Correr e ouvir música – revisited

Escrevi há pouco tempo um texto onde defendia as vantagens de me ter habituado a correr sem música, isto depois de ter misteriosamente perdido o meu iPod shufle.  Quando enveredei pelos treinos longos para a maratona, acabei por gostar de correr sem nada nos ouvidos, especialmente nas corridas mais demoradas de domingo, em que a forma de combater o tédio residia em descobrir novos caminhos, explorar os limites da cidade, meditar, esvaziar a cabeça, observar. Contribuiu para me meter no trail, uma vez que a natureza é mais dada a estas contemplações e pus-me a pensar em ultra maratonas vs tentar bater os meus tempos em distâncias mais curtas em estrada. Contudo, depois de ter visto este extraordinário documentário sobre Yannis Kouros, em que ele fala do papel importante que tinha a música para ele, nem que isso implicasse a logística de ter uma carrinha a debitar canções épicas de pendor socialista por um megafone, comecei a reconsiderar. Também notei neste outro video sobre a corrida de Barkley 100 milhas que o atleta que a venceu (em 30 anos só 14 ou 15 atletas conseguiram completar a corrida) usou um iPod shufle igual ao que eu tinha e isto numa corrida que lhe demorou 58 horas a completar, só com uma paragem de hora e meia para dormir a meio. Yannis refere que às vezes a música pode ser perigosa, pois ele perdia consciência dos seus limites e podia lesionar-se gravemente se estivesse muito entusiasmado.

Como qualquer pessoa, sou sensível à música, as paisagens sonoras influenciam o meu estado de espírito. Antes das corridas era normal ouvir 2 ou 3x o Sail de Awolnation, uma música que fora daquele contexto acharia chunguita, mas que assentava perfeitamente no momento “épico”. Tinha listas completamente diferentes, umas mais ritmadas / electrónicas, outras que tivessem uma componente emocional épica ou energética como rock, punk rock, pop, outras playlist de músicas contemplativas (ex: electrónica experimental, sem ritmos marcados)  Numa prova muito longa há altos e baixos, momentos bons e momentos maus. Numa maratona como esta de Monsanto ou no trail dos Cucos, provas a rondar as 5 horas para mim, o estado de espírito tem modulações grandes, mas não diria que nestas é necessária música. Até pode ajudar, mas o trade-off de ter de me preocupar com mais um bocado de equipamento, fios dos fones etc. não compensa o benefício, embora possa estar enganado. Também tenho dúvidas se me ajudaria correr uma maratona de estrada como a de Madrid. A intensidade é tão elevada que a música me parece uma distracção irritante. Nestas provas podemos bater no fundo, mas quando batemos no fundo estamos a uns 10km da meta, com 75% da prova feita. À medida a que nos aproximamos e percorremos aqueles intermináveis quilómetros finais, o nosso desgaste  é compensado pela proximidade do fim. Há coisas a acontecer à nossa volta, corredores, por vezes público, como foi o caso da Rock  N’Roll da Madrid. Mas este Sábado à meia noite, ao km 35, na ciclovia da radial de Benfica, que nunca na vida teria energia mental e física para fazer mais 50km e subir uma Serra da Estrela e meia depois daquele ponto, devido às dores que estava a sentir nas canelas e tornozelos. Numa ultra de 15-16 horas no caso do DUT, é provável que eu tenha de me erguer de um fosso e voltar a um estado anímico suportável.

Uma prova deste tipo é, dizem os mais experientes, é 90% mental e 10% física. Então talvez eu deva ponderar de novo o uso de música como quem usa um dopping em momentos chave. Desta vez comprarei um Shufle à prova de água (há uma empresa que os vende). Terei tempo para colocar os fones e ouvir uma músiquinha ou duas quando for preciso. O mentor da corrida de Barkley diz que um atleta para vencer tem de ter capacidade de se rir dele próprio. O sentido de humor é a escapatória para o sofrimento. Recordo-me da minha primeira prova de 10km, a corrida do Tejo, e de no último km, comigo a ver tudo escuro e com o coração a mil, ter começado a Don’t Stop me Now dos Queen e de eu me ter rido por dentro quando ouvi o verso “i’m having such a good time, I’m having a ball”. Enfim, pode ser mais um “gel energético”, neste caso mental, e não implica ir a ouvir música o tempo todo, apenas em momentos em que me sinta num beco sem saída. Não terei grande paciência para uma coisa épica à Requiem for a Dream, mas uma pop divertida que não tenha nada a ver pode calhar bem.

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