o cérebro e a percepção do cansaço

O Scott Jurek no Eat & Run explica que acredita nas teses polémicas avançadas por um investigador (não me recordo do nome aqui), também citado por Mat Fitzgerald no seu Run By Feel, que nos diz que a percepção de cansaço é profundamente determinada pelo cérebro. Ele corrobora isto pela sua própria experiência de ultramaratonista de elite e pelo que observou. Dá o caso de um atleta na western states (160km) que ia vencer a prova e bater um recorde da mesma. Viu o que pensou ser a meta, afinal não era, faltavam ainda umas míseras centenas de metros. Mas colapsou com o embate psicológico. Incapaz de dar mais um passo, esgotado. Desistiu. Isto é obviamente psicológico. A teoria diz que o cérebro calcula subconscientemente o esforço necessário para completar uma corrida e que vai recrutar as fibras musculares e regular uma sensação de cansaço adequada, para proteger o corpo da exaustão total (e o próprio cérebro da privação de O2 ou energia). Scott diz que uma ultramaratona é 90% mental por causa disto e ele, que não se considera rápido, tem a capacidade de quebrar a barreira do sofrimento e ignorar o que o cérebro lhe está a dizer, transcendendo-se. Eu senti isso chapado na minha primeira maratona em Madrid, em que a cerca de 7-8km da meta tive a sensação que não podia dar mais 1 só passo e dei até ao fim, sempre no limiar do colapso, para atingir as 4h. Nunca fui tão longe nesse território e espero nunca ir!  No Paleozóico pude observar isto já com alguma experiência. Achei curioso que a minha exaustão fosse tão coincidente com a meta. Seria eu um corredor assim tão experiente que tivesse gasto 99% das minhas capacidades, num pace perfeitamente ajustado à distância? Não acredito. Se me tivessem dito “tens de correr mais 2km” eu penso que desistiria com o golpe ou andaria a até à meta. Mas, se a prova tivesse 50km em vez de 47km, será que a teria feito mais lentamente? Provavelmente não ou muito marginalmente. Simplesmente sabia que teria 50km e não 47km e o meu cérebro ajustava-se a isso, assim como as minhas expectativas. Quando treinei para Málaga recordo-me de ter terminado uma meia maratona de teste no Baleal, ao ritmo a que queria fazer a maratona, completamente exausto. Como poderia fazer o dobro da distância a esse ritmo? É evidente que há aqui muitas variáveis para além do “físico”, do fisiológico.

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