades da minha filha, de tudo.
Tudo começou umas horas antes. Uns dias antes. Uns meses antes. Não me vou alongar neste texto sobre La Palma e sobre a organização da corrida e outros detalhes, vou focar-me antes exlcusivamente no relato da prova, mas a verdade é que tudo em La Palma respira trail running e a prova começa assim que o avião aterra na Isla Bonita, o nome ‘informal’ de La Palma. Onde quer que estejamos há montanhas a erguer-se para lá das nuvens. As estradas são tão sinuosas que para chegar de A a B percorremos 3 ou 4 vezes a distância a subir aos s’s nas encostas. As estradas têm avisos de perigo de derrocadas que são reais: em várias viagens que fiz vi pedregulhs no meio da via, de derrocadas recentes, algumas no espaço de horas entre ir e voltar. A costa tem partes em que parece que a erupção que formou a ilha ainda decorre. É como se faltasse um letreiro gigante por cima da ilha a dizer algo como “Estamos a trabalhar para providenciar mais terra arável e habitável em La Palma. Prometemos ser breves e pedimos desculpa pelo incómodo – A Natureza”. O breve, claro, são milhões de anos. Como dizia a base de copos de cerveja no aeroporto: as coisas boas demoram tempo.
Logo no meu avião para La Palma reconheço o ultra runner Cristophe Le Saux (embora não soubesse o nome dele, conhecia-o apenas de videos e artigoo). Em Los Llanos, na 5ª e 6ª feira, centenas de corredores facilmente identificáveis a deambular pelas ruas: todos tinham o saco laranja com o kit da prova. Mais de 50 nacionalidades. Ouvia-se francês, italiano, inglês, inglês americano, alemão, e claro, espanhol. Testei o meu chip atrás de Dakota Jones, o vencedor de uma das edições e o corredor talismã da prova.
Jantei na véspera da corrida num restaurante italiano chamado casa blanca em Los Carcanjos, uma praia de areia cinzenta. Em 8 mesas, 6 estavam ocupadas por ultra runners e nem estávamos numa localidade perto da meta ou partida. Suponho que isto seja relevante para a economia local. Antes de me deitar pus kynesio tape no pé do entorse e pus pensos de protecção de bolhas nos sítios mais plausíveis, um cuidado premonitório, mas que foi insuficiente, foram massacrados na descida final.
Arrumei tudo com o maior detalhe possível. Adormeci com uma dor de cabeça grande pois nesse dia fiz uma longa sesta, tentando acumular sono. Tive, como era de esperar, dificuldades em adormecer e o despertador tocou às 2:00, precisamente quando tinha acabado de deslizar para a inconsciência. Decidi levar os bastões e foi a melhor decisão de sempre. Fundamentais, a meu ver, para “middle of the pack runners”.
Não fui de directa, mas quase. Tomei um bom pequeno almoço e equipei-me, meti-me no glamouroso seat ibiza branco alugado e conduzi até Los Carcanjos onde apanharia o autocarro da organização às 3:00 que me levaria à partida. Decorei o percurso nos dois dias anteriores, não queria enganar-me e perder a partida por um detalhe tão estúpido.
Pensei que só lá estariam alguns corredores, mas às 2:45 já havia uma pequena multidão de ultra runners. É um pouco surreal, quando se pensa nisso. Entramos no autocarro que encheu depressa, julgo que vinha outro atrás. A viagem foi sossegada, pela estrada sinuosa interminável convidava a enjoos. Podia ser uma excursão escolar, mas não havia um ambiente de euforia no autocarro, antes de aparente calma, apesar de se sentir uma tensão apreensiva no ar. Lua brilhante no céu e podia ver o mar prateado. Tentei dormir um pouco, sem ser capaz.
Chegamos a Fuencaliente e o autocarro parou a um 1km do farol. O vento açoitava a costa e a espuma das ondas brilhava ao luar, rasgada pelas pedras vulcânicas negras e irregulares. Fizémos o resto do caminho a pé. Já havia alguns corredores, abrigados do vento, alguns já embrulhados nas mantas de emergência douradas

