ver é acreditar

A gralha linkou um excelente artigo no NY Times (What Good Marathons and Bad Investments Have in Common) nos comentários do meu post anterior e que mostra como a maior parte dos tempos dos atletas se concentra em cut-offs como as sub 4 horas, sub 3:45 etc. É raro acabarem em 4 horas e 2 minutos, mas muito mais gente acaba em 3 horas e 59 por exemplo. Eu próprio vivi essa experiência em Madrid em que se formou um pelotão em torno de cada pacer. Contudo, Penso que há um aspecto que considero muito relevante que creio não ter sido abordado no artigo. Tenho pensado nele bastante a propósito disto de estabelecer objectivos de tempo.

Talvez não tenha sido referido no artigo porque talvez (especulo) a pessoa que escreveu o artigo não seja ela própria atleta, apenas viu aquele estudo e fez (e bem) a ligação entre os dois temas. Aliás, há 2 aspectos. Um deles é muito óbvio. A maratona tem pacers oficiais que vão com balões. As pessoas fixam um pacer e seguem-no para conseguir aquele tempo. Mais atrás e perdem de vista o pacer (basta um atraso de 1 minuto por exemplo) e se o ultrapassam, como eu até fiz a certa altura, perdem a referência visual e abrandam. Por isso, tendo em conta que os pacers costumam até partir com um avanço nas maratonas muito povoadas em que demoramos uns 2 minutos a passar a partida (e só aí começa o tempo de chip) e eles já lá vão, sabemos que se estivermos colados a eles fazemos sub xis tempo. Isso explica em parte porque é muito complicado fazer um tempo perfeitamente entre, digamos, 3 horas e 3 horas e 15 minutos. No meio não vemos pacers!

Ok, isto é o básico, o outro ponto mais relevante é que o cérebro tem um papel fundamental na performance e a questão de “acreditar” que se consegue é tão importante como as alterações físicas propriamente ditas que advêm do treino. Sei hoje que se para o ano correr o RDUT de novo (bem provável) que fiz em 16h, quero apontar não para as 15h, mas para as 14h ou mesmo 13h. Só pelo facto de conhecer o percurso, de já ter corrido 80km uma vez, de esperar não ter os mesmos problemas que me afligiram, de ter confiança, só isso faz um mundo imenso de diferença, aliado, pois claro, a uma preparação pelo menos tão boa. É radicalmente diferente partir pensando “será que aguento vivo até ao fim” para “quero manter o ritmo xis no plano, nas descidas vou poupar-me, nas subidas subo a correr até 2% de inclinação” etc. com um plano para um determinado tempo. O meu plano era humilde, a experiência seria transcendente, mas… será coincidência que fiz um tempo em cima das 16 horas que era precisamente o tempo que eu tinha determinado como “muito bom”? Nunca acreditei fazer em 15 horas por exemplo.

Ocorre uma negociação connosco entre aquilo que é realista e aquilo que é demasiado ambicioso. No meu caso, para Málaga, os extremos estão entre o 3h30′ e o 3h45′, mas ou aponto para um tempo ou outro nos treinos e só vou desistir das 3h30′ se for evidente pelos testes que não chego lá. Aí foco-me nas 3h45′ com a estratégia que referi e tento desfrutar da prova sem sofrer horrores. Recordo-me que para a maratona de madrid eu só estabeleci as 4 horas a poucas semanas da maratona, até lá pensei em tempos na ordem das 4h15 e 4h30. Não sei se não ocorre um condicionamento mental. É certamente diferente de fazer o mesmo pensando em algo como “vou tentar as 3h e 45′, logo vejo se consigo chegar às 3h30′. Aí já nos estamos a condicionar para limites mais modestos. O que quero dizer é que é uma questão de longo prazo, uma decisão diária que precede o evento da maratona e não uma negociação de sofrimento durante a própria prova, como numa negociação ou numa decisão do tipo das que são descritas no texto.

Acrescento que um objectivo ambicioso torna o treino mais interessante e motiva-nos mais. Amanhã tenho a tal série de intervalos 6x1km que devo correr no “10k pace”. Se eu definir como objectivo as 3h30, devia tentar correr esses intervalos a 4:28. Se por acaso conseguir algo próximo, continuo a acreditar.

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5 thoughts on “ver é acreditar

  1. Pessoalmente prefiro muito mais a técnica do intervalo. Apontar para as 3h30 (para continuar o teu exemplo), treinar para elas e esforçar-me para conseguir esse tempo, mas tendo um objetivo mesmo assim ambicioso mas um pouquinho mais sóbrio para evitar desânimos extremos durante a prova. É que assim à medida que se vai aguentando a passada das 3h30 vai-se tendo cada vez mais ânimo, do género “Ena, estou a conseguir, vou conseguir!” e o entusiasmo é ascendente porque se tem a rede de segurança dos 3h45 por baixo, que mesmo que começasse a correr mal a prova ainda seriam alcançáveis. Não sei se isto faz sentido… A bottomline aqui é que prefiro ser surpreendida por mim própria pela positiva no dia da prova do que fazer um esforço incrível e sair de lá zangada.

