escolher uma sapatilha de trail… dureza

Assisto a isto 300 vezes… Alguém pergunta num fórum ou num grupo de facebook qual a melhor sapatilha que seja em conta, e cada cabeça sua sentença. Todos juram que sapatilha A ou B é a melhor, nem que seja pelo facto de a terem comprado também e isso fazer parte do processo de auto-reforço positivo pós-venda para justificar uma compra que se fez. Por outro lado, também há opiniões muito negativas sobre modelo C e D porque o próprio teve umas que se estragaram ou porque não gostou delas. Não estão a ser facciosos, a experiência com uma sapatilha depende de tantos factores, incluindo a sorte e azar, que é normal haver opiniões dispares sobre a mesma sapatilha. Este meu post também é para me justificar a mim mesmo o investimento (o último nos próximos 366 dias, juro) numas sapatilhas diferentes.

Se a escolha de uma sapatilha de estrada pode ser complicada, a escolha de uma sapatilha de trail ainda é pior. Na estrada as condições são basicamente as mesmas e, considerando que as sapatilhas são confortáveis quando as experimentamos e assentam bem, o principal eixo de escolha (mas não o único) costuma ser o nível de amortecimento da sola. Temos desde camadões de sola até coisas minimalistas e ultra-leves. Normalmente, costumam receitar ténis mais confortáveis e estáveis para principiantes ou corredores mais pesados e ténis mais leves e minimalistas para experts. Nas de trail para além deste eixo há muitos outros factores, como o tipo de sola / piso.

As sapatilhas de trail tendem a ter menos absorção de impacto que sapatilhas de estrada. As sapatilhas de trail têm de sacrificar parte da espessura da sola para tracção, coisas como pitons de borracha ou rastos mais profundos para aderência, normalmente num material rígido. Os trails podem ser muito mais macios que asfalto e assim dispensar tanta absorção e reduzir peso. Acresce ainda que algumas sapatilhas têm uma camada rígida protectora na sola, para evitar perfurações ou que o corredor senta pedras bicudas num terreno irregular.

Contudo, apercebo-me que até à data, nos meus trails em Sintra, Montejunto, Bucelas, Arrábida, Monsanto, Cucos e a ilha de Menorca, há uma variável comum: dureza do piso. E que essa dureza acaba por ser a principal variável num trail longo, para mim.  Talvez seja próprio da paisagem Mediterrânica. Ou de ter corrido mais no verão e ainda não ter feito provas em lama. Isto foi de certa forma uma surpresa e uma aprendizagem que demorei a fazer, pois fui muito condicionado pelo que li, ou seja, que correr trail era óptimo para os impactos nas articulações porque o terreno é mais fofinho que estrada. E também fui condicionado pelo Born To Run, esse livro é muito pró-minimalista (exalta até o correr descalço) e por isso quis ser melhor corredor.

Quando acabei a maratona de monsanto com as salomon mantra, um modelo híbrido, mas mais vocacionado para trail, tive umas dores fortíssimas nas canelas e pés, dos impactos das longas descidas em asfalto (pensei que a prova fosse mais em single tracks de terra). Dores que não tive na maratona de Madrid com os Saucony Triumph de estrada (confortáveis) uns meses antes. Mijei sangue nas semanas seguintes de cada vez que ia correr. Em Menorca, em piso de rocha / lava, corri de novo com estas salomon mantra. “Se é trail, então corro com ténis de trail e levo estes que são leves e híbridos”. Resultado de uma corrida de 18km:  lesão interna, na zona do diafragma, lado direito, dos impactos dos meus orgãos (estômago?) contra o mesmo, agravados pelo tipo de terreno muito irregular (saltos constantes de pedra para pedra). 15 dias sem correr e uma dor de burro permanente. Nunca tive disto com ténis de estrada. O próprio Kilian Jornet que corre com uns modelos ultra minimalistas da Salomon (já as calcei, é inacreditável a ausência de protecção daquilo, são tão leves que nos sentimos menos do que descalços…) diz que uns ténis minimalistas obrigam o corredor a ser melhor, a evoluir. Acredito plenamente, mas ainda não estou lá e até Setembro não vou a tempo!

Se me preocupo com isso é por causa da ultra de 80km. A minha capacidade de terminar dependerá do meu elo mais fraco. Um dos candidatos é a minha vulnerabilidade aos impactos da corrida. Acredito que não desistirei por exaustão, devido à minha teimosia extrema e ao facto de terem alargado o tempo para 22 horas, o que me permite gerir melhor a prova. Pelo que pude perceber pelo fabuloso video promo da prova que vou fazer no Douro /Marão, o piso será sobretudo duro, rochoso.

Num piso mole, um sapato mais confortável não prejudica. O trade-off é o peso extra.  Também há um aspecto relevante, uma sola alta prejudica a estabilidade e potencia entorses e heelstrike. Não obstante, comecei a perceber que preciso de mais absorção de impactos e que ainda estou longe de poder correr com sapatos mais minimalistas. Podia culpar as Salomon Mantra, mas mantenho que são umas sapatilhas muito boas. Tirando o facto de largas porções dos rastos da sola se terem desfeito nas aguçadas rochas calcárias do extreme trail dos cucos. E do mesmo, embora menos, ter já sucedido às Wings XT 3 de que disse bem aqui há tempos. Mantenho a opinião positiva das mesmas, mas para o meu peso e para este ponto fraco, para o tipo de terreno que antevejo, espero ter justificado a inclusão de mais uma no meu arsenal, as La Sportiva ultra Raptor, vocacionadas para absorção máxima e ultra maratonas. Espero com o tempo poder ir no sentido de sapatilhas mais minimalistas, mas a curto prazo, preciso de um tanque para estes eventos de longa duração. O calcanhar enorme vai dar jeito na enorme descida na ultra maratona, quase 2000m em poucos kms, desníveis de 30%… Logo darei as minhas impressões. Curiosamente, acho que são iguais às que o João Marinho utiliza nesse video promocional. Têm muito boa reputação no meio, o próprio Carlos Só corre com La Sportiva. Agora explicar isto à minha namorada é que vai ser puxado, ainda hoje gastou-se 70 euros em farmácia…
La-Sportiva-Ultra-Raptor2

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One thought on “escolher uma sapatilha de trail… dureza

  1. Com tanto quilómetro e desnível acumulado, é capaz de ser inevitável variar regularmente o calçado. Eu ainda não fiz mais de 200 Km em trail, as Wings XT 3 estão frescas que nem uma alface. Ahh, como é bom arrastar a desculpa de que se é principiante 🙂

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