Corre devagar. Não, ainda mais devagar.

Lembro-me da primeira tentativa que fiz na corrida. Creio que foi aos vinte e seis, vinte e sete anos. Comprei uns ténis, demasiado pequenos. Fui correr para a zona entre Santa Apolónia e o Parque das Nações, a imaginar-me a percorrer a estrada sossegada que fica ao lado do Porto de Lisboa, mas nem 1,5km fiz. Recordo-me que pensava que o melhor seria dar passadas muito grandes e elásticas e aterrar no calcanhar pois era a zona em que os meus Nike qualquer coisa tinham mais sola. Fiquei cheio de dores nos ombros, dor de burro e no dia seguinte sentia picadas nos joelhos. Tentei correr de novo, pois tinha lido num site que se uma pessoa treinasse algumas vezes chegaria a sentir “a euforia do atleta”. Curioso como sou, queria experimentar isso da euforia, mas ao fim de 500 metros voltei para casa e nunca mais toquei nos ténis e reforcei o meu preconceito anti-corrida.

O meu caso não é raro. Muitos dizem: “detesto correr”. Não é difícil perceber porquê. Quando passo por parques ou zonas ribeirinhas como o Parque das Nações ou Belém, vejo muitos principiantes que, ao domingo, num dia glorioso e solarengo, fazem o seu sacrifício semanal. O rosto deles transparece mais sofrimento do que prazer. Vão demasiado rápido.

O nosso corpo de sedentários acumula dois pontos fracos muito sensíveis. Por um lado não está preparado para correr e a passada é pesada, por outro, temos excesso de peso. As duas coisas conjugadas provocam um stress exponencial nos joelhos, nas costas, nos tendões, nos músculos, enfim, em tudo o que se possa inflamar, rasgar ou partir. Daí que se gere uma espécie de armadilha da qual o principiante não consegue sair e o deixa frustrado. Se nos estamos sempre a lesionar, como podemos treinar e ultrapassar os limites iniciais? Então surgem os clichés: “não posso correr, tenho problemas nas costas” ou “não posso correr, os meus joelhos não aguentam” ou “detesto correr”. E acreditamos que somos morfologicamente incapazes de correr, que algo nos separa dos que conseguem, como se uns fossem agraciados com os genes certos e outros não.

O principal erro do principiante é correr médio/forte o tempo todo. “Correr” é uma palavra simples que designa muitas coisas diferentes. Eventualmente, o principiante tem dois modos: correr e sprintar como faria nos 100 metros ou 200. Esta é a primeira grande revelação na corrida:

É possível correr sem ofegar e sem sentir um esforço especial.

A segunda revelação:

Grande parte do treino (+-75% das horas) dos atletas de elite é feito em ritmos confortáveis e não em ritmos de alta intensidade.

Como somos pessoas apressadas e stressadas, achamos que já que vamos treinar 30 minutos, é bom fazer o tempo render e que o treino não conta se não ficarmos exaustos, transpirados e corados. Quanto mais exaustos, maior a nossa sensação de “accomplishment”. Toda a filosofia recente de treinos de fitness, como o HIT, orientados exclusivamente para perda de peso e corpos mais estéticos e musculados, focam-se nisto: “conseguir o máximo no mínimo de tempo”. Anunciam “consiga resultados extraordinários com apenas 15 minutos por dia”. Nas antípodas disto parece estar algo como correr lento e dedicar mais tempo, mas  é isto que faz a diferença e permite o salto: aprender a correr lento, sem pressas, trabalhando na capacidade para darmos passadas cada vez mais leves e perfeitas, sem forçar as articulações, fortalecendo as pernas, acumulando quilómetros de forma regular e consistente e evitando lesões. É difícil, no início, aceitar a ideia de que estamos a treinar se nem sequer transpiramos, se as passadas são tão lentas que todos nos ultrapassam. Mas é isto que permite ter as bases para evoluir muito.

No oposto está o correr rápido, na intensidade máxima, por breves períodos de tempo, até sentir os limites da exaustão a expandirem-se, em coisas como treino de intervalos, em que se fazem séries sucessivas de 200, 400, 800 metros etc. É outra forma de treino que por vezes não está radar de quem começa e que também é importante. No entanto, aumenta os riscos de lesões no início. Portanto, aprender a correr lento, acumulando tempo e kms nas pernas, é fundamental para passar a fase crítica inicial e sentir na corrida o que se pode sentir enquanto pedalamos uma bicicleta devagar num terreno plano: liberdade e até alguma euforia por sentirmos que podemos ir mais longe do que pensávamos.

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