    1. Faz sentido. É assustador pensar qu por uns míseros segundos saímos zangados! É tão abstracto… Mas ao mesmo tempo, a passada das 3h30′ pode-te estoirar e nem para 3h45′ dar. É uma diferença enorme, 15 minutos, não parece mas é 🙂

  2. Um amigo meu foi fazer este domingo a maratona de Lisboa. O objectivo óptimo dele seria baixar das 4h, o razoável fazer 6mins de pace (4h12m). No entanto, ele que tem um tempo de meia para aí a bater na 1h40m, disse-me que iria tentar fazer 5 mins de pace até onde conseguisse e lidar com o esforço depois.

    Em meia já o vi fazer algo semelhante e aguentar. Na maratona, salvo erro, fez a primeira metade em 1h45m, até aos 30kms aguentou para aí com 2h40m e nos últimos 12kms estoirou em pleno e acabou para aí com 4h20m.

    Por aquilo que vou aprendendo, isto entre atletas puramente amadores, até aos 30kms é fácil estipular um pace e cumprir ou até superar, mediante um treino enquadrado com as nossas capacidades. No dia da corrida, especialmente maratona, joga também o factor adrenalina, o clima e a reacção do nosso corpo que depois dos 30 tanto se pode manifestar negativamente como ser o nosso melhor amigo e aguentar estoicamente.
    O ano passado fui sovado pelo calor na maratona de Lisboa e aconteceram-me coisas que nunca tinha visto, especialmente a partir dos 28/29kms.

    Para mim tem resultado em provas longas, quando o tempo está favorável, metades iniciais mais defensivas, mesmo que a ver a malta dos paces lá mais à frente e gerir o esforço do meio para a frente. Mas isso também acho que depende de atleta para atleta. Já vi tipos com tempos fenomenais em 15kms e meias (bem, pelo menos melhores que os meus) que fazem os últimos 1 ou 2kms já de rastos e até parcialmente a andar. Eu prefiro guardar o turbo para o fim 🙂

    1. Se ele faz a meia em 1h e 40 ser-lhe ia muito realista e alcançável uma meia sub 4h (aliás, mais perto das 3h30m) mas é uma questão de treinar a endurance e ter uma estratégia. Não faz grande sentido isso de meter turbos na primeira parte da prova e ver o que dá e estoirar… Faria mais sentido como dizes, defender nos primeiros 20km e na segunda metade acelerar progressivamente. Mesmo os teus amigos com tempo melhores, podiam ter tempos muito melhores se calhar se abrandassem o pace por uns miseros 5 ou 6 segundos por km 🙂 Na maratona é como dizes, a partir dos 28-29km para corredores na casa das 4 horas… é muito provável a parede, é como passar para outra dimensão. Entram variáveis muito importantes que corredores de meia maratona para baixo raramente encontram: reservas de glicogénio a zeros, capacidade de metabolizar gordura para obter energia, ingerir uma boa quantidade de hidratos (gel etc.) sem enjoar, boa hidratação e electrólitos. Eu em Madrid, apesar de conseguir manter o pace no limite para as sub 4h, vivi um inferno. Penso que a chave nessa prova foram os electrolitos e hidratação. Andei 3 ou 4 meses a treinar em chuva e frio (janeiro a abril) e no dia da prova estava sol e algum calor. Na altura não tomava electrólitos…. foi muito mau. Ainda estou a afinar isso, vou passar a tomar em capsulas (até porque na maratona não vou levar água comigo). Tinha umas pastilhas efeverscentes para as ultras mas ao fim de umas horas o corpo pede água pura e rejeita mesmo a água com o sabor daquelas pastilhas (zero calorias, mas vinham com sabores, foi um erro).

      1. Pois, é como dizes, há toda uma vertente de preparação que, numa maratona, dificilmente lá vai só com a pura força/capacidade atlética (isto sempre dentro do amadorismo).

        Em relação às longas distâncias, para além de me dar mal com o calor e bombar com chuva, também tenho estudado a forma como o gel e as bebidas isotónicas e afins resultam comigo.

        A partir dos 30kms, mais facilmente como do que bebo tudo o que tenha sabores. Água sim, consigo, desde que em doses parciais (mandar abaixo garrafas tipo camelo só no fim.
        Há um gel que existe em forma hidro (é quase sumo e não gel) ao qual me tenho adaptado melhor e será esse que levarei na próxima, por também já não querer arriscar experimentar novidades nesta fase.

        Mas fiquei curioso em relação às cápsulas que referes 🙂

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