não sou treinador mas…

A minha treinanda e eu falhámos o sub 2h na meia de lisboa. Vai fazer sub 2h em Maio, dia 10, se cada um fizer o seu papel, parece-me plausível raparmos 12-13 minutos ao tempo dela. Tenho pena de vir da Transvulcania nesse dia, ou fazia a meia maratona com ela para lhe servir de pacer. Percebemos juntos o que correu mal, para além do problema do relógio que lhe deu indicações erradas. O treino “level 1” da Garmin para meia maratona é demasiado leve. Adequa-se a um finisher, ponto. Eu também senti isso e acabei por nunca o fazer oscilando entre o nível 1 e 2. O problema do level 1 é que nunca dá sofrimento nem workout que sejam desafiantes, especialmente no que respeita a correr no treshold level ou séries, e depois chega-se à prova e não estamos sintonizados para sofrer. Os treinos a sério começam nos planos de nível 2 da Garmin e nas séries. É nesses workouts que vamos ao limite, que o ar falta, que vemos tudo escuro, que contamos os minutos, os segundos, que nos deleitamos com as pausas entre séries até a pulsação voltar ao normal. Eram esses workouts de que eu tinha saudades quando optei (e bem) por voltar a treinar estrada para a Maratona de Málaga e tirei 30 minutos ao meu PR de Maratona que tinha 7 meses. Não que o meu grande treinador, o José Carlos Santos, não me tivesse receitado coisas semelhantes para o RDUT, simplesmente, não eram prioritárias, o prioritário era aguentar horas e horas a mover-me, a subir e descer. Ainda há semanas no Paleozóico senti o poder que treinar velocidade dá, mesmo numa prova longa (6h50m). Senti isso quando ia em grupos de bons corredores, em single tracks, e eles iam num ritmo um tudo nada acima daquele que eu iria e eu não os largava ou em subidas em que as pulsações iam bem altas. Esse estar bem nessas sensações treina-se e é bem mais cerebral do que físico. O cérebro precisa de ser convencido que está tudo bem, que ninguém vai morrer, especialmente o de um sedentário que nunca fez desporto a sério, como é o caso de praticamente toda gente que começa a correr…

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electrólitos

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Chegaram as cápsulas de electrólitos. Com calor extremo podemos perder muitos litros de água por hora (2-3) e muito, muito sódio e outros sais. As cápsulas da direita (extreme) têm apenas uma concentração 3x maior que as da esquerda e são para condições muito quentes. Eu preciso de uma adaptação para já. No paleozóico nem esteve calor extremo e terminei de novo branco na cara e com as tradicionais manchas brancas na roupa e mochila, do sal. Um dos meios de adaptação é reduzir o sal na comida e nos próximos tempos, vou fazer um esforço. Não que use sal na comida, mas goto de snacks salgados e quando como fora, estou à mercê das dosas maciças de sal que tradicionalmente se mete na comida. Com adaptação, a quantidade de sódio no suor diminui muito. Podia ser uma vantagem face aos ingleses e outros estrangeiros, mas a esmagadora maioria dos corredores são espanhóis.

Noutra nota, isto é uma foto de uma estação de abastecimento… fila! Ordeira, mas uma fila imensa.

fila

Eu passava-me, espero que isto não aconteça, quebrava-me completamente o ritmo e a motivação… um pouco surreal. Devia haver uma fila separada para quem só quer água que é o meu caso, pois vou em autosuficiência a nível de nutrição, pelo menos, o suficiente para 1 ou 2 postos de controlo. O corredor que tirou esta foto terminou em 16h. Garanto que perante uma fila destas, se tiver água na mochila, zuca, ganho logo 100 posições de uma vez. Já no RDUT arranquei de um posto onde não havia água e se esperava por mais e passei por outros dois sem parar. Também me atrofia um pouco a ideia dos primeiros km’s a andar de devagar devido ao congestionamento no primeiro trilho. Importante arrancar o mais à frente possível e fazer um sprint.

Inscrito: Ultra Trail Douro e Paiva 64km +4500m

ultra

Em Julho vou enfrentar esta prova que, a julgar pelos números, é um monstrinho: +4500m em 64km! Pelo meio há ainda a Ecomaratona de Lisboa, mas ainda não sei se vou, tenho de ver como evolui o joelho nos próximos tempos. O objectivo é em Outubro fazer os 100km do UTAX. Já pus de parte a Atlas Toubkal, é coisa para se fazer com mais pessoas e este ano já vou gastar algum dinheiro para a Transvulcania. Enquanto não conhecer mais provas e locais deste país fabuloso, não se justifica para já, para o meu nível, tanto investimento externo. Compro o que é nosso, pronto.

longo 28km, 3h

treino0

28km em 3 horas este sábado de manhã cedo. Já não me divertia tanto a correr há algum tempo, aquela sensação de sair de casa e ir por aí, ver Lisboa fresquinha e solarenga pela manhã. O joelho deu de si em todas as descidas muito íngremes (Monsanto) e aos 20km em tudo. O treino fez-se em ritmo lento, mas tanto asfalto e empedrado moeram-me. Estou apesar de tudo optimista para a recuperação do joelho, só preciso de fazer treinos mais curtos e continuar a evitar desnível negativo muito alto. E estou a ponderar adquirir uma stepper que simula subir escadas, dando um treino de baixo impacto bom para treinar desnível positivo (não recomendam elípticas).