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Não sei se é boa ideia da organização os autocarros chegarem tão cedo antes da partida, eram 4:00 e pouco da manhã e já estávamos lá. Tinha de esperar 2 horas ao frio e ao vento, mas pelo menos iria estar bem posicionado para não ser entalado no gigante engarrafamento logo no primeiro trilho. Os autocarros foram chegando e o cenário compôs-se, até se transformar naquela imagem épica que caracteriza a Transvulcania.

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Infelizmente uma coisa trocou-me as voltas: era preciso fazer controlo zero e passar à direita da meta para ler o chip e voltar para a grelha de partida. Eu estava apenas 4 ou5 fileiras atrás da partida e com a confusão de termos todos (uns 1500) de passar por um controlo onde só passava 1 atleta de cada vez, acabei por ficar mais atrás. Mas paciência. Bebi o redbull que tinha guardado para esse momento e deixei que a cafeína me acordasse.
Ao som de música de Beatles, acdc e techno radio cidade style, do animador e de entrevistas a corredores como o Bryon Powel do Irunfar (e autor do livro de ultras Relentless Forward Progress), Luis Alberto Hernando (o vencedor e recordista), Emilie Forsberg, Dakota Jones, Timothy Olson e outros, o tempo foi passando mais rápido. Estava ali a elite. Também estava a portuguesa Ester Alves que não vi e que fez uma grande prova. A multidão de corredores, mais compacta, também aquecia e ouviam-se palmas.
A 10 minutos da partida começou o zoom out a toda a minha existência. Ali estava em La Palma, a 2000km de casa, às 6:00, prestes a subir vulcões. Meses de treino e sacrifícios a culminar ali, naquele momento, numa ilha, no atlântico, ao largo da costa de marrocos, debaixo de um céu limpo e estrelado, apesar do forte luar. No farol já havia uma multidão, em parte composta pelos participantes da meia maratona que saíriam dentro de momentos.
O meu plano era arriscado. Como já tinha feito o DUT (80km, 4500m) em Setembro do ano passado, senti-me confiante que aguentava a distância e que iria correr a prova de forma competitiva e não com mentalidade de finisher. Ou seja, iria no limite e se estoirasse, paciência, apanhava os bocados do chão e seria finisher. Estava preparado para passar mal e não desesperar com isso. Depois de meses de treino, a viagem, de solidão, de me separar da minha filha durante dias, não tinha ido ali passear. Estava disposto a descobrir o limite da exaustão.
A prova começou e eu tinha os bastões arrumados na mochila. Fiz parte do arranque fora do single-track. Eu iria um pouco mais rápido que a “multidão” mas infelizmente sair do trilho significava ter de contornar pedras vulcânicas e de fazer mini-sprints de curva em curva. Estava já a esticar a corda e sabia. No primeiro posto em Los Canarios, uma povoação onde muita gente já nos aguardava e incentivava, às 7:00, cheguei a 1h15’ e estava em 833º (terminei em 600 e pouco). Isto diz bem de como esta prova se “alonga” devido ao single track inicial que dificulta ultrapassagens. E diz bem de como muitos runners não medem bem o ritmo… É uma centopeia luminosa gigante que se estende por km’s encosta acima e abaixo. É uma visão magnífica, de cortar a respiração, ver aquelas luzes a serpentear já acima das nuvens. Já havia muitos populares àquela hora que tinham praticamente acampado para nos ver passar e aplaudir.
Ia já uns bons 15 minutos mais lento que o split para as 12h que tinha previsto. Essa diferença acentuou-se no 2º posto e percebi que não faria 12h.
(Pequeno parêntises: pensei em 12h por serem o aparente cut-off de 50% dos atletas (em 2014), mas foi um erro. A forma como a organização da Transvulcania disponibiliza os resultados levou-me ao erro: fazem um ranking só dos finishers. Os DNF’s (sempre em grande número nesta prova) e desclassificados vão para listas separadas. Assim, dos que partiram, fiquei nos top 42%, superando o meu objectivo de ficar nos top 50%. Contudo, a corrida foi um enorme banho de humildade, ao ponto de ter ponderado seriamente durante momentos na prova nunca mais fazer ultras e só mesmo a meta final repôs o karma )

