8 horas para 43km e 2500m+ Sintra TRail Extreme

Foi assim o mítico Sintra Trail Extreme:
perfil
Demorei 8 horas e 8 minutos a completar os cerca de 43km do percurso e os mais de 2500 de desnível positivo (e negativo). O STE é um percurso sádico criado pelo meu treinador e tinha sido, até Domingo, percorrido apenas por mais 2 atletas, o próprio José Carlos Santos e o Nelson Diogo (com um tempo de 5h 42!).
ste

No Domingo foram vários os que responderam ao desafio, muitos para treinos mais curtos. Apenas eu e mais 3 completámos a totalidade do percurso: Didier Valente, Rui Sequeira, Bruno Fernandes. Eles os 3 no tempo de 6h:31 e eu no tempo de 8h e 8′. Estiveram mais grandes atletas presentes no treino (eu não sou um!) como o Bruno Safara que estava em prepração para o CCC do Mont Blanc e não se podia esticar e me acompanhou alguns bons bocados.

Depressa percebi que não podia acompanhar o grupo por isso fiz a prova ao meu ritmo, o ritmo a que penso fazer a ultra do Douro, apontando às 16h de prova.

Esta prova / treino teve para mim vários elementos extremos e penso não exagerar se disser que isto foi a prova mais dura que fiz (embora o nível de sofrimento mesmo assim estivesse longe da última hora da maratona de Madrid). Primeiro, o perfil altimétrico. Como se pode ver pelo gráfico, tratam-se de subidas e descidas muito íngremes. Não tem partes rolantes em que os km’s se queimam sem dar por isso. Todos custam, todos exigem esforço, seja para travar a descida, seja para içar o corpo aos 200, 300 metros de cada vez a partir de vales profundos. O segundo ponto muito relevante é que tem 1 loop de cerca de 19km que se repete duas vezes. Ou seja, aos 21km exactamente (quase 4 horas depois de começar) passamos por um ponto onde podemos voltar para o carro fazendo apenas mais 2k ou então fazemos mais um loop, comprometendo-nos para mais 4 horas e mais uma dose cavalar. Isto é mesmo muito duro, começamos com dúvidas a alguns km’s do ponto de cruzamento do loop. Ao passarmos por dificuldades no primeiro loop, sabemos que vamos passar por aquilo tudo outra vez, mas mais cansados. É mesmo tortura psicológica! Eu passei pelo ponto crítico sem hesitar, para mim era impensável desistir, porque sabia que desistiria do DUT. O objectivo desta provação para mim era testar mesmo o meu limite, não era desistir antes de chegar ao mesmo. E aos 21k ainda não tinha lá chegado. Uma vez virando à direita no ponto crítico em vez de esquerda, não ia voltar para trás. Outro ponto extremo foi terreno. Tudo single-tracks técnicos, enfim, quase tudo. Nenhuma descida onde pudesse desligar. Sempre a exigir negociação, aproximação, equilíbrio, esforço. Subidas, idem “”, muitas delas nas famosas pistas de downhill de btt de sintra, cheias de socalcos, degraus, sinuosas. Depois houve mais umas coisas extremas, mas que ainda bem que aconteceram. Uma foi ter levado Perpetuem para 6 horas e ter estado 8 a correr. Ou seja, tive um deficit calórico grande. Como isto foram 8 horas em autosuficiência, só com uma paragem no convento dos capuchos para água, acabei por sofrer muito com a sedimentação do perpetuem num cantil de 500ml. A certa altura ele adquiriu uma consistÊncia pastosa e doce insuportável que me dava vómitos. Estive quase 2 horas sem comer nada, até chegar ao convento dos capuchos e diluir aquilo com mais água. Descobri que não me dou bem com uma dose de 3 horas misturada em 500ml, 2 horas é o máximo. Também experimentei uma dose máxima de electrólitos, o dobro do que costumo levar, e a água às tantas dava-me sede de tanto sódio que tinha. Acho que em 8 horas bebi uns 4 litros de água no total.

