a mortalidade e a corrida

Gary “Laz” Cantrell, um dos fundadores de uma das corridas mais dura do mundo, a Barkley 100 milhas, tem uma frase de que gostei muito: “só conheces os teus limites quando desistes, é aí que traças a linha” A sua prova é famosa pelo muito elevado número de desistências. Em 30 anos, apenas 14 pessoas completaram a sua extensão completa, mas é preciso referir que a corrida em si é (era) bastante secreta e marginal.

Desde que comecei que 99% das vozes me dizem variações de “vai com calma”. Um grande amigo meu, excelente corredor (bem melhor e mais experiente do que eu) correu no máximo meias maratonas. Quando lhe pergunto porque não faz uma maratona, diz-me “ainda é cedo”.  Tem mais de 50 anos. Para mim, confesso, isto é difícil de entender, mas somos todos diferentes.

A ultra foi um objectivo muito rápido, é verdade. Há corredores que só experimentam uma deste nível com pelo menos 4 ou 5 anos de experiência, alguns esperam uma década e outros nunca. Regresso à frase de Laz: só conheces os teus limites quando desistes. O risco são lesões que impeçam de correr e sim, isso é estúpido, porque a ganância de hoje paga-se com semanas no estaleiro. Aprendi com os erros. Mas também aprendi com os loucos e sábios. Yannis Kouros, o maior corredor e ultramaratonista de sempre vive em cima de um cemitério. Longe de ser uma visão deprimente, diz que olhar pela janela e ver o cemitério lembra-lhe a perenidade da vida e de que é preciso agir. Eu não moro perto de um cemitério, mas a noção da mortalidade está-me debaixo da pele desde que vi o meu pai morrer no espaço de um ano com um tumor cerebral maligno. Talvez não passe de uma tentativa de extrair algo de positivo de um pesadelo, mas a morte torna absurdas as coisas médias, dando mais peso às pequenas e às grandes. Uma das minhas tristezas foi não ter dado netos ao meu pai no seu tempo de vida. E a minha maior aventura foi ser pai o ano passado. Há pessoas que esperam anos. Esperam para viver juntos, depois para casar, depois pelo momento certo, e finalmente têm um filho. Connosco não foi assim. Decidimos e pronto. É possível arrepender-mo-nos  de um filho nosso assim que vemos o coração dele a bater numa ecografia? E arrepender do quê? Porquê? Como?

A ilusão de controlo sobre as coisas importantes da vida é irracional. Assim como amanhã as coisas podem ir no sentido que imaginamos, também podem ir no sentido contrário. Tudo isto que vivemos é frágil. E não há nada mais precioso que a vida e o corpo que, qualquer atleta o dirá, é uma máquina extraordinária.

Eu tenho 37 anos. Eu vejo no documentário sobre Barkley 100 milhas um velhote entradote, que foi o primeiro finisher da corrida há 30 anos, a chorar por já não a conseguir fazer, em sequer o primeiro loop. Eu daqui a uns anos também já não consigo fazer certas coisas… Por exemplo, não vou conseguir fazer o treino que fiz este sábado. Para esse velhinho, lidar com isso era traumático. Aceitar a decadência biológica do nosso invólucro terreno? Não é fácil. Para mim não vai ser. Já estava a começar. Começou há 2 anos quando comecei a ter barriga. Perdi rapidamente 12 quilos a correr e fiquei com um peso que não tinha desde os 20 anos. O que é envelhecer? Há pessoas de 80 anos que se vêem ao espelho e dizem que a imagem não coincidem com o que sentem. Que se sentem jovens por dentro, que ainda têm 20 anos. E eu sei que comigo vai ser assim. Sei que vou sentir uma melancolia ao ver serras que em tempo conquistei, mas ao mesmo tempo vou sentir paz de espírito, uma paz de espírito ínfima quando comparada com a que me dá ver a minha filha a sorrir.

Quero ser daqueles velhotes que andam de bicicleta, que passeiam, que se mexem. E sei que um dia podemos não correr mais. Pode ser daqui a 20 ou 30 anos ou 40 anos, ou pode ser por um problema grave de saúde nos próximos tempos. Por isso para mim, é preferível ter pressa.  Quanto a desistir, também há algo de reconfortante em conhecer o nosso limite. Os cães são mais felizes com limites, dentro de uma hierarquia na matilha, num meio social, numa relação com o dono alfa. Assim é o meu espírito. A montanha pode derrotar-me, mas não sem luta. Se eu desistir, aprendo e recomeço. Pelo menos, fico com a paz de espírito que não ficou nada por dar. Dito isto, há que ser inteligente também e por isso precisei da ajuda do treinador e de falar com pessoas mais experientes. Uma coisa é querer chegar lá, outra é querer atalhos e falhar, e com isso ficar lesionado e perder tempo precioso.

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5 thoughts on “a mortalidade e a corrida

  1. Mais do que a mortalidade, sinto a perseguição da decadência. E não preciso de chegar aos 80 anos para me sentir com 20 por dentro. Quanto à perspectiva de paz de espírito, espero que se confirme mas ainda suspeito que seja uma espécie de prémio de consolação. Haja anos de vida para descobrir a verdade (e continuar aquilo do correr para dar vida aos anos e não para dar anos à vida).

  2. Muito bom post. Posso partilhá-lo nos meus círculos? Revejo-me em várias das ideias que partilhas. No meu caso, a corrida veio ajudar a preencher um vazio que crescia com a idade. O vazio que não queremos ver mais tarde… E é, hoje, imprescindível. Para mim, claro… Um abraço.

  3. Percebo perfeitamente o “enquadramento” que está na base do teu pensamento. Tal como na corrida, acredito que cada um tem o seu andamento, a sua margem de progressão e a forma como gere as suas próprias expectativas. Se a isso juntarmos a personalidade de cada um, não há receitas iguais e o que para uns é ideal para outros está longe disso.

    Longe de invejar, torço por aqueles que possam ter objectivos mais ambiciosos do que eu, sem querer fazer desses objectivos meus. Apesar de quase sempre ao longo da vida ter praticado desporto competitivo, o que a corrida me ensinou foi que a meta de cada não fica exactamente no mesmo sítio 🙂 e, a partir daí, tudo é relativo.

    Não temo a idade em termos do declínio físico, assusta-me muito mais o declínio mental, da mesma forma que há 4 anos que hoje já teria corrido quase uma mão cheia de maratonas acharia isso uma realidade muito remota. Se calhar daqui a dez anos os meus objectivos terão flutuado para algo que agora não prevejo. É a beleza da coisa e, no caso da corrida, vejo nas provas que não é por teres 60 ou 70 que a coisa não é possível. Depende dos dados que a vida te der. E esses só os vais conhecendo jogando.
    E se estás a jogar com convicção, espero que aquilo que retires do teu empenho seja sempre positivo.

    Força nisso rapaz 🙂

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