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Voltando à prova, já tinha os bastões esticados e foram úteis. Os primeiros 20km são quase todos num piso que oscila entre a gravilha, areia e pó / cinza vulcânica, com algumas partes de trilho de bosque. Ainda havia sombras nesta zona. Esforcei-me para pousar os pés em covas já feitas pelos pés de outros atletas. Os bastões davam uma excelente ajuda para fixar o apoio e não carregar demasiado nos pés e afundar.
É uma prova rápida para as elites que a fazem em 7-10 horas, mas para o resto dos mortais é outra história. O calor começou assim que o sol espreitou, num nascer que nunca esquecerei, já por cima das nuvens. As árvores no fundo negro e cinzento do vulcão pareciam verde fluorescentse. Já estávamos acima dos 1800 metros.
E começaram os meus problemas depois da subida inicial. Os meus e os de muitos. Quanto aos meus, comecei a sentir os efeitos da altitude e do piso mole logo ali aos 25km. Notórios: movia-me em slow motion, muito mais cansado que o normal. Já havia um número elevado de desistentes, pelo menos, em termos relativos. Este ano a organização obrigava ao comprovativo de ter completado pelo menos 50km de trail, pelo que supostamente não haveria turistas amadores como supus. Via corredores aos pares sentados debaixo de uma rara sombra aqui e acolá e outros a descer o trilho no sentido oposto. Eu confesso não sentir propriamente empatia por quem desiste nesta fase da prova sem ser por uma lesão ou problema grave e não podia ser o caso de pares de amigos a descansar à sombra. Se lhes apontassem uma arma e dissessem: amigo, ou sobes isto até ao próximo posto ou levas um tiro no cú, é que se via se realmente conseguiam ir até lá ou não. Quanto ao descansar à sombrinha, não consigo pensar num método melhor para transformar uma ultra num calvário completo ou num muito provável DNF. Nunca em caso algum sentar-se para descansar um bocadinho, a não ser que se esteja a ver tudo escuro ou tonto. As paragens “obrigatórias” como fazer chichi, largar puns (já lá vou), encher cantis de água ou ajustar uma sapatilha são mais do que suficientes. Não deixem que um momento de preguiça vos lembre ainda mais que há uma existência pacífica em que é possível ficar sentado à sombra a admirar paisagens!
O ar de alguns daqueles corredores era mais um “epá, fuck, não obrigado, se isto vai ser assim mais 50km, esquece”.
As coisas nunca correm como se espera. No meu caso foram fortes dores abdominais, cólicas, sobretudo nas descidas ou em esforço, pensei que estava com diarreia. Tomei imodium mas não passou. Tive de me afastar do trilho e perdi uns bons minutos a “tentar resolver o problema”, perdi lugares. As dores continuaram. Aqui comecei a ver a prova mal parada. Não no sentido de desistir, mas no sentido de nem sequer me divertir. Aos 25-30km estava literalmente de rastos como nunca num treino e estava a ser ultrapassado o que normalmente não me sucede, pois costumo ser constante no meu ritmo e aos 20-25km é normal estar mais ou menos a acompanhar o pessoal do meu nível. Mas é uma das coisas espectaculares desta prova: a quantidade de corredores faz com que exista quase sempre uma referência para o pessoal entre os 30-70%. Há sempre alguém que está melhor do que nós e alguém que está pior. É muito dinâmico! Sempre a passar e a ser passado.

