Maratona de Málaga 2015, o relato (versão 2)

Fiz 3h30’38”, 732º em 2492 concorrentes.
Hoje, um dia depois da maratona, assisti a partes de duas missas na Catedral de Málaga e na belíssima Igreja de San Juan e comovi-me a ver o Cristo e a ouvir a bela música. As famílias de Málaga, tão características da Andaluzia, com os seus cabelos negros, impecavelmente penteados, as crianças engalanadas e irrequietas nos bancos, o cheiro a insenso, aquele cenário cheio de inspiração moura do império Nasrid de GRanada, romana, fenícia… Como fui lá parar, não sei explicar ao certo. Não sou crente, muito menos católico, mas se há coisa que de que o maratonista percebe é de mortificação e expiação. E de tapas e cerveja pós corrida.
Minutos depois destes breves momentos de comoção, vi-me na esplanada do El Pimpi a sorver um maravilhoso gin e a observar o teatro romano na encosta da fortaleza Alcazaba. Isto foi, repito, um dia depois da maratona (hoje, a maratona foi ontem). Não escrevo este relato a quente como teria escrito ontem, com as veias cheias de endorfinas.

Vamos ao relato puro e duro do evento desportivo.
Uma noite muito mal dormida. Curiosamente, não foi a maratona a preencher-me a mente, mas sim stresses do trabalho. Isso enervou-me ainda mais. Dormi 40-50 minutos de cada vez, acordando, verificando o relógio, dormindo de novo. O meu Garmin 610 a carregar a noite toda.
De manhã equipo-me, já tinha tudo quase pronto. Visto uma sweatshirt de capuz preta que tenho há 10 anos e de que me ia despedir. Aprendi com Madrid: leva uma camisola velha qualquer de que te queiras ver livre, veste-a e tira-a um ou dois minutos antes da partida numa madrugada gelada e nunca mais a voltas a ver. Não cometer o erro (que aprendi com Ecomaratona de Monsanto e os 10k do ISCTE) de julgar as sensações da partida com o que vai suceder na prova. 99% das vezes vamos ter calor a mais. Apesar da mínima de 5º optei por não levar qualquer roupa para além dos calções e t-shirt do Douro Ultra Trail em homenagem ao João Marinho. Tomei o pequeno almoço reforçadíssimo num IBIS repleto de atletas a fazer o mesmo. Estranhei a pressa de vários deles. Alguns já saíam para a rua. Eram 7:00 e a partida era às 8:30. Temi ter estimado mal o tempo do hotel até à partida, a pé. Subi.
E aqui começa a maratona. O relógio tinha a bateria a zero.

Percebi imediatamente que estava, desculpem-me, fodido. Trata-se de um bug de vários garmins. O f”#$” entra em crash-restart até fazer o drain total da bateria. Tinha-o deixado a carregar com a bateria a 80% . De manhã estava a zero. Treino, como sabem, de forma muito focada no pace, no batimento cardíaco. Ver-me privado disso foi um rude golpe, mas antes que pudesse afectar-me mais, decidi não o levar (ainda andei às voltas com hard resets, incrédulo). Tive vontade de o esmagar com o calcanhar das Saucony Ride 7, juro. Em Madrid optei pelo Suunto, aqui devia tê-lo levado mas não quis acreditar que o Garmin que nunca me falhou catastroficamente em quase 2 anos me ia, no dia maratona trair-me desta forma. Lembrei-me que havia pacer das 3h30, no problem. A chatice era não registar, gosto de registar para o Strava e partilhar. Paciência. Ia ser um run “nú”. Treino sempre com relógio e monitor… agora ia a zero! Fuck it. O que conta é o tempo oficial. E teria pacers. Mal sabia eu.

Chego à meta, nos jardins de Málaga, cheios de palmeiras, verdejantes. Não há curiosos, quase, só atletas e familiares e amigos. Isto não é a Rock N’Roll de Madrid que ao pé de qualquer outro evento de corrida a que já fui está para um Real Madrid Barcelona no Barnabéu para um Académica União de Leiria na mata real. Vou aquecendo no meu luxuoso casaco com hoodie, o pessoal a gelar. Havia uma porta para +3h:30 e outra para +3:00. Logicamente, meti-me na mais +3:00 pois queria fazer 3h28. A box estava vazia. Senti-me elite. Nisto vejo finalmente o pacer das 3h30. Não era o MArtin Fiz como anunciado, mas sim um puto qualquer com ar assustado. Mau. O puto foi meter-se no meio do maralhal das +3h30. Nem queria acreditar. Como é que o imbecil do pacer das 3h30 se ia meter nos +3h30!? Não era suposto fazer 3h29 por exemplo? Conho puta madre. Não o podia perder de vista, não tinha relógio. Se arrancasse demasiado rápido podia nunca mais o ver e estoirar. Quis chegar-me ao pé dele. Saí da minha box, furei pelo pessoal das +3h30′ e finalmente apanhei-o. O puto parecia assustado e nervoso. Falava com pessoas, perguntava coisas, parecia procurar alguém. Depois fugiu! FOi para a box das 3h00 onde EU ESTAVA ANTES. E eu não consegui furar, multidão já se tinha compactado.

