escrever e correr

uma consequência da minha experiência na corrida foi sentir pela primeira vez na vida uma relação honesta, directa e transparente entre uma coisa e o meu investimento nela. Não existe nada pelo meio (a escrita, a edição, por outro lado, meu Deus). Nada. O feedback é total. Dás, recebes. Dás mais, recebes mais. Um dos encantos do poker (e do jogo em geral), para mim e para tantos, era a redução da vida a decisões, desculpem-me a repetição, decisivas e com resultados claros: ganhas ou perdes, jogaste bem, jogaste mal. O poker, contudo, tinha o problema grave da variância no curto prazo: metia-se o azar pelo meio, às vezes muito azar ou então muita sorte e tudo isso perturbava. Se é verdade que na corrida também há azar (uma pessoa torcer um pé ou engripar-sena véspera da maratona para a qual treino 3 meses), não há sortezinha nenhuma! “Corri a Maratona em 3 horas! Tive imensa sorte! A julgar pelos treinos o normal seriam 4 horas!” O que é impossível hoje, é uma questão de pequenos passos até ser possível, consistência e disciplina, mais de que saltos de gigante, que só acontecem nos dias das corridas. Não deixamos de nos surpreender com algo novo, como quando batemos um recorde pessoal ou fazemos uma distância que pensávamos impossível ou estamos a correr há duas horas e vamos com um sorriso, sem qualquer esforço, a voar.  E com esse processo há um constante reforço da fé de que outras coisas são possíveis e que nós somos muito mais fortes do que pensávamos. Pode-se estender isto para outras áreas da vida, este método? Para mim, o desafio mais óbvio é o da escrita de romances e vem mesmo a propósito, pois esta 5ª feira reencontro a minha agente que vem a Portugal por ocasião da feira do livro. Pode ser um ponto de partida para uma fase 2. O meu problema de disciplina ou motivação prende-se com um esmagamento inconsciente face à dimensão da tarefa pela frente. Quando escrevo para o romance, nunca consigo abstrair-me – no subconsciente – que estou no campeonato dos grandes e a pensar em grande a querer fazer algo de 300 páginas que arrase. No fundo, é como se eu tivesse começado a correr e que cada vez que saísse de casa com os ténis postos, estivesse com a disposição mental de correr uma maratona em menos de 3 horas. Já consegui fazer o 1º romance, menos mau, mas demorei tempo demais e ele precisa de trabalho editorial. A escrita deve captar um momento e o meu estado de espírito muda. Sucedeu isso no 2º romance, fiz 70 páginas antes da minha filha nascer, ela nasceu, ouvi-lhe a voz e a minha vida, o tema da minha vida, mudou, ganhei alguma hostilidade ao negrume e pessimismo daquelas primeiras páginas, não consigo estar a brincar com ela, ver aqueles sorrisos e gargalhadas e no segundo seguinte a ela estar a dormir, sentar-me numa secretária e remoer pensamentos. É tão mais fácil calçar os ténis e ver um nascer do sol, de cabeça vazia, cheia de vento. É preciso sobretudo uma consistência. O segredo de fazer uma ultra maratona está em conseguir correr 4 ou 5 vezes por semana e nenhum daqueles 4 ou 5 treinos parece demasiado difícil. Mas, como dizia, a culpa também é a da escrita! É que na corrida o feedback é meu, nada se intromete, é cá comigo, é objectivo. Na edição, junta-se outra coisa, um lag enorme, um hiato, entre o trabalho e o feedback, às vezes nem há nada. Está sempre a acontecer, não que seja o meu caso, mas há bons autores que não são publicados e são constantemente rejeitados pelas editoras e só sabemos deles porque finalmente foram editados! Imagino a quantidade de outros que poderiam ter sido, mas não foram, não tiveram sorte, tentaram uma, duas vezes, mas sem feedback, podem ter simplesmente desistido, assumido que não eram assim tão bons. E eu penso nisso, em desistir, podem crer e se não fosse o feedback ou algum ânimo pontual, já o teria feito. Ainda ontem recebi um convite para mais um conto para outra revista e também fiquei feliz da minha agente ainda se lembrar de mim e querer ver-me. São coisinhas assim que se encadeiam. É preciso é consistência e força de vontade. E no meu caso, agora, tempo livre!

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