João Marinho e escolhas de vida

Até ao momento, João Marinho continua desaparecido nos picos da europa e a guarda civil espanhola continua as buscas.  No último status da sua página de facebook lê-se: Nothing is as important as passion. No matter what you want to do with your life, be passionate.

É ele o grande organizador e a alma por trás do fantástico Reccua Douro Ultra Trail, a minha primeira ultramaratona. E devo-lhe a ele e à sua visão, um dos melhores dias da minha vida e que marcará para sempre. Ele não é aventureiro apenas nos trilhos das montanhas, é também um empreendedor dinâmico. Com apenas 31 anos organiza já dois grandes eventos de escala e nível do melhor que se faz em Portugal. Em termos de promoção do evento e ligação com a terra, batia tudo o que se faz. O seu amor à região do Douro é contagiante. Parte do sucesso do RDUT deve-se ao fabuloso trabalho de promoção e divulgação e é minha intenção voltar a essa prova várias vezes ao longo da vida. Durante meses, tal como para o Ricardo, com quem acabei a Ultra, trocámos alguns e-mails, ele respondeu sempre às minhas dúvidas e no fim da ultra lá estava ele para me dar o prémio, a garrafinha de vinho. A segurança era uma prioridade e mesmo na partida frisou a necessidade de nos protegermos do frio no Marão (o que não se veio a verificar, o dia esteve bom). Foi também ele que me aconselhou um treinador, o que vim a fazer, devido à dimensão da tarefa a que me propus. Digo estas coisas e podia dizer muito mais. Digo-as porque não quero que se pense que o João é o típico adrenaline junkie, um retrato que infelizmente os media tendem a projectar nestas situações, mesmo que não seja por mal. A meu ver, ele caía mais na categoria de amante da natureza, grande atleta e empreendedor do que propriamente de “radical” como a que associamos a desportos como base jump. O João fez coisas extremas como pedalar pelo deserto da Mongólia, mas eram provações sobretudo físicas e mentais, não de probabilidades, de jogar com o risco, como por vezes sucede em quem procura emoções mais extremas (nada contra, respeito e admiro todas essas opções). As hashtags do seu último post e a foto sugerem que este passeio nos Picos da Europa se inseria mais em backpacking.
joao

#mountains #passion #trailrun #adventure #exploring #lost #epicmoments #nature #notarmac #movember #refresh #relax #recharge #reccuadouroultratrail #nexplore #fall

Há certamente quem saiba muito mais do que eu, mas também reforço essa ideia pelo facto de não ter sido dado logo o alerta, era suposto ter dado notícias apenas alguns dias depois. Por isso é que tenho esperança, uma vez que se for esse o caso, significa que partiu preparado para enfrentar o frio, mesmo com manta térmica de emergência, comida, isto no caso de estar imobilizado e que talvez haja água, por exemplo, neve. Não quero especular, mas falamos de uma pessoa experiente. Para quem não faz trail, não passa pela cabeça a check list de material de provas mais extremas ou de montanhistas experientes. Não brincam em serviço. As condições extremas de montanha não lhe eram desconhecidas e ele foi preparado de certeza.

Em Julho escrevi um post a explicar o motivo pelo qual me sujeitava a certas coisas e tenho a ambição de correr provas mais extremas, um post em que colocava a tónica na paixão de que fala o João e na pressa que tenho. Escrevi isto: A ilusão de controlo sobre as coisas importantes da vida é irracional. Assim como amanhã as coisas podem ir no sentido que imaginamos, também podem ir no sentido contrário. Tudo isto que vivemos é frágil. E não há nada mais precioso que a vida e o corpo que, qualquer atleta o dirá, é uma máquina extraordinária

Eu falava de lesões e dureza física e não de risco de morrer e respondia a uma mentalidade que muitas vezes é contrária a isto e nos diz para ter calma. Calma porquê? A morte do meu pai marcou-me, foi algo totalmente aleatório, um tumor maligno no cérebro. Quando compreendemos como a vida é tão fugaz, percebemos aquilo que o João diz, de viver as coisas com paixão. Por isso acho mais importante procurar e explorar do que propriamente ter medo e viver escravizado e dominado por limitações muitas vezes auto-impostas. Claro que nem todos temos a coragem de, como ele, fazer uma vida 100% dedicada à nossa paixão, incluindo o lado profissional, empreendedor, mas mesmo como escape, podemos procurar momentos intensos, de verdade e liberdade absoluta, nomeadamente a solo, como ele fez nos Picos da Europa.

Já agora ficar sentado 8 horas por dia dá 40% mais de hipóteses de morrer nos próximos 15 anos do que uma pessoa que só se sente 3 horas por dia. Isto é um facto. Mas ninguém  me diz “cuidado, não te sentes 8 horas por dia!”. Podia dar 300 exemplos destes, de como as pessoas estão condicionadas pela própria experiência e de como são cegas aos riscos que as rodeiam  – e ainda bem, ou a nossa vida seria um inferno de paranóia permanente.

Para concluir, espero que o João regresse e tenho esperança que sim, tenho esperança que evidente pessimismo das autoridades, porventura experientes em lidar com casos de turistas e backpackers amadores, seja fundado num desconhecimento do super atleta e montanhista experiente que ali está. Não desistam e continuem à procura, é o meu desejo. Não escondo que fiquei muito triste com a notícia. O João não tem mesmo aquela aura de pessoa a quem estas coisas podem acontecer, é mesmo o oposto.

Advertisements

8 thoughts on “João Marinho e escolhas de vida

  1. Pena ter conhecido este blog com este texto em particular… Mas gostei do conteúdo. Vou passar a seguir! (de alguém que sp correu curtas distâncias e que agora desespera por voltar a rua com rotura de ligamentos no tornozelo)

  2. Tenho um certo pudor de comentar a vida de alguém que não conheço por isso, quanto ao João Marinho, limito-me a desejar que o desfecho seja o melhor possível.
    Compreendo e subscrevo o que dizes em relação à aliciante do desafio e da superação solitária (ei, até Jesus foi para o deserto!), é importante que se perceba que alguém que faz isto não improvisa nem está a brincar com a própria segurança.

  3. Só tive contacto com o João no Trail Curto do Reccua. Fiz o trail curto e cruzei-me com ele 2 ou 3 vezes no percurso. Em todas eles deu palavras de incentivo.
    A prova é das melhores onde já participei!

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s