a dor

Depois de uns meses intensos a nível pessoal, por vários motivos, deixei de ter estrutura e tempo para treinar. Treinei tão duro que me lesionei. Não diria volume, não aguentei mais de 2 semanas nos 70km semanais, treinando 2 vezes por dia muitas vezes. O problema foi mesmo a intensidade. Estava desfocado e ansioso, queria entorpecer-me, “massacrar-me” até deixar de pensar, mitigar a ansiedade. A experiência nos trilhos do Paleozóico, com o meu bom amigo JLP, regenerou-me. O contacto com outros trail runners, com a natureza, com coisas simples, com o meu limite, mostrou-me o sentido disto tudo, de novo. Foram 6h53m gravados na mente, ninguém mos pode tirar. Estou com muita fome de treinar duro e fazer um grande Transvulcania. Quanto à dor, o título deste post, quando reflicto sobre o que me motiva nos momentos em que quase desisto, como sucedeu no Paleozóico aos 35km devido às dores agudas no joelho, penso que a razão é até algo fútil, prende-se com o que os outros pensarão de mim se desistir. Parte da razão de ser deste blogue ou de certos posts no meu facebook pessoal, é criar uma espécie de compromisso público. Provavelmente ninguém quer saber, mas eu digo “vou fazer xis” e prefiro – honestamente – colapsar, gatinhar como a queniana da maratona de Austin, do que conscientemente desistir e desiludir. Para eu desistir é preciso mesmo haver um shutdown qualquer. Teria de entrar em espasmos, desmaiar, seja o que for. Por sensações físicas como “doer”, nunca. Descobri isso no paleozóico e “Deus” (não sou crente) apareceu-me na forma de um fellow ultra runner que tinha, por acaso, um anti-inflamatório mesmo à mão e o comprimido fez efeito em 5-6 minutos, como se dissesse “ok ok já percebi, toma lá esta merda e acaba a corrida”.

mais items para o kit vulcânico

trangocarbondistancegaitors

E pronto, acho que é tudo para já. Encontrei um excelente guia do runner Ian Corless para o Transvulcania. É de 2012 mas o percurso sofreu poucas alterações. No fim uma recomendação para o calçado: recomenda as La Sportiva Ultra Raptor entre outras opções, tudo o que tenha grip e amortecimento. Sem dúvida que havendo troços em terreno técnico rochoso, especialmente nos últimos km’s, parece-me bem algo com mais amortecimento.

La-Sportiva-Ultra-Raptor2

É curioso como esta sapatilha, não tendo que eu saiba, grande “push” de marketing, acabou por conquistar tantos adeptos. Usei-a no RDUT e no Paleozóico e uso-a apenas em treinos longos ocasionais, para a poupar para as corridas. O meu amigo JLP que veio comigo ao Paleozóico comentou que parecia que metade dos runners tinha umas destas. Eu diria 25%, mas mesmo assim muitos. Comigo foi tentativa erro. No início desconfiava do drop alto e vinha influenciado pelo minimalismo do Born To Run. Mas depois de as experimentar, rendi-me.

Inferno

O relato do 3º lugar de Sage Canaday da Transvulcania 2014, para além de brutal (envolve alucinações, quase desistência, perder os comprimidos de sódio etc.), dá dicas preciosas. Primeiro diz que há grades 20-30% e em piso meio arenoso! Bem me parecia que a escala do gráfico escondia as rampas. Vou levar bastões. Preciso de “gaitors” para impedir pedrinhas e areia de entrar. O isto é um relato de um top runner.

Aqui um relato da Yitka Winn, uma atleta nível perfeitamente middle of the pack, e que dá um feeling mais próximo do que eu vou sentir:

The first 50K would be mostly relentless uphill—almost all of the course’s 15,000 feet of elevation gain occurs in the first half of the race. We’d run from sea level up to 7000 feet, then back down again a bit, then steeply up again to the course’s high point of 8000 feet—mostly on soft, black volcanic sand. “Every step you take uphill, your feet will slide right back down—just brutal!”“And then you’ll pop out into the crater, and blimey, it’s so hot, it’ll just feel like you’re running into a furnace!”

I had looked forward to the long downhill after the high point around 50K in, but like a child craving ice cream all day only to discover it had all melted before I got a taste, I was sorely disappointed by the reality of the downhill—so steep and technical that, on my tired legs, it was far from runnable.

The final few miles feature long stretches of steep pavement—both uphill and downhill—off of which the 90+ degree temps and beating sun were radiating like, indeed, a furnace. Two miles from the finish, a runner collapsed on the hot pavement right in front of me, screaming and writhing in pain. Medics were there in a heartbeat to carry him away. At the finish, I watched dozens more collapse and be carried away on stretchers. Is this even healthy? I asked myself, and again, Why, why, why?

Bem, eu mesmo antes de correr já sei que a descida final é muito técnica e difícil de correr, por isso não vou ter a desilusão psicológica que ela sentiu ao vê-la. Quanto à questão da elevada temperatura, prepararei uma dose mais concentrada de Perpetuem para as primeiras 4 horas, antes do calor, mas depois devo ter doses menos concentradas.

Entretanto, já encomendei isto.

endurolyte extreme

Cápsulas de electrólitos específicas para temperaturas muito altas, têm concentrações se sódio e potássio 3x superiores às cápsulas normais. Justifica-se.