34km em Bucelas ao Luar

Pensava treinar amanhã de manhã, não era possível, mas deram-me a tarde no escritório. Como vou ter a minha filha no fim de semana, achei melhor aproveitar e fazer um long run com desnível em serra se possível. Escolhi a zona de Bucelas porque o piso não é muito técnico e quero ir para Sintra e afins só no pico do treino e quando o entorse estiver totalmente curado. Além disso o desnível não é extremo e quis isso para evitar acordar o monstro no joelho. Fui ambicioso no track, um de 34km. Sabia que me estava a esticar um pouco, mas também sabia que nos próximos 3 dias vou só poder correr a empurrar a minha filha em pistas boas, pelo que tinha de aproveitar.
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Foi um treino épico a todos os níveis, um dos mais bonitos que já fiz e certamente um dos mais longos (mas não mais demorados a nível de horas). Talvez o 2º mais longo que já fiz.

A certa altura encontrei uma cassete de “Clemente”, em excelente estado, no meio do nada. Guardei-a. Não preciso de explicações.

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Comecei pelas 17:30 e assisti ao pôr o sol. Tirei esta foto instantes depois de me cruzar com uma raposa enorme que ficou especada a olhar para mim. Pensei que fosse um cão, de tão grande que era, mas era uma raposa, avermelhada. Fantástico, já tinha visto várias raposas, mas nunca uma tão perto.

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Se o Sol se punha a oeste, a Este a Lua já subia no céu (está por cima do pinheiro), a Lua que me fez companhia nas horas seguintes, cheia, curiosa, coberta por uma neblina que lhe deu ainda mais mistério.

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Primeiro foi a minha sombra que se foi alongando no chão. Pensei muito no RDUT em que também corri no entardecer até ser de noite. Lembrei-me do João Marinho, tão feliz nesse dia por o seu evento ter corrido tão bem. Parecia-me um pouco irreal ainda, aos 12km, conceber que ia correr mais 21km em desnível e ainda por cima em plena hora de jantar.

A luz estava tão bonita e ver a minha sombra gigante por cima dos campos, a correr, fez-me sentir que estava a deslizar, que não era o meu corpo, eu não estava ali. Nunca entrei numa trip tão boa como neste run. Ou talvez sim, mas tendo a ficar amnésico depois disto. As povoações e algum asfalto intervalavam os períodos de caminhos rurais, raramente técnicos. As populações foram-se recolhendo e fiquei imerso, com a noite, na mais pura solidão. Só eu e o meu foco de luz, do frontal, a palmilhar serra, a ouvir os sons, as perdizes espantadas, os cães distantes a ladrar, a ver os coelhos, uma borboleta, o fino manto de pó que se vê no foco, em todos os focos. Aí pelo 20 e tal km’s comecei finalmente a sentir-me bem num grande troço de asfalto sinuoso, uma estrada lindíssima. Consumi apenas perpetuem e as cápsulas de electrólitos e penso não ser psicossomático considerar que os electrólitos fizeram diferença, esteve algum calor no início. Mesmo nos 30km eu falava sozinho, assobiava, cantarolava baixinho, respiração completamente controlada. Sentia que podia correr mais 30km apesar das dores. Estava na zona. Correr à noite ajuda muito. Há qualquer coisa que nos faz focar no Agora puro, talvez pela concentração extra que é necessária para ver onde metemos os pés, talvez pela atmosfera mais misteriosa, empolada por estarmos no campo escuro ou numa estrada sinuosa sem iluminação pública, com uma visão do estilo faróis do Lost Highway do Lavid Lynch, numa cadência automática, hipnótica. No fim comecei a ficar impaciente, a apenas 1km e meio do carro ainda estava no meio de uma serra, mas lá pisei asfalto e fiz os últimos metros sempre a correr. Quando cheguei ao meu carro, 4h depois de o deixar ali, com o parque ainda cheio, senti um grande alívio e apercebi pela primeira vez do quão longe andei dele.

Tive de parar de emergência no McDrive a vir para casa e ainda comi as batatas todas no carro e bebi meia cola estacionado logo ali. O meu corpo sente carência de lixo nestas alturas. Se lhe desse couscous com passas ele achava que o treino ainda não tinha acabado. O corpo e o espírito precisam de fast food para fazer as pazes comigo.

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O joelho praticamente não reclamou, mas tive cuidado, o ritmo foi conservador, não fui largado em descidas, estava lá o fantasma. MEsmo assim, muito melhor do que no fim de semana passado. Só queria estar tempo a correr, viajar e treinar o endurance e a capacidade de metabolizar gordura, de ter paciência. Foi uma boa aventura e é daquelas que não dá para partilhar, só mesmo experimentando 🙂

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