Claramente, não era o meu dia, mas estou habituado. Foi assim no DUT (disturbio gástrico), foi assim em Madrid (gps a sobrestimar o pace). Já sei que em dia de corrida Dios mio me vai atirar com tudo. Tirei a camisola, atei-a a uma grade na vã esperança de que ainda lá estivesse no fim (não estava, acabo já aqui com um spoiler).

Partida. Tento contar mentalmente os minutos até passar pela partida e contar o tempo de chip. E depois, operou-se um milagre.

Primeiro, tinha de furar até apanhar o cabrão do pacer das 3h30′ sem me estoirar demais. O ritmo das pessoas que me rodeavam, meu Deus. A estrada, estreitíssima. Não conseguia passar. Comecei a desesperar um bocado aqui. Sei que estes segundos não se recuperam e amaldiçoei a ideia de me ter metido na box das +3h30′. Ao km 4 ou 5 finalmente apanho o pacer das 3h30′ e relaxei. Pensei na minha ingenuidade que a organização era profissional e que o pacer sabia o que estava a fazer. Ouvi um espanhol a comentar para outro que iam a 4:50. Precisamente o pace que eu tinha determinado. Pensei “óptimo”. Puta madre. Dios mio. Esses aceleraram. Às tantas começo a notar uma espécie de resistência geral, aí aos 7km. Começo a sentir “pá, estes gajos vão demasiado devagar”. E passo para a frente do pelotão das 3h30 (havia um relativo espaço vazio para a fente). Nisto, começo a afastar-me cada vez mais. E começo a hesitar. Atenção, na minha mente nesta fase eu estava convencido que o pacer ia de facto num pace sub 3h30 e por isso eu ia num pace do género 4:50 ou mesmo 4:40. E prendi-me. Tive medo de me estoirar violentamente. Uns kms depois veio o vento contra, na meia volta para Oeste.

E aqui numa interminável corrida pela marginal desprotegida fui sempre a saltar de grupo para grupo para ir protegido do vento. Foi uma parte sofrida do percurso. A cidade de Málaga é bonita no centro, mas estes arrabaldes são tenebrosos. O Mediterrâneo cortado pelo porto e autoestradas, barracões e armazéns… e um percurso sem marcações! 27 atletas foram desqualificados nesta corrida, incluindo as 2 líderes femininas por falharem o percurso. Inacreditável amadorismo. Eu não sofri desse problema porque ia numa corrente de pessoas, mas reparei nesse detalhe: ninguém da organização e nenhuma marcação.

Pelo caminho vi t-shirts motivacionais, a melhor foi uma que dizia “o sofrimento é passageiro, o orgulho é eterno”

Aos 20 e tal kms já não via o pacer das 3h30. Aqui pensei que ia a caminho de um tempo épico ou de um estoiro monumental. Escolhi uma equipa de 3 gajos vestidos de igual (verde), uma gaja pequena, uma espanhola toda pro que ia à minha frente e um espanhol que ia com uma t-shirt a dizer “equipa dos pés negros”. Iam todos a ver o relógio e pareciam determinados num pace. Foram os meus pacers a prova toda. Acabei por me fixar na espanholita de rabo de cavalo que parecia pro. O pies negros afastou-se demais, os vestidos de verde ficaram para trás depois de um ter vontade de mijar e os outros dois irem atrás dele.

Trouxe 8 géis, o plano era 1 por cada 5k nos abastecimentos, 4 deles para esforços de longa duração, 2 com cafeína e 2 com muito sódio. Infelizmente os abastecimentos não estavam em km’s cetos, havia aos 5km, aos 7km, aos 11km… uma confusão. De modo que notei que tinha consumido um gel a mais. Para não acabar em seco, decidi saltar um abastecimento, o dos 25km e só tomar perto dos 30km. E claro, senti o baque do tanque a zero. Felizmente não durou muito. Comecei a sentir-me um pouco eufórico. Assobiei. À minha volta o pessoal parecia morrer. Ouvia respirações pesadas. Eu sentia-me bem. Aos 28km sentia-me bem. Menos o facto de estar a sangrar copiosamente do mamilo esquerdo, algo que nunca me sucedera em tempo seco (40% de humidade), mas que se devia a usar uma t-shirt (a do rdut) pela primeira vez, em homenagem ao João Marinho.