foto tidada daqui
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Estava alienado de tudo à minha volta, da alegria, da euforia, do momento. Só pensava naquelas caimbras que me dobravam em dois nas descidas. Quando cheguei ao refúgio de El Pilar onde uma multidão enorme nos esperava, a única coisa em que pensava era numa casa de banho confortável. Vi daquelas cabines de PVC no meio da multidão mas teria de sair do percurso e seria tudo menos discreto. Nem parei para me abastecer, tinha água e preferi queimar o trempo para, uns km’s à frente, me esconder (não era fácil naquela paisagem) e ver se aquilo me passava Perdi mais lugares. Escatologia, lamento, mas estava cheio de gases. Senti um alívio enorme, contemplando a Caldera vulcânica, quando recomecei a correr parecia outro. Não tinha diarreia, o que seria muito complicado tendo em conta o potencial de desidratação da prova. Fui sempre a ganhar posições nos km’s seguintes. Moral da história: estar mal às vezes é como a austeridade: quando acaba, sabe bem e a economia cresce e assim.
Então comecei a voar. Em termos relativos, claros. O que dizer das paisagens? Primeiro, a maior parte das fotos e videos não faz juz ao percurso. A verdade é que se focam muito na parte de altitude máxima e na partida, que são as mais áridas. Existem zonas de floresta e matas floridas e viçosas. O single track é simplesmente o mais bonito onde já corri ou pedalei. Vai na “crista” do vulcão gigante (do qual só sobra uma parte) ou na encosta íngreme. Mas depois entra mesmo na parte filha da mãe.
Depois de El Reventon começaram os problemas a sério, um mix de culpa da organização e minha. Não havia abastecimento em Pico de Las Nieves. Na altura pensei que fosse só minha, por só ter levado 500ml extra de água em el reventon e o resto de outro cantil de 500ml. A tabuleta dizia 12km e estava errada. Eram mais… 20km. Na parte mais difícil do percurso. O resultado foi ter-me acabado a água. Este ponto está a mercer fortíssimas contestações nas redes sociais, pois antes havia um abastecimento no pico de las nieves e os materiais da organização não foram todos actualizados.

Um exemplo Transvulcania Isla de La Palma, a un paso de la tragedia

As desistências e desidratações sucederam-se, mas não foi só aqui e TODOS os anos desistem pelo menos 20% dos corredores. Este ano nem foi dos mais quentes. Ainda me distraí a falar com um cientista do CERN creio eu, um físico quântico. As pessoas que conhecemos nisto! Disse-me que conhecia portugueses daí e elogiou a revolução sem vítimas, sem vioência, rindo-se, pois deve ser o tipo de merdas que está sempre ao ouvir do belo do tuga onde quer que esteja. Falámos de matemática e partículas quânticas e maturidade intelectual. Até que ele descolou, estava mais forte. Enfim, típicos trail runners.
Eu pela primeira vez desde que corro senti sede e assustei-me um pouco devido às condições extremas. Calor acima de 30º nas partes abrigadas, sol a pique e altitude acima dos 2000m combinado com esforço físico forte, enfim, em meia hora podia acontecer-me algo. Vi uns locais que estavam acampados à beira do trilho com um guardasol, e todo um aparato de geladeiras e farnel. Já andava um enxame de corredores à volta deles e eles converteram-se em Aid station, dando água que íamos partilhando entre nós, sedentos e bocadinho de maçã que uma senhora ia descascando e colocando em pratinhos. La Palma é isto! Estas pessoas, esta gente! Um argentino ao meu lado não tinha água, nem eu, fomos os dois a lamentar a nossa sorte. Eu estranhei, achava sempre que seria já no monte seguinte, no seguinte, no seguinte… via o trilho a ondular de calor no horiznte, corredores ao longe dobrados, e nada. Decidi que o melhor era acelerar o mais possível, respeirei pelo nariz e mantive-me calmo. Não me sentia mal, só com sede, mas estava a transpirar tanto que sabia ser uma questão de minutos até acontecer algo novo e desagradável, algo semelhante ao que tinha sucedido a um que estava estendido à sombra com um homem da organização a falar num walkie talkie e a dizer “coño! Estou sozinho aqui! O que querem que faça a este “tio”? que o leve às cavalitas?!”. Nisto, vejo um homem da organização a descer o trilho com um saco isotérmico. Pedi-lhe água, deu-me powerade.
Meus amigos, foi como o Oatmeal no Why I run Ultras. Aquela garrafa de powerade não sabia a sangue de fetos de unicórnios, mas podia ser estrato de golfinho dos açores com arco íris e flor de lótus com cocaína. Sei que aquela merda me entrou nas veias directamente e que quase chorei de alegria. Eu que quando vejo Powerade nas estações de serviço só penso nos gordos e gordas deste mundo que bebem aquilo aos litros nos ginásios. Eu… que tinha li na minha mão, a 2300 metros, o segredo da vida. E eu nem gosto de Powerade

