november rain

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Tudo muito estranho e surreal. Sem dúvida um dos treinos mais épicos que fiz, por todo o contexto, a começar por ir correr sem jantar às 19:30 depois de um dia de cão. Só decidi a direcção quando saí da porta… optei pela ciclovia que vai até ao Parque das Nações. Queria um bom primeiro loop bem espaçoso que limpasse as primeiras 2 horas e meia antes de cair na zona do EUL e Campo Grande para os 30 minutos finais em ritmo forte, num total de três horas. Este loop que me leva até à zona ribeirinha tem naturalmente o problema do pace ser muito pouco representativo de um maratona plana (mas útil para Madrid!), isto sem contar com o vento que costuma estar forte e que se estiver de Oeste, como era o caso, vai bater o tempo todo contra na parte mais exposta. Começou a chover pouco depois de começar, mas tudo bem, eu voava. Notei uma diferença face aos treinos muito cedo. Às 19:30 o corpo já está “quente”.

Não há nada mais bonito que a noite junto ao rio com um bocadinho de borriço molha parvos, porque as poças, as gotas perladas, os reflexos, tudo isso amplia as luzes dos candeeiros, dos barcos, da lua, dos carros e cria milhões de reflexos de diamante na constelação da cidade e outras coisas do género (quanto me batem as endorfinas fico assim bastante poético).  O próprio ar fica mais cristalino e os sentidos aguçados, sem as agressões de tanta gente a correr e confusão. A chuva já batia muito forte no Parque das Nações e só vi alguns amadores a correr, menos um tipo que ia rápido, mas que estava num treino curto. Na ligação do Parque das Nações a Santa Apolónia só vi um desgraçado, todo equipado com impermeáveis e calças, que lutava desesperadamente contra o vento. Aqui a coisa tornou-se caótica. As rajadas eram tão fortes que quase me desequilibravam. Experimentei correr junto a pavilhões, depois junto ao comboio e por fim atravessei as 4 faixas e fui correr na estrada por dentro do Beato, para ver se escapava ao ciclone. Melhorou um pouco, mas em compensação o percurso tinha subidas e era mais sinuoso. A chuva caía cada vez mais forte, era como um chuveiro intenso, a água escorria-me na cara, todo eu estava encharcado, a roupa pesava-me, colava-se ao corpo. Mas vi coisas inacreditáveis, como cascatas a cair de telhados, iluminadas pelas luzes laranja que lhes davam um ar de ouro brilhante incandescente ou os meus pés a abrir buracos nas poças e a sair antes da água se fechar de novo para me molhar… Não sei explicar, mas quem corre muito sabe o quão poderosas podem ser as visões lúcidas nestes momentos. Já na baixa, o dilúvio deu lugar ao caos. Até tampas de esgoto saltaram com o dilúvio à minha passagem. Chapéus de chuva a voar, bombeiros a passar, autocarros a causar tsunamis para cima de mim… Parecia um videoclip da Bjork tipo oh so quiet versão fred astaire na rain se ele fosse maratonista. Aliás, para conseguir saltar por cima de certos rios que se formam na baixa (António Costa = indiano = monções, coincidência? i think not) a minha corrida assemelhava-se a qualquer coisa tipo sapateado, para gáudio dos poucos turistas enfiados estoicamente nas esplanadas debaixo de toldos que ameaçavam ruir e só não voavam porque tinham 2 toneladas de água a acumular perigosamente. Naturalmente, só de calções e t-shirt técnica comecei a sentir-me um tanto ou quanto gelado, porque quanto a ridículo, a privação de oxigénio e as endorfinas tratam de nos tornar indiferentes. Nestas condições de muita chuva, primeiro estranha-se, depois que se f***. Entranhar não se entranha que a pele é à prova de água. Quase. A minha ficou toda engelhada nos dedos e nos pés.A subida da avenida da Liberdade e Fontes Pereira de Melo foi difícil, começava a ter princípios de frio e os músculos das pernas mais presos, o que me acontecia no BTT em dias de chuva, mas na corrida é raro. A água não é de todo o pior e muito menos o frio. A pior combinação é chuva com vento. O calor do corpo dispersa-se rápido e sem darmos por isso começamos a arrefecer demais, com sensações de músculos presos.  Quando cheguei ao EUL já lutava para manter o coração no ritmo desejado (140-150), o meu corpo adormecia e via-me nos 130 e pouco, acelerava. O EUL cheio de lama, mas cheio, nem no trai vi tanta lama como naquela recta do lado oeste, quase caí (era bonito). A chuva aqui já tinha diminuído bastante e por fim entrei nos 30′ finais que deviam ser feitos a 160-170bpm. Foi muito, muito duro. Vi-me em dificuldades como não me vi há muito, a contar dolorosamente os minutos finais. Terminei exausto em frente à minha casa e bastante emocionado por ter conseguido. Eram quase 23h. Nisto, e tendo em conta o exposto, fiz o meu 2º melhor tempo de 30km.Vale o que vale. Foi o primeiro treino de 3h em que fiz mais de 30k, isso tenho a certeza. Mas foi duro e não cheguei ao pace de maratona sub 3h30′ na recta final no campo grande, o que me deixa apreensivo. Tenho atenuantes e foi um grande treino. Vamos ver.

Já tomei o benuron devido às dores nas tibiotársicas, e estou a beber o meu cházinho de roupão e pantufas que já não tenho a vossa idade.

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