Então bateu-me à porta, a minha velha amiga “desiste”. Comecei a ouvir a voz, ténue a princípio, depois cada vez mais forte. Aos 40km era estridente. A espanhola baixinha dava tudo por tudo e parecia sprintar, mas percebo que deve ter sido impressão minha, ela só estava a manter o pace estável. Lembrei-me dos treinos. Quando vi a placa 38 por exemplo, pensei “38, faltam 4000m, são 4x 4:50, nem chega a 20 minutos, já fiz treshold runs no EUL de 25 minutos, isto não é nada, isto não é nada”. O público na parte final era muito. Gritos, vozes, via tudo turvo. Túneis, descidas, subidas. O coração ia a 190 ou mais. Atenção, não havia sinal do pacer das 3h30′, eu levava-lhe um avanço de 3-4 minutos. Por isso pensei que ia fazer um enorme tempo. Na recta final vi o cronómetro 3h32 minutos… achei estranho. Logo ali desconfiei. Não me pareceu que demorasse mais de 2 minutos a passar a partida. Acelerei.

Terminei feliz e deixei-me ficar uns minutos encostado a recuperar, eufórico. Nisto, passados 3-4 minutos, chega o Martin Fiz, anunciado pela organização. Deve ter feito os últimos 5km…

Vim a saber que fiz 3h30’e 38 segundos. O que signifca que o pacer oficial fez uns 4-5 minutos acima do seu tempo. Também que várias pessoas se têm queixado de que a maratona tinha entre 300 a 400 metros a mais (no facebook), embora já tenha visto isso noutros eventos (aconteceu-me em Madrid).

O certo é que teria comido 1 minuto facilmente com o relógio porque teria cronómetro ou com um pacer decente. Em MAdrid foram dois pacers, os mesmos do princípio ao fim, os dois para corrigirem algum erro do outro e dar a média dos dois relógios. E apontaram para sub 4h por dois minutos para ter margem. Aqui se eles se revezavam, deviam ter passado o relógio gps. Está-se mesmo a ver o que sucedeu, um acumular de erros de medida graves.

Bom, em qualquer caso, sinto-me feliz e realizado. Mesmo. Tendo em conta o que foi acho inacreditável sem relógio e sem qualquer informação de tempo (nem sequer a merda de um cronómetro na meia maratona havia) eu ritmei a minha corrida para as tais 3h30 minutos, mesmo pensando que estava a fazer mais rápido. Se isto não é um case study sobre os cálculos subconscientes que o cérebro faz para nos ritmar, não sei! Só demonstra o quão preciso pode ser o nosso computador. Não devo exagerar, porque fui “paceado” por pessoas que tinham relógio gps e de facto há uma espécie de “média” de relógios gps.

Málaga é bom de se conhecer, mas não recomendo a maratona porque ignora o que há de mais bonito em Málaga, o centro histórico e teve estes problemas de organização (pacers, marcaçoes). Teve problemas ainda mais graves como a desqualificação de 27 atletas de topo. Este comentário no FB reforça isso:

Por el bien del prestigio del Maratón Málaga deseo con todas mis ganas que la organización cambien de manos cuanto antes, lo siento, pero son mucho errores -y graves- en muy poco tiempo y os estais cargando algo que solo debería estar dando beneficios a la ciudad.

É o tom geral. Esse e o facto de terem registado +300 ou 400 metros…
Agora vou reflectir nisto tudo e depois recomeçar 2015 com força para os trilhos do paleozóico e depois transvulcania. Quem alinha? 🙂

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3 thoughts on “Maratona de Málaga 2015, o relato (versão 2)

  1. Bom, nas ultras (ainda) não alinho mas já tenho a minha primeira maratona programada para o ano, o que já é um passo bastante ambicioso para mim e capaz de me preencher 2015 em termos físicos.

    Queria-te dar os parabéns por mais um objetivo ambicioso ultrapassado! És uma inspiração. E obrigada pelo relato detalhado, é mesmo emocionante ler os altos e baixos emocionais e físicos que um atleta passa durante uma distância tão comprida.

    Venha a próxima corrida!

    1. Obrigado! Acho que parte foi apagada da minha cabeça, às vezes lembro-me de mais um ou outro detalhe, como o que custaram os km’s contra o vento de como me lembrei do Baleal e do vento… É muito ambicioso mas tenho a certeza que vais conseguir, só resta saber em quanto tempo 🙂

  2. Parabéns pela prova, 3h30 é uma grande marca!
    (acerca do reverse charging, o meu 610 começou a fazer isso há cerca de 1 ano, limpava contactos, ajustava encaixe de carregador, etc, etc, mas o problema nunca se resolveu completamente… mais um erro de concepção grave… tem cuidado e não forces os pins do relógio, podem soltar-se do circuito interno e é a morte dele…).
    Já tinha dado os parabéns? Grande tempo! Parabéns!

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