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Quando finalmente cheguei a Los Muchachos, 51km, 4500m, o ponto mais alto, vi o que sucede em casos de desidratação. Vários atletas em macas, pálidos, cerosos, chupados. Um caos de gente a abastecer-se. Bebi duas coca-colas de enfiada, meio litro de água, melancia, gelo… Não sei como havia tipos a comer esparguete e pão. Há pessoas que não estão satisfeitas com a dificuldade de uma prova com calor, querem mesmo ter vómitos e paragens digestivas! Muito bem! Segui depressa viagem – ganhei sempre posições nos postos. Para além dos que se sentam à sombrinha, também temos os que acampam nos posto e depois já não se levantam. Só queria sair da altitude, descer, descer, descer, ar, oxigénio.
Seguiu-se uma parte deliciosa e “corrível”. Tinha ouvido dizer cobras e lagartos da descida de 20km mas a verdade é que nesta parte estava a comer lugares em catadupa ao ponto de pensar que ia fazer 13h ou menos… Era escandaloso. Tinha os quadricípetes inteiros e funcionais e voava no downhill. Os outros atletas iam à rasca. Agradeci aos deuses os treinos em Sintra. Até que, passado 3 ou 4km apenas, começou.
As bolhas. O cabrão do terreno era só calhau, degraus, pedras irregulares, protuberâncias, com pequenos troços mais lisos, mas raros. Os meus la sportiva ultra raptors eram torcidos de todas as maneiras e feitios e comecei a sentir bolhas. Não num ponto do pé, mas em ambos os pés e em vários pontos. Às tantas as dores forçaram-me a abrandar tanto que acabei por ser apanhado por alguns que tinha ultrapassado a voar vinte minutos antes. Deviam estar a rir por dentro. E eu merecia.
Tirei os bastões e esforcei-me, a cerrar os dentes, para me manter perto do maior grupo. Não ia deixar fugir toda gente. Comecei a tornar-me melhor no uso dos bastões como amortecedores. A altitude foi diminuindo e passámos por zonas menos áridas, algumas com vinhedo em socalcos a lembrar o meu querido e amado Douro do DUT. Povoações onde os palmeros nos aguardavam e incentivavam. Quando cheguei ao abastecimento Forestal El Time aos 60km já não conseguia pensar. Tinha passado para o lado de lá. Coisas estranhas afloravam-me a mente.
Pensei em coisas como estar a andar sobre lava de pés descalços. Como nunca mais na vida iria correr ultramaratonas de trail. Pensei na fénix morta e renascida e que aquilo era a minha morte. Um aldeão interrompeu-me do transe e vendo a minha bandeira de Portugal no dorsal gritou “vamos animo, estás a desfrutar mais da vida do que o Cristiano Ronaldo” e ri-me e ele também.
Tinham montado, nessa povoação, um chuveiro improvisado e parei lá debaixo um pouco. Depois foram crianças que se ofereceram para me despejar um balde de água em cima. Recusei primeiro, mas percebi que para elas era um jogo e gostavam de fazer aquilo, por isso aceitei. Tive quase de me ajoelhar para que conseguissem. E a água escorreu-me da cara, suja de cinza de vulcão e vi as minhas mãos e só ouvia o coração nos ouvidos. De novo uma quantidade de merdas bíblicas e assim a passar-me pela cabeça. Agradeci-lhes. Riam, riam… Foi como um sinal. Voltei a recuperar a pouco e pouco e a apanhar corredores completamente desfeitos pela descida. A parte da Bajada para o porto de Tazarcorte é verdadeiramente assustadora.