Por último, e muito importante, a questão de ver no terreno o meu nível comparado com o nível de outros atletas muito melhores do que eu. Numa prova normalmente habituo-me a ter 50% dos atletas piores do que eu, ou mesmo mais. Ali acho que tive um treino com uma certa elite do trail. Ver o que eles encaram como ritmo “fácil”, um pelotão de 10, 12 atletas, a correr daquela forma… mesmo que só eu e mais 3 estivéssemos para os 42km, fez-me ver que tenho de comer muita sopa, eu era o mais fraco, pelo menos fisicamente. Acabei por correr boa parte da prova sozinho. Mas uma coisa é certa, descobri que sou brutalmente teimoso e orgulhoso. Para mim, a desistência era impensável. Em 8 horas de esforço dá para pensar muito nas coisas. Acabei muito, mas mesmo muito, cansado. Apesar disto parecer metade do que vai ser o DUT, acho que as coisas se vão compor. Primeiro, no DUT tenho ainda (e muito mais) adrenalina e compromisso para acabar. Segundo, o terreno está longe de ser tão técnico. Terceiro, há abastecimentos . Quarto, vou ter uma estratégia ideal de nutrição, já percebi com os erros deste treino (e o sucesso do treino da semana passada que me correu bem) o que devo fazer. Quinto, não tem loops e é em território desconhecido. A paisagem nova serve de distração psicológica, de curiosidade, de ver o que vem na próxima curva. Resumindo, apesar de ter sido extremo (ainda hoje tentei correr 1 hora e só aguentei 30 minutos, nõa consigo descer escadas etc.), foi uma aprendizagem boa a vários níveis.

Mas não recomendo.

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afinal

Decidi recuar. Hoje não fiz a 1h fácil programada. 5ª feira fui ao Lux pela primeira vez em muito tempo. Noitada, copos, já se sabe. O que não sabia é que isso tinha um impacto estapafúrdio a nível de forma. Vamos em Sábado à noite e ainda estou a sofrer os impactos de uma perturbação do horário de sono de da desidratação própria destas noitada: pés e pernas inchados que parecia o homem elefante. Chá de alho para cima. Detox. Dormir com as pernas elevadas por um edredon enrolado. Gelo. De manhã estavam ok de novo, mas hoje tenho de fazer o mesmo. Amanhã, os 42k em Sintra com 2500m, com amigos que ainda não conheço e se vão juntar por pertecerem aos grupos do meu treinador e outros….Vai ser a primeira vez que alinho numa coisa assim, mas cada um segue ao seu ritmo e tenho o track gpx para me orientar.

 

Atlas Toubkal

Ando a fazer pesquisas de provas para organizar o calendário de 2015 e ter uns objectivos grandes no horizonte. A oferta é muita. Penso que para o ano vou fazer duas grandes em Portugal, sendo quase certo que faço o Trilho dos Abutres em Janeiro (50k na lousã) e depois outra que ainda não sei qual é. Também posso eventualmente fazer uma ou duas lá por fora, tentando conciliar turismo / férias com a dita prova.

Não sei se é de estar a terminar a leitura do fantástico Dune, mas agrada-me a ideia de correr nas montanhas de Marrocos no ultra trail Atlas Toubkal. Ainda sou verdinho para o Marathon Des Sables, isso tenho a certeza. Estes 100km com +6500metros de desnível… não sei. Parecem-me impossíveis agora, o que é bom.
atlas

glória efémera e cara

Hoje, 20km em 2 horas, a abrir, incluindo umas subidas em Monsanto.

treino

Esta semana já vou em 48km. E ainda tenho uns 8km a fazer no Sábado e no Domingo 42km em Sintra. Se aguentar tudo isto, farei mais de 90km, muito perto de 100km, numa só semana. A parte da glória é estar já nos tops do Strava em clubes e desafios de kms corridos for all the world to see, especialmente eu próprio. Uma pequena motivação extra, um “prémio”, pois quando comecei parecia-me irreal correr tanto numa semana. O prémio maior é saber que este sacrifício me vai ajudar suportar melhor a ultramaratona. Mas a que custo? Tenho pé direito numa lástima. Tive de fazer gelo e compressão e até cheguei atrasado ao trabalho. Durmo com packs de gel no pé, a perna em cima de 3 almofadas, elevada. O tornozelo inchado, disforme. Nada disto me incomoda especialmente durante a corrida, mas tem incomodado mais. A minha esperança é que a diminuição de esforço que se vai suceder a esta semana (embora a próxima seja ainda pesada), especialmente a última semana pré-ultra em que praticamente não conto correr, dê para recuperar tudo isto e estar a 100% na partida. E vou-me lembrar de todos estes treinos ao longo destes 3 meses, de todas as lesões, de todas as dores, das madrugadas a acordar para correr, das corridas longas ao sol, 20-30-35-42km, de mijar sangue, de geis enjoativos, de pele branca de sal… vai desfilar tudo e vou estar eufórico!