aqui não há tantos ursos como nos EUA e é pena

Video com a tentantiva de Anton Krupicka de correr 14 picos montanhosos por mais de 160km, com um acumulado de altitude absurdo. Anton colapsa ao fim do 6º pico creio eu.

Anton Krupicka é um dos ultra-maratonistas americanos mais apreciados e famosos. Fez a primeira maratona de estrada aos 12 anos. O palmarés dele é considerável (ganhou leadville 100 milhas 2x) mas não é de topo na escala dos elites onde se move. O que Krupicka tem de único é, como dizem na primeira parte da reportagem sobre a tentativa Nolan 14, o facto de simbolizar a liberdade. Desde o aspecto de Jesus Cristo da corrida, ao facto de se deslocar numa carrinha velha, cheia de tralha, para acampar na montanha ou pernoitar numa cabana, a sua postura parece privilegiar uma atitude de regresso às origens, primitiva e dispara no corredor o imaginário de aventuras Jack London ou de filmes do faroeste, muito por culpa das paisagens de montanha americanas que vimos nesses contextos ou em documentários do National Geogrpahic. Scott Jurek, de quem já aqui falei, também tem vários elementos semelhantes. Os atletas europeus parece-me que têm uma mentalidade diferente. Super elites como o catalão Kilian Jornet ou o francês Sebastien Chaigneau, parecem atletas mais sérios, mais competitivos (em breve falarei de Yannis Kouros, o ultra maratonista grego, um dos pioneiros, que é uma classe à parte). O Sebastian Chaigneau, quando foi à corrida americana Hardrock 100 milhas, ficou um pouco espantado por uma corrida tão conhecida e mítica ter um aspecto tão amador, tão familiar e não-competitivo. Naturalmente ganhou aquilo por larga vantagem e provavelmente foi corrê-la para aumentar a sua notoriedade nos EUA (tem o patrocínio North Face). O Ultra Trail do Mont Blanc está para as ultras como o Tour de France para o ciclismo. Nos EUA o equivalente ao Tour de France seria o Race Across America que envolve uma corrida de costa a costa sem etapas, pausas reduzidas, dia e noite (quase 5000kms) e normalmente levada a cabo por amadores e veteranos, sem prémios monetários e com patrocínios mínimos. Há algo filosófico ou sonhador naquilo, um pouco como esta tentativa maluca do Anton em fazer aqueles 14 picos em pouco tempo, só porque sim, porque se calhar era possível. Suponho que muitos traços culturais / sociais de um povo se expliquem também pela geografia e clima. Já o escrevi a propósito das semelhanças que creio existirem entre muita literatura russa e americana. Nesses países, a natureza impõe-se, é majestosa, esmagadora, selvagem e mesmo perigosa. Os ursos, pumas e outros animais de igual calibre são uma preocupação real para qualquer pessoa que resolva fazer um pouco de btt, trekking ou trail running  por aqueles lados americanos. Existe isolamento. A europa continental, mesmo a dos alpes franceses, italianos e suiços, é incrivelmente bela e será certamente perigosa e extrema (o Mont Blanc em si é um colosso), mas não é isolada na mesma escala americana. Uma coisa são localidades como Chamonix, outra é uma vilazinha decadente de antigos mineiros e marginais como Leadville, que uma vez por ano acolhe uma corrida de uns quantos malucos só porque alguém conseguiu organizar a primeira com uns quantos amigos.

 

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One thought on “aqui não há tantos ursos como nos EUA e é pena

  1. Se calhar até dá para estender o paralelismo à música. E à arquitectura. E a tantas manifestações culturais.
    (e isto faz-me lembrar a desilusão da minha caminhada por Monsanto depois de regressar das florestas da Costa Rica – é verdade, é difícil contactarmos com a natureza virgem na Europa)

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