foto tidada daqui

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Não recomendavel a quem tem vertigens! Passei vários atletas nessa descida, já nem raciocinava, só queria despachar aquilo. Cá em baixo na praia, um grande aparato e multidão, passamos por um pórtico a 6km da meta! Quase que dava vontade de ficar por ali.
A corrida seguia pela praia e depois pelo leito seco de um rio que tinha ainda uma pequena lagoa onde crianças se rebolavam e enchiam de lama vulcanica. Piso arenoso, gravilha. Duro. Vejo um runner à minha frente a andar com bastões, aí a 100 metros. Eu ia a andar também e pensei “vou-te ultrapassar, não vou arrastar-me nos 6km finais ou nunca mais chego” Então corri. E corri e corri. E aproximei-me tão lentamente dele que parecia estar a ter um pesadelo num daqueles efeitos do cinema em que o corredor se estica. Ele a andar, eu supostamente a correr e quando cheguei ao pé dele, o rio começou com pedras grandes e tivémos os dois de andar. E aí ele desapareceu de novo. E como se não bastasse, fui ultrapassado por outro corredor a andar. Nota mental: treinar andar rápido com bastões!
Então chegámos a última surpresa que eu não previra. Imaginei uma pequena subida até los llanos. Não aquilo. Foi aqui que vi o tal corredor a delirar. Foi sinistro, por mais que brinque com isso.
Nestas alturas o melhor é desligar a mente e entender que não vale a pena contrariar. É preciso chegar ao fim, não vale a pena pensar que cada passo custa e que faltam mais e mais e mais passos. É ridículo como depois de 71km os últimos 2km ainda nos fazem pensar em desistir. Passei uns 5 corredores estoirados nesta zona, nesta subida. Uma rapariga dava passos em slow motion, lentamente, um, depois outro, depois outro. Um rapaz, suponho que o namorado ou amigo na friendzone, dava-lhe incentivos carinhosos. Era mesmo eu. Eu diria algo como “pois pois, quando é para os saldos no colombo já andas aos pinotes piso acima piso abaixo”. Não sei o que diria. Mas ela parecia mesmo mal. E isto nestas coisas, sabem, às vezes irrita-me ligeiramente o domínio mediático dos elites… Quero dizer, a realidade de 80% das pessoas – pelo menos, mas diria 90% – que fazem estas provas vivem experiências que não se comparam com as elites na mesma distância. Aliás, aquele nível de esgotamento… um elite desiste provavelmente, está num dia mau. Não se vai arrastar até à meta como aquela miúda. Os mais lentos são os mais corajosos disse, creio eu, Scot Jureck, que tem por hábito esperar por corredores no fim das provas.

