plano e orientação

Uma das coisas que dá prazer na corrida é a constante superação. Na corrida de estrada é mesmo a principal fonte de motivação, sendo a saúde ou o runners high, para mim, um extra. Isso e poder comer muito. Falando por mim, não poderia motivar-me sem essa sensação de progressão real. Para ter essa progressão, confio na sabedoria de quem desenha planos ou num treinador experiente que desenha um plano próprio e o vai adaptando. Não apenas pelo lado técnico, mas também pelo lado de motivação e de potenciar o meu nível da forma mais eficiente possível. Apesar de ter paciência (e um plano implica paciência) quero depressa chegar a um nível que me permita fazer a maior parte das ultramaratonas do mundo, desfrutando das provas e sentindo-me bem.

Claro que existe a possibilidade correr por ‘feel’ (o livro Run by Feel de Matt Fitzgerald aborda isso) quando já se tem experiência. Mas mesmo nos planos,  é sempre preciso cruzar um plano base com o nosso feeling para ajustar certas coisas, especialmente para evitar lesões e over-training em planos demasiado ambiciosos. Isto é a minha abordagem e explico desvantagens que eu vejo noutras formas:

1) Há quem treine mais ou menos de forma constante o ano quase todo, isto é, correm numa determinada rotina, por exemplo, todos os fins de semana correm à beira rio, no mesmo percurso – isto gera uma progressiva estagnação e elimina o lado motivador da progressão. O corpo fica cada vez mais habituado aquele treino, aquele volume, aqueles ritmos, de das duas uma, ou ficará mais e mais eficiente e o treino terá menos e menos impacto ou então vai gerar lesões. Os planos introduzem quase sempre diversidade dentro do próprio plano. Planos diferentes para provas diferentes, trazem mais diversidade de estímulos e um atleta mais completo.
2) Treinar fazendo muitas provas, época caótica. Respeito e fascina-me ver pessoal que faz no mínimo uma prova por mês, às vezes 1 por semana(!) mas em quase todos os casos isso vai gerar problemas de lesões, cansaço e estagnação. Farto-me de ver pessoas que competem com lesões e ecos de cansaço de provas anteriores, coisas como “ainda tenho o pé todo lixado da ultra de há 15 dias” ou “vamos lá ver, para a semana tenho a maratona xis” na grelha de partida de uma meia maratona, arrepiam-me um pouco. Também tem o problema de retirar o carácter especial e competitivo à prova e, por isso, aos treinos (para além do cansaço). O meu treinador e alguns experts dizem que quase sempre há uma factura que vem com delay de 2-3 anos, e o corredor simplesmente esfuma-se em lesões e cansaço interminável. E já agora, é oneroso e exigente a nível de tempo livre…
3) Correr muito em grupos. Respeito muito e é motivador. Já fui, como aqui relatei, a um treino épico de 8 horas e 42km, em grupo (embora tendo corrido sozinho a maior parte do tempo não fosse um colega em tapering para MontBlanc e a uma colega com um joelho tremido) e quero muito correr com os Esquilos um dia destes, mas pelo lado do convívio. Será certamente uma boa hipótese quando entrar no treino para novas ultras em 2015 e precisar de meter volume na agenda sem me aborrecer. Mas de resto, acho complicado que duas pessoas tenham as mesmas necessidades de treino e objectivos exactamente coincidentes, quanto mais grupos maiores. O ritmo fácil de um é um ritmo duro de outro!
4) Não dividir a época em blocos bem definidos. É bom correr, mas também é bom parar sem ser por lesão e descansar. Os planos incluem quase sempre semanas de menor carga para recuperar. E após um ciclo de treinos, é bom saber que podemos parar para recuperar, até termos outro período.

5) Por último… falta de disciplina e motivação. Um plano mete na agenda o que temos de fazer e funciona como um estímulo externo, algo que é “imposto” de fora, mesmo durante o próprio treino. A duração de um run pode parecer arbitrária, porquê 1 hora em vez de 55 minutos? Porquê 5 séries em vez de 4? Ser imposta de fora é completamente diferente de correr enquanto nos apetece. Com treinador isto é acentuado. Se remetermos a corrida apenas para os momentos em que nos apetece treinar, não podemos progredir a sério. Se os nossos treinos apenas reflectem o que nos apetece fazer no momento, dificilmente vamos progredir. Já cheguei à conclusão que, na corrida, o treino só é relevante onde começa a vontade de não treinar. Muitas vezes sinto que os 55 minutos de um treino são uma preparação para intermináveis 5 minutos finais em que só me apetece carregar no stop, ou que em 8 séries, 7 foram para tornar aquela 8ª infernal e resistir à vontade de a mandar à fava. E é isso que depois no dia da prova vai ajudar.

Tendo praticamente concluído sem lesões o plano de Nível II da Maratona da Garmin (um plano que me destruiu em Fevereiro Março deste ano e não consegui seguir nem de perto), mais tarde vou tentar o advanced, nível III, que tem mesmo treinos bi-diários em certos dias e um volume a rondar os 80-100km por semana, usando o feel para ir experimentando e vendo quando devo descansar. Mas isso será depois de ter corrido várias ultras, incluindo uma de montanha com mais de 100km. Até lá, não ponho os pés em estrada!

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