porquê correr ultras?

É uma boa pergunta.Treinei 99% das vezes sozinho e já aqui escrevi que gosto de treinar assim, sobretudo pela questão logística e ter muito pouco tempo disponível e combinar cenas faz perder ainda mais tempo. Por contraste, adoro o dia das corridas e ver pessoas e partilhar a experiência. Aqui no RDUT pude encontrar uma pequena parte da pequena comunidade de ultra maratonistas que como aves migratórias aparecem vindos de todo o país e mesmo do mundo. Se numa prova do tipo corrida do Tejo (a minha primeira prova há pouco mais de um ano) ou mesmo uma Maratona de Madrid ou trails curtos encontro pessoas de todo o tipo e todos os níveis, no  RDUT 80k havia apenas 99 atletas na partida às 6 da manhã em Peso da Régua.

Conheço alguns corredores melhores do que eu que nunca se meteram sequer numa maratona e para quem uma ultra é uma loucura. E nesta ultra do DUT conheci algun corredores que estão em termos físicos num nível “inferior” (entre muitas aspas) ao meu e que no entanto correm 80k com mais de 4000m de desnível. Não é uma questão, pois, de nível.

Penso que a ultramaratona está para a corrida como os descobrimentos para a vela. O que Magalhães fez foi “vamos sempre para Oeste” e foi, continuou a ir, sempre (bom a frota dele foi, ele não teve muita sorte). Assim é com a ultra. Acho que há muitos atletas que conseguiam fazer este tipo de provas se quisesem ir sempre para Oeste. Eu não perco a noção de que correr 10k em menos de 40 minutos é mais difícil do que finalizar uma prova de 80k em 16 horas, mesmo que quem esteja de fora deste desporto não valorize suficientemente essas coisas, em minha opinião (correr a maratona em sub 2:30 é estupidamente mais raro e difícil que fazer 250km no deserto na marathon des sables). Pela minha experiência de sub 4h na maratona de Madrid, mantenho que essa prova foi mais dura e violenta que as 16 horas do RDUT.

Porquê a ultra? Não sei responder, pois cada um terá os seus motivos. Penso que é uma ocasião de viver algo épico, uma destilação de uma experiência pura limite que não se consegue obter de outra forma e que, ao contrário do que se pensa, desde que com algum treino e boa preparação, não é um calvário tenebroso. Eu pensei mesmo que iria sofrer horrores depois dos 42k,o meu limite. Errado. Sofri de facto muito, mas não mais do que nos treinos mais duros, a verdade é essa e de facto sofri menos do ponto de vista do tédio, daquela impaciência de “este treino nunca mais acaba?!?!” Eu senti-me literalmente dopado aos 50k, mesmo com a dificuldade da subida, a amnésia no abastecimento de Fontes, a forma como tudo fluiu ao longo de horas, mostrou-me que o nosso corpo e mente têm truques escondidos. Só a curiosidade de ver o próximo abastecimento, a próxima curva, o próximo monte, só isso me deixou suspenso e ávido o tempo todo, até ao culminar do desejo de chegar à meta nos kms finais. Eu conheci um lado de mim que não conheci.. O lado para lá de uma exaustão aparente, aquele sinal de “acabou-se”, seja por cansaço, por dor, e depois a regeneração segura até atingir um nirvana que tinha tanto de sofrimento como de adrenalina, inundado de endorfinas. Na poderosa subida da “Diana”, uma coisa absurda a pique no Marão, eu cheguei a dançar de alegria e no topo cruzei os bastões e gritei “FODASSSS!!!” tal era a “epicidade” daquilo. A certa altura aos 60km eu senti-me eterno, pensei que correr nestas serras era como fazer amor com estas serras, que sentir cada pedra, cada subida e descida era como ser uma árvore que fixa as raízes num solo e o abraça e que ver o país de carro é um amor imberbe e platónico. Com o frontal aceso no escuro a experiência ainda se torna mais onírica, as sombras, as luzes distantes. Bem que disse ao Ricardo que correr de noite era mais fácil, pela minha experiência da Ecomaratona de Monsanto e ele confirmou, parece que de noite a dor diminuiu e o tepo passa mais rápido. Porquê? Não somos os primeiros a pensar isto, mas porquê? Será que é porque de noite estamos focados nos metros mais próximos, e não temos noção da montanha gigante à nossa frente?

As pessoas que mais partido tiram de uma ultra são as que nunca acreditavam serem capazes de a fazer em primeiro lugar. Este post é dirigido a algumas pessoas que sabem bem quem são, mesmo que eu não saiba quem elas são.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s