a recta da meta, foto tirada daqui

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Depois da meta, ao lado do Warner, tive uma explosão de exaustão. Bebi três coca-colas. Falámos, tirámos fotos. Fui à tenda da podologia pela primeira vez e lancetaram-me meia dúzia de bolhas, ligaram-me os pés. Estava eufórico, mergulhado num nirvana. Deambulei pela cidade, vendo mais corredores, comendo bifanas de La Palma e bebendo uma cerveja, até apanhar o autocarro. Vendo corredores com as suas famílias, com os filhos ao colo, senti-me um pouco deslocado da festa e nem mesmo os sorrisos e elogios que as pessoas me atiravam só por me verem passar nas ruas com a medalha ao peito, me animaram mais.
No autocarro, agora estranhamente quase vazio, adormeci. Tive dificuldades em conduzir até casa. Só quando tomei banho e vi a cinza pela ralo abaixo, e senti o ardor das assaduras, da queimadura solar (estou com um escaldão gigante nos braços) das bolhas lancetadas, a sede infinita, a fome de 8 mil calorias queimadas, é que comecei a sentir-me finalmente a chegar à meta. Bebi uma cerveja antes de dormir, contemplado a noite de La Palma e agradecendo a esta ilha a maior e mais épica aventura. Se decidi a meio da prova que não faria os 100km do UTAX este ano e que me ficaria por provas de 80km para baixo até isto ser mais fácil, a verdade é que ao ver a bruma fluorescente da lua a avançar vinda de áfrica, fiquei convencido que nasci para este tipo de coisas e que só têm mais significado quando saímos mesmo da zona de conforto. Que dias assim ficam marcados para sempre e que nos mudam.

ps: incluirei mais fotos à medida que saírem, estas foram tiradas com o meu “tijolo” das provas 🙂

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25 thoughts on “Transvulcania 2015 – relato da prova v1.2

  1. Fico impressionada com a quantidade de fatores para além da distância – que já de si é imponente! – que se consegue meter numa prova para a tornar um inferno. Mas dizem que só as coisas difíceis é que valem a pena e não sei quê, não é. Parabéns!

  2. Espero que haja muita gente a chegar a este post, e ao blogue, por arrasto. É um relato tão intenso e genuino de uma prova deste género que, aqui deste lado, ficamos a amaldiçoar a impossibilidade de calçar uns ténis e sair neste momento por aí a subir a primeira montanha monstruosa que nos apareça à frente. Muitos parabéns pela prestação, mais uma vez. E parabéns por fazeres essa gestão tão inteligente da preparação destes grandes desafios, do dia em si, e pela forma como lidas com os imprevistos. É admirável, tudo menos ‘portuguezinho’. Venha a próxima e boa recuperação 🙂

  3. Grandessíssimo texto. Quanto ao “principio” em si, continuo a não perceber. Essa cena do sofrimento, superação e nova consciência no fim da dor e o doce sabor de triunfar na competição connosco próprios, faz-me lembrar Opus Dei para não crentes enxertada com a cartilha do empreendedorismo – e tudo isso vai profundamente contra a minha espinhela caída hedonista.

    1. Sem dúvida amigo Vareta, Opus Dei é uma boa imagem sim senhor. Mas receio que o texto não tenha sublinhado mais as belezas naturais de La Palma ou que se obtêm destas experiências. Palmilhar montanhas durante horas dá visões muito bonitas, às vezes de cortar a respiração como neste caso. Ou seja, não falamos aqui de correr numa passadeira num ginásio, há um prazer “hedonista” mas mais do tipo homem das cavernas.

      1. Ok, é qualquer coisa mais “%0 sombras de Grey”, então… 🙂

      1. Não me dês ideias tristes, que eu depois fico com vontade de concretizar essas as ideias tristes e…

  4. Fod.-..! Agora fiquei com vontade de ir fazer isto para o ano. Parabéns pela excelente prova, tão cheia de momentos épicos e brutais. Bons treinos para a próxima da lista 🙂

      1. O meu planeamento de 2016 vai estar de novo dependente do resultado do sorteio do UTMB. Para além de querer repetir o MIUT em condições, a restante wishlist é extensa como a tua: Ehunmilak, UTAT, Transvulcania, UTMF, entre outras… Houvesse tempo e dinheiro. 🙂 Lá mais para o fim do ano defino o calendário, quem sabe se não vais ter um porteguesinho a fazer companhia em alguma dessas provas! 😀

  5. Ainda não tinha vindo espreitar esta tua casa. Muitos parabéns, mesmo! Deve ser uma sensação incrivel, essa de nos superarmos a nós próprios!

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